Original da cidade de Toronto, no Canadá, Century Palm é um quarteto de pós-punk que parece replicar todos os acertos do gênero no começo da década de 1980. Formada por Penny Clark, Paul Lawton, Jesse Locke e Andrew Payne, a banda que se diz inspirada por veteranos como Wire, Neu!, Brian Eno e Simple Minds já acumula um bom repertório de composições avulsas no Bandcamp, porém, é na recém-lançada King of John Street que o som produzido pelo grupo alcança seu melhor resultado.

Sombria, mas em nenhum momento sufocante, a canção dominada pelo uso de melodias e versos acessíveis dialoga de forma explícita com o passado, soando em alguns momentos como um possível encontro entre o Interpol (dos primeiros discos) e a banda sueca The Mary Onettes. Com distribuição pelo selo Deranged, King of John Street foi a composição escolhida para apresentar o primeiro álbum de inéditas da banda, Meet You (2017).

Meet You (2017) 10/03 via Deranged.

 

Century Palm – King Of John St.

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Formada por Cinty Murph (vocal e teclado), Priscila Lopes (baixo), Camila Ribeiro (bateria) e Rodrigo Lima (guitarra), In Venus é uma banda de pós-punk/rock alternativo que se divide entre o som sujo da década de 1980 e um discurso bastante atual. Original da cidade de São Paulo, o quarteto acaba de lançar o primeiro single da carreira, Mother Nature, uma perfeita síntese de todo o universo de referências (instrumentais e poéticas) que abastecem o trabalho do grupo.

Com distribuição por três selos diferentes – Efusiva, PWR e Howlin Records –, a canção de apenas três minutos confirma toda a versatilidade do grupo. Enquanto os versos exaltam Gaia, a Mãe Natureza, musicalmente, a canção se espalha em meio a ruídos, quebras bruscas e doses consideráveis de distorções. Arranjos e vozes que dialogam com o som produzido por estrangeiros como Savages e Preoccupations, porém, mantém firme a essência do quarteto paulistano.

 

In Venus – Mother Nature

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Artista: Preoccupations
Gênero: Alternativa, Pós-Punk, Experimental
Acesse: http://preoccupationsband.com/

 

Nós somos uma banda que quer fazer música e tocar para os nossos fãs. Não estamos aqui para causar dor ou lembrar as pessoas de atrocidades do passado”. Com um anúncio publicado no Facebook, Matt Flegel (baixo, vocal), Mike Wallace (bateria), Scott Munro (guitarra, sintetizadores) e Daniel Christiansen (guitarra) deram início a uma nova fase na carreira da banda, substituindo o polêmico título do projeto, Viet Cong, e apresentando ao público um novo nome: Preoccupations.

Mais do que uma simples alteração no nome, um explícito exercício de transformação – o antigo título, considerado pejorativo por membros da comunidade vietnamita, fez com que a banda tivesse de cancelar uma série de shows pelos Estados Unidos. Da capa do novo disco – claramente inspirada em clássico da Factory Records –, passando pelo uso de temas experimentais e ambientações íntimas do som produzido no final da década de 1970, faixa após faixa, o quarteto de Calgary continua a provar de novas sonoridades.

Um bom exemplo disso está em Memory. Quarta faixa do disco, a composição de quase 12 minutos mostra a força do grupo em costurar diferentes atos instrumentais dentro de uma mesma canção. Uma lenta sobreposição de guitarras, batidas e vozes que vão do uso de melodias acessíveis ao mais complexo experimento, criando um espaço para a rápida interferência do convidado Dan Boeckner, uma das mentes por trás do Wolf Parade e também da extinta dupla de synthpop/pós-punk Handsome Furs.

O mesmo cuidado acaba se repetindo em outros instantes da obra. Faixa de abertura do disco, Anxiety, por exemplo, cresce nas sombras, detalhando um pequeno exercício atmosférico que logo se abre para a interferência dos vocais e sintetizadores. Mais do que uma lembrança nostálgica do mesmo som produzido por veteranos como Public Image Ltd. e Joy Division, uma clara extensão do som produzido há poucos meses dentro do primeiro álbum de inéditas da banda.

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Artista: Nick Cave and the Bad Seeds
Gênero: Alternativa, Pós-Punk, Experimental
Acesse: http://www.nickcave.com/

 

A dor sempre foi encarada como uma peça fundamental dentro de qualquer trabalho produzido por Nick Cave. Seja no romantismo amargo de Let Love In (1994), ou nos versos sangrentos que escorrem pelas canções de Murder Ballads (1996), basta um ouvido atento para perceber como o músico sempre dialogou de forma explícita com um universo de temas consumidos pela melancolia. Confissões, tormentos, medos e delírios angustiados que assumem um enquadramento ainda mais tocante em Skeleton Tree (2016, Bad Seed Ltd.), 16º registro da parceria com os integrantes do Bad Seeds e um fino retrato da poesia sorumbática que há décadas corrompe a discografia do cantor e compositor australiano.

Produzido em um intervalo de dois anos e gravado em diferentes estúdios, o sucessor do elogiado Push the Sky Away (2013) mostra a busca de Cave por som alimentado pelo uso de referências e temas eletrônicos. Sintetizadores, encaixes minimalistas e ruídos abafados, como uma extensão do material originalmente testado por Brian Eno em obras como Before and After Science (1977) e até mesmo por David Bowie no recente Blackstar (2016). Musicalmente, um registro silencioso, porém, turbulento e essencialmente doloroso em cada fragmento de voz.

Mergulhado em temas que falam sobre a morte, separação, saudade, culpa e aceitação, Skeleton Tree reflete com naturalidade a tristeza que tomou conta de Cave logo após o enterro do filho Arthur Cave, de 15 anos, morto após a queda de um penhasco no meio das gravações do trabalho. Ainda que parte expressiva das composições tenha sido finalizada antes do incidente, ainda em estúdio, Cave decidiu alterar os versos de determinadas canções, reforçando o caráter melancólico que sustenta o trabalho desde a abertura, com Jesus Alone, até a derradeira faixa-título.

Eu preciso de você / Em meu coração, eu preciso de você … Apenas respire, apenas respire”, desaba o compositor em I Need You. Sexta canção do disco, a faixa abastecida pelo uso de sintetizadores densos e batidas lentas funciona como uma perfeita representação de todo o material presente no interior do trabalho. Uma arrastada sequência de versos em que o músico australiano não apenas lamenta a morte precoce do próprio filho, como visita uma série de memórias nostálgicas, diferentes personagens e cenas entristecidas que dialogam com o sofrimento de qualquer indivíduo.

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Com o lançamento de Anxiety e Degraded, os integrantes do Preoccupations (ex-Viet Cong) conseguiram mostrar que a mudança de nome está longe de ser a única transformação expressiva na presente fase do grupo canadense. Dos ruídos eletrônicos ao uso de temas atmosféricos, toda a aceleração explícita no último álbum de inéditas da banda – um dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2015 – parece ter ficado para trás, garantindo um mundo de novas possibilidades ao quarteto.

Prova disso está em Memory. Um delicado registro com mais de 11 minutos de duração, dois atos parcialmente distintos e um espaço aberto ao uso de experimentos, guitarras carregadas de efeitos e ambientações tão melodias quanto ruidosas. A canção ainda conta com a presença do cantor e compositor Dan Boeckner, uma das mentes por trás do Wolf Parade e da extinta dupla de synthpop/pós-punk Handsome Furs.

Preoccupations (2016), será lançado no dia 16/09 pelo selo Jagjaguwar.

 

Preoccupations – Memory

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Artista: Séculos Apaixonados
Gênero: Indie, Pós-Punk, Synthpop
Acesse:  https://soundcloud.com/seculos-apaixonados

 

Não é difícil montar uma lista de artistas recentes que são assumidamente inspirados pela música produzida na década de 1980. Projetos nacionais e estrangeiros que sufocam pelo uso exagerado de sintetizadores vintage, batidas ecoadas, estética neon e versos sempre pegajosos, radiofônicos. Um eterno resgate do passado, maquiado e vendido ao público como novidade. Exageros, clichês e pequenas fórmulas instrumentais que os integrantes da Séculos Apaixonados buscam perverter nas canções de O Ministério da Colocação (2016, Balaclava Records).

Segundo álbum de estúdio do coletivo formado por Gabriel Guerra (voz e guitarra), Lucas de Paiva (teclado e saxofone), Felipe Vellozo (baixo), Arthur Braganti (Teclado e Voz) e Lucas Freire (bateria), o sucessor do elogiado Roupa Linda, Figura Fantasmagórica (2014) confirma a busca do quinteto carioca por um som ainda mais complexo, anárquico e desafiador. São sintetizadores sujos, ruídos submersos e versos abafados que tanto refletem o caos dentro de qualquer centro urbano como as constantes variações do mercado financeiro.

Livre do romantismo incorporado no trabalho anterior, O Ministério da Colocação faz de cada canção um curioso exercício criativo. Instantes em que o grupo passeia pelo mesmo pós-punk de artistas como Public Image Ltd. e The Fall – vide Disfarçando Riquezas na Triagem –; brinca com referências inusitadas – caso do “encontro” entre Roxy Music e Roupa Nova nas melodias de Dedo em Riste – e ainda coleciona fragmentos instrumentais de forma propositadamente instável, delirante – proposta explícita na urgência de Ele Também Foi Pra São Paulo.

Da abertura ao fechamento disco, parece difícil prever a direção seguida pela Séculos Apaixonados. O coro de vozes na pegajosa A Origem das Espécies, a ambientação nostálgica de Uma Vida Toda Planejada, o toque melancólico e sombrio em Medo da Cidade Quando Chove. Enquanto Roupa Linda, Figura Fantasmagórica parecia confortar todas as canções em uma atmosfera apaixonada e brega, com o presente disco são as trilhas independentes de cada canção que acabam seduzindo o ouvinte.

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Archy Marshall está sempre pronto para um novo projeto. Mais conhecido pelo trabalho produzido como King Krule, o cantor, compositor e produtor britânico passou os últimos anos pulando de um trabalho novo para outro, como um camaleão, mudando de sonoridade e até de nome. Depois de um ótimo disco lançado em 2015 – A New Place To Drawn –, o jovem artista está de volta com uma nova canção, FEEL SAFE 88 (Just Say No), primeiro criação sob o ótimo nome de The Return Of Pimp Shrimp.

Menos claustrofóbica em relação ao material produzido pelo músico como King Krule, a nova canção parte exatamente de onde Marshall parou no último ano. Um pós-punk sombrio, marcado pelo uso de batidas eletrônicas e pequenas ambientações obscuras, como se o artista lentamente ampliasse o próprio território criativo. Como o próprio reforçou no Facebook, a nova faixa está longe de parecer um registro isolado, sendo o início de uma nova “era” para Marshall.

The Return Of Pimp Shrimp – FEEL SAFE 88 (Just Say No)

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. Um dos principais problemas de artistas como Interpol e outros gigantes do revival pós-punk no começo da década passada foi a busca precoce por um som cada vez mais limpo, plástico e “comercial”. Canções originalmente climáticas, densas, mas que acabaram se perdendo em um jogo rápido de rimas e refrão acessível. O tipo de sonoridade evitada pelos integrantes do Preoccupations durante o lançamento de Viet Cong – um dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2015 –, e que deve se repetir dentro da nova fase…Continue Reading “Preoccupations: “Degraded””

. O romantismo explícito em Roupa Linda, Figura Fantasmagórica (2014) está longe de parecer o principal componente dentro da nova “fase” da Séculos Apaixonados. Dois anos após o lançamento do primeiro álbum de estúdio – 8º lugar em nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2014 –, Gabriel Guerra e os parceiros de banda encontram um novo mundo de referências e temas a serem explorados, firmando no discurso social e fragmentos da evolução natural a base para a recém-lançada Origem das Espécies. Primeiro single do…Continue Reading “Séculos Apaixonados: “Origem das Espécies””

. Pouco mais de um ano após o lançamento do primeiro álbum de estúdio, o “polêmico” Viet Cong – um dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2015 –, Matt Flegel (vocal/guitarra), Mike Wallace (baterista), Soctt Munro (guitarra) e Daniel Christiansen (baixo) estão de volta com um “novo” projeto. Trata-se do Preoccupations, um título alternativo para a banda do quarteto de pós-punk canadense depois da série de críticas e shows cancelados por conta de pressões do público estadunidense. Em nova fase, o quarteto não apenas anuncia a…Continue Reading “Preoccupations: “Anxiety” (VÍDEO)”