Original da cidade de Bloomington, Indiana, o Hoops é um quarteto de Dream Pop/Rock Psicodélico que parece ter encontrado no rock dos anos 1980 a base para grande parte do trabalho da banda. Responsável por um excelente EP de cinco faixas lançado no último ano, o grupo anuncia para o começo de maio a chegada do primeiro álbum de estúdio. Trata-se de Routines (2017), álbum de 11 faixas que deve replicar o som produzido pela banda nos primeiros trabalhos de estúdio.

Como uma versão “enérgica” do som produzido pelo Ariel Pink em começo de carreira, a banda norte-americana deu vida a duas ótimas composições. De um lado, as guitarras e vozes rápidas de Rules, música que parece saída do último EP da banda. No outro oposto, a leveza de On Top, faixa repleta de sintetizadores e guitarras melódicas, como uma perfeita síntese do som produzido pelo quarteto de Indiana.

Routines (2017) será lançado no dia 05/05 via Fat Possum.

 

Hoops – Rules

 

Hoops – On Top

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Com A Montanha Mágica e O Enigma dos Doze Sapos já é possível ter uma boa noção do material produzido pelos integrantes da banda paulistana BIKE para o segundo álbum da carreira. Intitulado Em Busca da Viagem Eterna (2017), o sucessor de 1943 – 17º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2015 –, revela a busca por um som delirante e etéreo, como uma extensão cósmica do som explorado há pouco mais de dois anos.

Em Do Caos ao Cosmos, mais recente single do grupo paulista, um som ainda mais complexo e louco. Inaugurada pela força das guitarras e vozes ásperas, a canção lentamente se transforma em um ato de pura lisergia e libertação. Um som reconfortante, quase espiritual, conceito que dialoga de forma explícita com o clipe produzido pela dupla Matias Borgström e Rodrigo Notari. A relação de proximidade entre homem e natureza a partir de ritual de meditação.

 

Bike – Do Caos ao Cosmos

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Artista: Ty Segall
Gênero: Rock, Garage Rock, Rock Alternativo
Acesse: https://tysegall.bandcamp.com/

 

Passado o lançamento de Manipulator, em 2014, Ty Segall decidiu revisitar uma série de composições esquecidas dentro do próprio repertório. O resultado dessa busca está na produção de uma bem-sucedida coletânea de singles — $INGLE$ 2 (2014) —, um trabalho em homenagem ao grupo inglês T. Rex, lançado em 2015, além de um registro ao vivo, Live in San Francisco, apresentado meses depois. No começo de 2016, a chegada de um novo álbum de inéditas, o mediano Emotional Mugger, e o início de um longo período de hiato — pelo menos para os padrões do músico.

Primeiro registro de inéditas do cantor e compositor californiano em meses, Ty Segall (2017, Drag City), autointitulado trabalho de dez faixas, segue em direção ao passado. Trata-se de um precioso resgate de temas e referências que passa pelo pop-rock da década de 1960 — principalmente The Beatles —, mergulha no som psicodélico produzido nos anos 1970 e cresce como uma reciclagem de diferentes estilos de forma sempre enérgica, crua, estímulo para grande parte da discografia do guitarrista.

A principal diferença em relação aos últimos lançamentos de Segall está na forma como cada composição ao longo do presente disco se revela de forma acessível ao grande público. Logo nos primeiros minutos do trabalho, a explosão das guitarras e vozes de Break A Guitar, música que passeia por algumas das principais referências do músico norte-americano – como Nirvana e T. Rex –, sem necessariamente fazer disso um som copioso ou pouco inventivo.

Quanto mais o disco avança, mais Segall brinca com as possibilidades. Em Freedom, segunda faixa do disco, o possível resultado de como seria um encontro entre The Beach Boys e Ramones. Nas guitarras de The Only One, uma clara reverência ao Hard Rock dos anos 1970, efeito da movimentação firme dos arranjos, no melhor estilo Led Zeppelin. Na curtinha e acústica Orange Color Queen, um breve instante de pura leveza e romantismo, como se o músico resgatasse as mesmas melodias originalmente testadas em obras como Twins (2012) e Sleeper (2013).

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Artista: Jude
Gênero: Rock Psicodélico, Alternativo, Rock
Acesse: https://soundcloud.com/jude-banda

 

Não faltam registros inspirados na boa safra do rock psicodélico produzido entre o final dos anos 1960 e começo da década de 1970. Trabalhos ancorados de forma explícita na obra de veteranos da música nacional – como Os Mutantes e Clube da Esquina –, ou mesmo gigantes da cena estrangeira – principalmente The Beatles e Pink Floyd. Todavia, poucos são os registros capazes de ir além da mera reciclagem de conceitos, sufocando pela completa ausência de identidade.

Prazeroso encontrar em Ainda Que de Ouro e Metais (2016, Crooked Tree Records), álbum de estreia do grupo alagoano Jude, uma seleção de músicas que vão além do empoeirado resgate de velhas ideias e melodias. Dividido com naturalidade entre a nostalgia e o frescor dos arranjos, o trabalho entregue ao público em dezembro do último ano confirma o esmero e verdadeira entrega do trio Reuel Albuquerque (guitarras, violão, baixo, teclados, programações, bateria e vocais) Fernando Brasileiro (vocais e violão) Alex Moreira (baixo e violão) em estúdio.

A cada nova composição, um precioso diálogo com o passado. Entre falsetes e arranjos descomplicados, a homônima música de abertura do disco orienta a direção seguido pela trinca de Maceió. Guitarras, pianos e batidas que se espalham de maneira sutil, detalhando um colorido pano de fundo para o canto melódico da faixa, por vezes íntima do clássico Pet Sounds (1966), dos Beach Boys. O mesmo cuidado se repete ainda na divertida Vá Ser Feliz Como o Arnaldo Baptista, faixa assinada em parceria com o músico João Paulo, vocalista e líder da conterrânea Mopho.

Por falar no trabalho da Mopho, sobrevive em Ainda Que de Ouro e Metais parte da essência lisérgica e grande parte das referências que abasteceram a curta discografia da banda alagoana. Difícil ouvir músicas como Gigante de Aço e Com Olhos Serenos e não lembrar de obras como Volume 3 (2011) ou o homônimo registro de estreia do grupo – 56º lugar na nossa lista dos 100 Melhores Discos Nacionais dos Anos 2000. A mesma ambientação psicodélica, louca. Arranjos e vozes que analisam o passado de forma curiosa, porém, mantendo firme os dois pés no presente.

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Artista: Tatá Aeroplano
Gênero: Indie, Rock Psicodélico, Alternativo
Acesse: http://www.tataaeroplano.com/site/

 

Depois de 15 anos de carreira e obras importantes como Pareço Moderno (2008) e Vamos pro Quarto (2013), os membros da Cérebro Eletrônico decidiram anunciar o fim das atividades da banda. Entretanto, o desligamento em nada parece ter afetado ao desenvolvimento criativo e todo o universo de temas lisérgicos explorados paralelamente pelos (ex-)integrantes do grupo, percepção reforçada em cada uma das canções de Step Psicodélico (2016, Voador Discos), novo álbum de Tatá Aeroplano.

Terceiro registro em carreira solo e sucessor do elogiado Na Loucura & Na Lucidez – 47º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2014 –, o disco  montado a partir de faixas independentes, fragmentos explorados dentro de diferentes fórmulas e referências instrumentais, indica a busca do cantor por um som essencialmente mutável, experimental. Músicas que jogam com a interpretação do ouvinte, convidado a provar de diferentes histórias, cenários e pequenos delírios poéticos.

Step Psicodélico, como tudo que Aeroplano vem produzindo desde o primeiro álbum em carreira solo – um registro homônimo lançado em 2012 –, nasce como uma visita ao mundo de excessos, festas, tormentos e reflexões de personagens reais e imaginários da noite paulistana. Canções que visitam cenários, como a faixa-título do disco (“Mancha, Puxadinho … Serralheria, Francisca, Ciclovias”), e conflitos pessoais, caso de Dois Lamentos (“Tu me deixou chorando enquanto eu chorava”).

A principal diferença em relação aos dois últimos trabalhos do cantor está na forma como Aeroplano incorpora diferentes tendências, épocas e sonoridades sem necessariamente se fixar em um conceito musical específico. Canções que mergulham no folk-brega dos anos 1970 (Outono à Toa), resgatam o rock brasileiro do final da década de 1960 (Cadente) e ainda dialogam com diferentes fases do cancioneiro popular, caso da empoeirada Eu Inezito, oitava faixa do disco.

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Artista: Thee Oh Sees
Gênero: Rock Alternativo, Garage Rock, Rock Psicodélico
Acesse: http://www.theeohsees.com/

 

Incrível é a capacidade de John Dwyer em surpreender o público a cada novo trabalho do Thee Oh Sees. Em constante produção desde o ano de 2003, o guitarrista que não consegue passar mais do que alguns meses sem um novo registro de inéditas e nos últimos cinco anos deu vida a uma verdadeira sequência de clássicos – como Putrifiers II (2012), Floating Coffin (2013) e Mutilator Defeated At Last (2015) –, apresenta ao público mais um bem-sucedido álbum de estúdio: A Weird Exits (2016, Castle Faces).

Obra mais acessível de toda a discografia da banda californiana, o registro de apenas oito faixas garante ao ouvinte uma coleção de temas sujos, vozes melódicas e ruídos psicodélicos, reforçando o peso das guitarras dentro do trabalho. Um bom exemplo disso está na faixa de abertura do disco, Dead Man’s Gun. Enquanto a voz de Dwyer flutua em meio a sussurros e vozes ásperas, guitarras velozes, íntimas do rock produzido na década de 1970, confirmam o peso do disco.

Ticklish Warrior, segunda faixa do álbum, é outra que surpreende pelo detalhismo das guitarras. Paredões imensos de ruídos que tanto apontam para o trabalho de veteranos como Dinosaur Jr. e Black Sabath, como para o som produzido por outros conterrâneos do rock californiano, caso de Ty Segall e Mikal Cronin. Um jogo de acordes rápidos, como uma escalada para o céu de reverberações psicodélicas que explode logo em seguida na cósmica Jammed Entrance.

Em Plastic Plant, quarta faixa do disco, Dwyer apresenta uma espécie de sobra do trabalho produzido no último ano, revelando uma avalanche de distorções e efeitos psicodélicos que fariam Kevin Parker, do Tame Impala, sentir inveja. A mesma ambientação caótica acaba se repetindo em Gelatinous Cube, composição que amarra toda o universo de referências exploradas pelo grupo nos últimos anos, porém, de forma acelerada, instável e louca.

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Artista: Sammliz
Gênero: Rock, Rock Alternativo, Stoner Rock
Acesse: https://www.facebook.com/SammSammliz/

 

Fotos: Julia Rodrigues

Como vocalista do Madame Saatan, Sammliz e os parceiros de banda passaram grande parte da última década brincando com as possibilidades. Versos cantados em português, diálogos com a música regional produzida no Norte do país, e todo um conjunto de experimentos que bagunçaram o ambiente restritivo e, muitas vezes preconceituoso, do metal brasileiro. Um verdadeiro ensaio para o som que cresce livre no interior de Mamba (2016, Natura Musical), primeiro registro da cantora em carreira solo.

Denso do primeiro ao último acorde, o álbum de 10 faixas — primeiro registro da artista desde Peixe Homem (2011), ainda como integrante da Madame Saatan —, mostra Sammliz em um ambiente dominado pelas guitarras e versos obscuros. Personagem central da própria obra, a cantora sussurra, grita, encolhe e cresce a todo instante, mergulhando em uma série de ambientações que atravessam o rock da década de 1970 e rivalizam com o som de bandas como Queens of The Stone Age.

De fato, a relação com o material produzido por Josh Homme ecoa em diversos momentos da obra. Um bom exemplo disso está na segunda faixa do disco, Oya. Enquanto a letra da canção mergulha uma letra marcada pela subjetividade — “Sem trovões iguais em mim / Enquanto eu estou aqui / Sem trovões iguais em mim / Enquanto eu” —, guitarras robóticas, batidas e ruídos eletrônicos indicam a construção de um som urgente, íntimo de obras como Songs for the Deaf (2002) e …Like Clockwork (2013).

Ainda assim, está na música produzida há mais de quatro décadas a base para grande parte do trabalho apresentado pela cantora. Logo na homônima faixa de abertura, Sammliz mergulha em um oceano de temas psicodélicos, empoeirados e nostálgicos, detalhando de forma metafórica a transformação do próprio corpo em diferentes elementos da natureza e formas animalescas. Um verdadeiro delírio poético, estímulo para todo o catálogo de composições que surgem logo em sequência.

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As guitarras e temas psicodélicos mais uma vez tomam conta do som produzido por Thee Oh Sees. Um ano após o lançamento do ótimo Mutilator Defeated At Last (2015), John Dwyer e seus parceiros de banda estão de volta com um novo registro de estúdio: A Weird Exits (2016). São oito composições inéditas, incluindo a já conhecida The Axis, canção com mais de seis minutos de duração apresentada pela banda em meados de julho.

Entre os destaques do disco, faixas como Dead Man’s GunTicklish Warrior, verdadeiros paredões de ruídos. Assim como o álbum apresentado em 2015, o novo trabalho conta com distribuição pelo selo Castle Face, ponto de partida de alguns dos principais exemplares do garage rock norte-americano. Quem assina a imagem de capa do registro é Robert Beatty, artista gráfico que já trabalhou com nomes como Neon Indian, Tame Impala e Oneohtrix Point Never.

 

Thee Oh Sees – A Weird Exits

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Lê Almeida
Nacional/Indie Rock/Psychedelic
http://lealmeida.bandcamp.com/

 

Com o lançamento de Paraleloplasmos, em março de 2015, o cantor e compositor fluminense Lê Almeida parecia indicar a busca por um novo conjunto de referências e sonoridades. Entre composições essencialmente efêmeras, guitarras sujas e ruídos caseiros, Fuck The New School, com mais de 11 minutos de duração, e Câncer dos Trópicos, com quase nove, sutilmente conseguiram transportar o ouvinte para um cenário parcialmente renovado, marcado pela psicodelia. Uma extensão torta do mesmo som produzido pelo músico durante quase uma década de atuação.

Em Mantra Happening (2016, Transfusão Noise Records), terceiro e mais recente registro de inéditas do guitarrista, um delicado regresso ao mesmo ambiente cósmico apresentado há poucos meses. Cinco composições extensas, pouco mais de 50 minutos de duração, tempo suficiente para que Almeida e o time de instrumentistas formado por João Casaes (guitarra), Bigú Medine (baixo) e Joab Régis (bateria) brinque com os ruídos, ondas de distorção e vozes de forma sempre mutável.

Escolhida para inaugurar o disco, a longa Oração da Noite Cheia, com mais de 15 minutos de duração, cria uma ponte involuntária para o trabalho apresentado no último ano. Emanações psicodélicas, imensos paredões de guitarra e a voz pueril de Almeida, assim como em grande parte dos registros do artista, explorada como um “instrumento” complementar. Dois atos distintos, mas que se completam ao longo da execução da faixa, como uma visita o rock da década de 1970, mas sem necessariamente abandonar o presente.

Fina representação do lado mais “experimental” da obra, Maré, segunda canção do disco, não apenas garante sequência ao material apresentado nos primeiros minutos de Mantra Happening, como ainda estabelece uma série de regras para o restante da obra. São quase 13 minutos de texturas sobrepostas e vozes carregadas de efeitos. Arranjos e conceitos que esbarram de forma autoral na obra de Ty Segall, Thee Oh Sees e outros representantes da cena norte-americana.

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Ratatat
Indie/Experimental/Alternative
http://www.ratatatmusic.com/

Em 2008, com o lançamento de LP3, Evan Mast e Mike Stroud embarcavam em uma verdadeira viagem lisérgica/musical. Ainda que o diálogo com a música psicodélica servisse de base para o trabalho do grupo desde o primeiro registro de inéditas, de 2004, com a chegada do terceiro álbum de estúdio, um nítido “exagero criativo” parecia transportar as composições da dupla para um universo de formas e arranjos tortos, conceito seguido com naturalidade até o lançamento do trabalho seguinte, o também chapado LP4 (2010).

Em Magnifique (2015), quinto álbum de estúdio do Ratatat, uma espécie de recomeço. Primeiro registro de inéditas da dupla depois de um (longo) hiato de cinco anos, o trabalho de capa e arranjos sóbrios não apenas se distancia dos últimos inventos assinados pela banda nova-iorquina, como ainda resgata uma série de elementos “abandonados” dentro dos primeiros trabalhos da dupla – caso do ótimo Classics, de 2006.

Como explícito logo na capa do disco – uma ilustração com o rosto de diferentes personalidades, figuras históricas e ícones da cultura pop -, Magnifique cresce como uma verdadeira coleção/colagem de ideias. De natureza instável, cada faixa do registro aponta para uma direção completamente distinta, indo do rock dançante explorado no começo dos anos 200 ao Hip-Hop, até encontrar uma versão “comportada” do mesmo som (exageradamente) psicodélico testado nos dois últimos discos da banda.

Mesmo recheado com faixas marcadas pelo experimento – caso de Rome, Drift e I Will Return -, difícil não encarar Magnifique como o trabalho mais acessível já apresentado pelo Ratatat. É o caso da trinca inicial formada por Cream on Chrome, Abrasive e a canção-título do álbum. Uma coleção de faixas marcadas pelo diálogo com as pistas, guitarras rápidas e batidas dançantes, preferência que imediatamente transporta o ouvinte para o mesmo ambiente temático de músicas como Wildcat e Lex.

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