Artista: The Flaming Lips
Gênero: Neo-Psicodelia, Experimental, Alternativo
Acesse: http://flaminglips.warnerbrosrecords.com/

 

A leveza que marca os arranjos da instrumental faixa de abertura de Oczy Mlody (2017, Warner Bros.) resume com naturalidade a atmosfera onírica do 14º álbum de estúdio do The Flaming Lips. Primeiro registro de inéditas da banda de Oklahoma desde o melancólico The Terror, lançado em 2013, o trabalho que conta com produção de Dave Fridmann e Scott Booker mostra a força do coletivo norte-americano, fazendo do presente disco um precioso exercício melódico.

Coeso quando observado em proximidade aos últimos registros da banda, The Time Has Come to Shoot You Down… What a Sound (2013) e With a Little Help from My Fwends (2014), coletâneas que resgatam a obra das bandas Stone Roses e The Beatles, respectivamente, além, claro, do álbum assinado em parceria com Miley Cyrus, Miley Cyrus & Her Dead Petz (2015), Oczy Mlody encanta pela sutileza dos arranjos e vozes. Em um intervalo de quase 60 minutos de duração, todos os elementos se posicionam de forma homogênea, fazendo do trabalho uma peça única, inebriante.

Assim como em The Terror, cada canção do presente disco serve de passagem para a música seguinte. Arranjos enevoados e cantos de pássaros em How?? criam uma delicada ponte para o rock eletrônico de There Should Be Unicorns. Melodias tímidas em Sunrise (Eyes of the Young) se conectam diretamente ao som que escapa da entristecida Nigdy Nie (Never No). Sintetizadores e colagens atmosféricas de Galaxy I Sink e The Castle conduzem o ouvinte até os últimos instantes da obra.

Longe de parecer uma novidade dentro da extensa discografia da banda, parte dessa sonoridade se comunica de forma explícita com o mesmo material produzido pelo The Flaming Lips no interior de clássicos como The Soft Bulletin (1999) e Yoshimi Battles the Pink Robots (2002). Do uso cuidadoso das melodias em The Castle, passando pelo pop psicodélico que cresce da derradeira We a Famly, parceria com Miley Cyrus, grande parte das canções em Oczy Mlody revelam o lado mais acessível, doce e hipnótico do grupo norte-americano.

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Artista: Jude
Gênero: Rock Psicodélico, Alternativo, Rock
Acesse: https://soundcloud.com/jude-banda

 

Não faltam registros inspirados na boa safra do rock psicodélico produzido entre o final dos anos 1960 e começo da década de 1970. Trabalhos ancorados de forma explícita na obra de veteranos da música nacional – como Os Mutantes e Clube da Esquina –, ou mesmo gigantes da cena estrangeira – principalmente The Beatles e Pink Floyd. Todavia, poucos são os registros capazes de ir além da mera reciclagem de conceitos, sufocando pela completa ausência de identidade.

Prazeroso encontrar em Ainda Que de Ouro e Metais (2016, Crooked Tree Records), álbum de estreia do grupo alagoano Jude, uma seleção de músicas que vão além do empoeirado resgate de velhas ideias e melodias. Dividido com naturalidade entre a nostalgia e o frescor dos arranjos, o trabalho entregue ao público em dezembro do último ano confirma o esmero e verdadeira entrega do trio Reuel Albuquerque (guitarras, violão, baixo, teclados, programações, bateria e vocais) Fernando Brasileiro (vocais e violão) Alex Moreira (baixo e violão) em estúdio.

A cada nova composição, um precioso diálogo com o passado. Entre falsetes e arranjos descomplicados, a homônima música de abertura do disco orienta a direção seguido pela trinca de Maceió. Guitarras, pianos e batidas que se espalham de maneira sutil, detalhando um colorido pano de fundo para o canto melódico da faixa, por vezes íntima do clássico Pet Sounds (1966), dos Beach Boys. O mesmo cuidado se repete ainda na divertida Vá Ser Feliz Como o Arnaldo Baptista, faixa assinada em parceria com o músico João Paulo, vocalista e líder da conterrânea Mopho.

Por falar no trabalho da Mopho, sobrevive em Ainda Que de Ouro e Metais parte da essência lisérgica e grande parte das referências que abasteceram a curta discografia da banda alagoana. Difícil ouvir músicas como Gigante de Aço e Com Olhos Serenos e não lembrar de obras como Volume 3 (2011) ou o homônimo registro de estreia do grupo – 56º lugar na nossa lista dos 100 Melhores Discos Nacionais dos Anos 2000. A mesma ambientação psicodélica, louca. Arranjos e vozes que analisam o passado de forma curiosa, porém, mantendo firme os dois pés no presente.

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Quem esperava por alguma novidade do Temples não deve ter se decepcionado com o lançamento de Certainty. Primeiro single do novo álbum de inéditas da banda britânica, Volcano (2017), a canção segue exatamente de onde o quarteto parou há três anos durante o lançamento do pop Sun Structure (2014). Um rock psicodélico radiante, pegajoso, como uma versão aprimorada do mesmo material apresentado nos principais singles da banda.

O mesmo cuidado se reflete na inédita Strange Or Be Forgotten. Parte do novo álbum de inéditas da banda, a canção parece o resultado de um possível encontro entre os australianos do Tame Impala e a banda norte-americana MGMT. Um jogo de vozes, guitarras e sintetizadores melódicos, semi-dançantes, como se a música psicodélica da década de 1960 fosse filtrada pelo que há de mais pop e acessível na música atual.

Volcano (2017) será lançado no dia 03/03 via Heavenly e Fat Possum

 

Temples – Strange Or Be Forgotten

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Lançado de surpresa, o psicodélico Miley Cyrus & Her Dead Petz (2015) serviu para consolidar a parceria entre a cantora norte-americana Miley Cyrus e os veteranos do Flaming Lips. Colaboradores desde o álbum With a Little Help from My Fwends (2014), uma estranha adaptação do clássico Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), dos Beatles, Cyrus e Wayne Coyne, vocalista e líder da banda de Oklahoma, voltam a se encontrar dentro da inédita We a Famly.

Parte do novo álbum de estúdio do grupo, Oczy Mlody (2017), a canção parece seguir a trilha do mesmo pop psicodélico explorado pela banda nas recentes The CastleSunrise (Eyes of The Young). Uma clara reciclagem do som aconchegante e melodias originalmente testadas pelo Flaming Lips em obras como The Soft Bulletin (1999) e, principalmente, no acessível Yoshimi Battles the Pink Robots (2002).

Oczy Mlody (2017) será lançada em 13/01 via Warner Bros.

 

The Flaming Lips – We A Famly (Feat. Miley Cyrus)

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Artista: Of Montreal
Gênero: Indie, Eletrônica, Pop Psicodélico
Acesse: http://www.ofmontreal.net/

 

Em mais de duas décadas à frente do Of Montreal, Kevin Barnes não passou mais do que dois anos sem apresentar ao público um novo registro de inéditas. O resultado dessa produção constante está na composição de uma discografia marcada pela irregularidade. Obras que transbordam a criatividade do músico – vide o clássico Hissing Fauna, Are You the Destroyer? (2007) – e trabalhos que sufocam pela redundância – caso do recente Aureate Gloom (2015).

Novo álbum de inéditas do coletivo de Atlanta, Innocence Reaches (Polyvinyl), claramente se aproxima desse primeiro agrupamento de obras capazes de confirmar a força criativa de Barnes. Ancorado de forma explícita no mesmo pop psicodélico que a banda vem promovendo desde o final dos anos 1990, o trabalho de 12 faixas encanta não apenas pela essência nostálgica dos arranjos, mas pelos instantes em que a banda flerta com a música eletrônica.

Composição escolhida para inaugurar o disco, Let’s Relate sintetiza parte dos “experimentos” assumidos pelo grupo. Enquanto a voz robótica de Barnes debate sobre a liberdade da comunidade LGBTT, sintetizadores e batidas dançantes aproximam a canção de um terreno essencialmente dançante, conceito também explorado em A Sport and Pastime, sexta música do disco. Difícil não lembrar de MGMT, Foster The People e outros nomes de peso da cena alternativa. Poucas vezes o Of Montreal pareceu tão pop, pegajoso.

O mesmo som grudento acaba se refletindo em It’s Different for Girls. Uma das melhores composições do músico norte-americano em tempos, a faixa que discute libertação sexual, machismo e a opressão sofrida diariamente pelas mulheres, transporte a temática do empoderamento para um ambiente que mesmo provocativo, mantém firme a mesma estrutura dançante e acessível que abre o trabalho. Impossível não ser arrastado pelas guitarras suingadas que costuram a canção do início ao fim.

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. Poucas semanas após o lançamento do álbum Painting With (2016), décimo registro de estúdio do Animal Collective, a banda de Baltimore, Maryland está de volta com um curta seleção de composições inéditas. Trata-se da sequência formada por Gnip Gnop e Hounds of Bairro. Duas canções que acabaram de fora da edição final do o último trabalho da banda, mas que foram compiladas agora e serão lançadas em um vinil 7″ – acima, a imagem de capa. Enquanto Gnip Gnop reflete o lado mais pop do grupo, esbarrando nos mesmos…Continue Reading “Animal Collective: “Gnip Gnop” / “Hounds of Bairro””

Deerhunter
Dream Pop/Experimental/Psychedelic
http://deerhuntermusic.com/

 

Gritos, ruídos e distorções. A julgar pelo som incorporado pelo Deerhunter em Monomania, de 2013, a busca por um som cada vez mais agressivo, visceral, parecia orientar o trabalho da banda original de Atlanta, Georgia. Surpresa encontrar em Fading Frontier (2015, 4AD), sétimo registro de inéditas do coletivo comandado por Bradford Cox e Lockett Pundt, uma proposta completamente distinta em relação ao último projeto de estúdio. Em uma espécie de regresso ao ambiente montado para Halcyon Digest (2010), vozes e arranjos se articulam de forma letárgica, encaixando instantes de maior euforia sem necessariamente romper com o som cósmico assumido pela banda em grande parte das faixas.

Com produção assumida por Ben H. Allen (Animal Collective, Washed Out) – também responsável por Halcyon Digest -, Fading Frontier é o trabalho em que a busca de grupo por novas possibilidades abraça com delicadeza a essência ruidosa projetada desde a estreia com Turn It Up Faggot (2005). Não se trata de uma curva brusca como o álbum lançado há dois anos, mas um resgate atento (e remodelado) de boa parte do acervo projetado pelos integrantes dentro e fora da banda – vide a explícita relação com os paralelos Atlas Sound e Lotus Plaza.

Diferente dos outros trabalhos, Fading Frontier é o álbum em que as influências de cada integrante se manifestam com maior naturalidade. Não por acaso Bradford Cox desenvolveu um mapa de referências no site da banda, indicando grandes parte dos elementos que serviram de inspiração para o presente trabalho. De artistas como Caetano Veloso, Al Green, R.E.M. e Tom Petty, passando pelo cinema de Pedro Almodóvar e Robert Bresson, até alcançar os poemas de Pablo Neruda e telas de Henri Matisse, uma imensa colcha de retalhos culturais se estende da abertura ao fechamento do disco.

Interessante notar como todos esses elementos lentamente florescem no interior da obra. Do fascínio pelo R.E.M. nascem as vozes e melodias de Breaker, Living My Life e Carrion. Em Take Care e Ad Astra, o expressivo uso de sintetizadores, referencia direta ao trabalho de veteranos como Tears For Fears – banda também citada no mapa de Cox com o clássico dos anos 1980 Everybody wants to rule the world. Ao final de Ad Astra, a rápida inserção de I Wish I Was A Mole In The Ground, canção gravada em 1928 pelo músico Bascom Lamar Lunsford. 

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Miley Cyrus
Pop/Psychedelic/Experimental
http://www.mileycyrus.com/

Em janeiro deste ano, quando Rihanna apresentou ao público o single FourFiveSeconds, muita gente perguntou com desdém no Twitter: “Quem é Paul McCartney?”. Por mais absurda que possa parecer, essa foi a honesta reação de centenas de jovens que nunca tiveram acesso ou pouco se importaram com a obra do ex-integrante dos Beatles – junto de Kanye West, um dos artistas convidados para a canção. Espantoso, o questionamento reflete com naturalidade a velha divisão – e boa dose de preconceito – que há décadas separa o público do “rock” e os ouvintes da “música pop”.

Miley Cyrus com certeza sabe quem é Paul McCartney. A cantora não apenas conhece o trabalho do músico britânico, como em 2014 foi convidada a participar do álbum With a Little Help from My Fwends, registro comandado pela banda norte-americana The Flaming Lips e uma espécie de “adaptação” do clássico de 1967 Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Ainda que o resultado da obra seja catastrófico – Cyrus cantou em Lucy in the Sky with Diamonds e A Day In Life -, a rápida passagem da cantora pelo disco, além, claro, da estreita relação Wayne Coyne, vocalista dos lábios flamejantes, parece servir de base para o quinto álbum de estúdio da ex-Hannah Montana: Miley Cyrus & Her Dead Petz (2015).

Encaixado de forma precisa nesse cenário conflituoso que divide o mesmo “pop” de Rihanna e o “rock” de Paul McCartney, o álbum lançado durante o último VMA, evento apresentado pela própria Cyrus, é uma obra que conecta – de forma esquizofrênica – esses dois universos. De um lado, a plasticidade e alto teor comercial das canções de Miley. No outro, arranjos experimentais, sons abstratos e colagens tão íntimas de veteranos como Pink Floyd e The Beatles, como do som criado pelo The Flaming Lips em obras ainda recentes, caso de  Embryonic (2009) e The Terror (2013).

Produzido pela própria cantora em parceria com a banda de Wayne Coyne, o sucessor de Bangerz, bem-sucedido álbum de 2013 e casa de músicas como Wrecking Ball e Adore You, é uma obra marcada pelo delírio. São mais de 90 minutos dissolvidos em 23 faixas que arrastam o ouvinte para dentro do mesmo universo explorado no vídeo de Lucy in the Sky with Diamonds. Uma coleção de ruídos, batidas eletrônicas e temas que atraem a atenção do ouvinte pelo aspecto inusitado, mas tropeça nos exageros e nítido descontrole de seus criadores.

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Unknown Mortal Orchestra
Psychedelic/Indie/Alternative
http://unknownmortalorchestra.com/

Com o lançamento do segundo trabalho em estúdio, II (2013), Ruban Nielson e os parceiros do Unknown Mortal Orchestra partiram em busca de um novo universo de referências musicais. Da sonoridade suja e naturalmente esquizofrênica lançada por gigantes como Captain Beefheart e toda a geração de artistas pós-1967, base do primeiro disco, pouco sobreviveu. Para ocupar essa “lacuna”, um diálogo aproximado com o mesmo R&B de Prince e outros veteranos da década de 1970, preferência que também conduz os arranjos e versos do terceiro álbum do grupo, Multi-Love (2015, Jagjaguwar).

Passo além em relação ao último lançamento da banda, com o presente registro, o coletivo original de Auckland, Nova Zelândia continua a investir no uso descomplicado das melodias, entretanto, encontra no experimento um mecanismo de transformação. São peças como a inaugural faixa-título, canção que mesmo sustentada pelo uso de arranjos e temas radiofônicos, jamais tende ao óbvio, brincando com a interpretação do ouvinte a cada novo ruído distorcido.

Em uma observação atenta, Multi-Love parece entregar ao ouvinte o mesmo cardápio de composições apresentadas no trabalho anterior, porém, hoje cobertas pelo granulado sujo e carga de distorções que marca o primeiro registro da banda, de 2011. Exemplo claro disso está nas melodias e vozes encaixadas no interior de Like Acid Rain e Ur Life One Night. Montadas de forma urgente, ambas as canções passeiam pela psicodelia caseira de 1960 sem necessariamente abandonar o diálogo com as referências lançadas na década seguinte.

Com a chegada de Can’t Keep Checking My Phone, quarta faixa do álbum, um breve distanciamento desse continuo jogo de experiências. Marcada pelas batidas e ritmo acelerado, a composição de abertura climática – como a trilha sonora de um filme de suspense – logo se entrega à dança, como um flerte rápido com a obra de Giorgio Moroder. A mesma proposta ainda se repete com Necessary Evil, porém, de forma controlada, interrompendo o ritmo frenético inicialmente proposto pelo grupo.

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. Currents (2015), este é o nome do terceiro álbum de estúdio da banda australiana Tame Impala. Sucessor do elogiado Lonerism, de 2012, o novo registro aponta para uma direção contrária em relação aos dois últimos lançamentos do grupo comandado por Kevin Parker; transformação explícita nos mais de sete minutos da “eletrônica” Let It Happen, primeira composição da “nova fase” e, agora, oficialmente completa com a entrega de Cause I’m a Man. Dotada de vocais e arranjos compactos, acompanhados de perto pelo uso delicado de sintetizadores, a nova faixa reforça…Continue Reading “Tame Impala: “Cause I’m a Man” (VÍDEO)”