Artista: Hierofante Púrpura
Gênero: Rock Alternativo, Psicodélico, Experimental
Acesse: https://hierofantepurpura.bandcamp.com/

Foto: Hendi DuCarmo

“Seremos a banda do ano?”, pontua o coro de vozes ensandecidas nos instantes finais de Cachorrada. Ainda que o questionamento seja apenas um fragmento complementar à cômica narrativa assinada por Danilo Sevali, difícil passear pelas canções de Disco Demência (2016, Balaclava Records), mais recente álbum da Hierofante Púrpura, e não perceber o registro como um dos trabalhos mais significativas da cena independente nos últimos meses.

Resultado da ativa interferência de cada integrante da banda – além de Sevali (voz, teclados, guitarra), completa com Helena Duarte (baixo, voz), Gabriel Lima (guitarra, voz) e Rodrigo Silva (bateria) –, o álbum construído a partir de cinco composições extensas reflete o que há de melhor no material produzido pelo grupo de Mogi das Cruzes: a loucura. Em um intervalo de apenas 40 minutos, cada canção se transforma em um experimento torto, insano.

Um bom exemplo disso está na curiosa montagem de Acalenta Lua, segunda faixa do disco. Inaugurada pelo canto arrastado dos integrantes, a canção de melodias inebriantes se espalha sem pressa, detalhando delírios típicos do trabalho de Arnaldo Baptista no clássico Lóki? (1974). No segundo ato da canção, uma quebra brusca. Pianos melancólicos que flutuam em meio ao som ruidoso que escapa das guitarras de Lima. Distorções, batidas e vozes que dançam em meio a pequenas curvas rítmicas.

Mesmo que a relação com o trabalho de gigantes da música psicodélica seja percebida durante toda a construção da obra, faixa após faixa, o quarteto paulista se concentra na formação de uma identidade musical própria. No interior de cada composições, diferentes blocos instrumentais, sempre complexos, ricos em detalhes e texturas. Uma constante sensação de que pequenos fragmentos vindos de diversas canções foram espalhados de forma aleatória no interior do trabalho.

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Prolífico, Ty Segall já começou a preparar o terreno para um novo álbum de inéditas (capa acima). Sucessor do mediano Emotional Mugger (2016), trabalho entregue ao público em janeiro deste ano, o novo trabalho de estúdio do músico californiano parece seguir a trilha psicodélica que o músico vem percorrendo nos últimos álbuns. São dez composições inéditas, entre elas, a recém-lançada Orange Color Queen, primeiro single do novo trabalho.

Montada a partir de arranjos acústicos e vozes brandas, a melancólica composição de apenas três minutos mostra Segall fora da própria zona de conforto. Difícil não lembrar do som produzido pelos conterrâneos do Foxygen no ótimo We Are the 21st Century Ambassadors of Peace & Magic (2013) e até mesmo de alguns dos trabalhos lançados pelos Beatles no começo da década de 1960, efeito do coro de vozes e versos duplicados ao longo da faixa.

Ty Segall (2016) será lançado no dia 27/01 via Drag City

 

Ty Segall – Orange Color Queen

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De fora mística, a essência de Rita Oliva se espalha sem pressa entre as canções do primeiro registro sob o título de Papisa. Autointitulado, o registro de apenas três músicas segue exatamente de onde a musicista parou há poucos dias, durante o lançamento do single/clipe Instinto. São versos intimistas, maquiados por nuances subjetivas e efeitos enevoados de guitarras e sintetizadores. Uma parcial fuga de tudo aquilo que a artista vem desenvolvendo como integrante dos projetos P A R A T I e Cabana Café.

Além da já conhecida Intinto, música que chega acompanhada do precioso clipe de Aline Belfort, Oliva reserva ao público outras duas composições inéditas. De um lado, os versos em inglês e a atmosfera “caseira” de Delusional. No outro, a psicodelia melancólica e guitarras crescentes de Intuição, música que flerta com o rock produzido na década de 1970 de forma autoral e renovada. Um estímulo para o primeiro álbum de inédita da Papisa, previsto para estrear no próximo ano.



Papisa – Papisa EP

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Artista: Tatá Aeroplano
Gênero: Indie, Rock Psicodélico, Alternativo
Acesse: http://www.tataaeroplano.com/site/

 

Depois de 15 anos de carreira e obras importantes como Pareço Moderno (2008) e Vamos pro Quarto (2013), os membros da Cérebro Eletrônico decidiram anunciar o fim das atividades da banda. Entretanto, o desligamento em nada parece ter afetado ao desenvolvimento criativo e todo o universo de temas lisérgicos explorados paralelamente pelos (ex-)integrantes do grupo, percepção reforçada em cada uma das canções de Step Psicodélico (2016, Voador Discos), novo álbum de Tatá Aeroplano.

Terceiro registro em carreira solo e sucessor do elogiado Na Loucura & Na Lucidez – 47º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2014 –, o disco  montado a partir de faixas independentes, fragmentos explorados dentro de diferentes fórmulas e referências instrumentais, indica a busca do cantor por um som essencialmente mutável, experimental. Músicas que jogam com a interpretação do ouvinte, convidado a provar de diferentes histórias, cenários e pequenos delírios poéticos.

Step Psicodélico, como tudo que Aeroplano vem produzindo desde o primeiro álbum em carreira solo – um registro homônimo lançado em 2012 –, nasce como uma visita ao mundo de excessos, festas, tormentos e reflexões de personagens reais e imaginários da noite paulistana. Canções que visitam cenários, como a faixa-título do disco (“Mancha, Puxadinho … Serralheria, Francisca, Ciclovias”), e conflitos pessoais, caso de Dois Lamentos (“Tu me deixou chorando enquanto eu chorava”).

A principal diferença em relação aos dois últimos trabalhos do cantor está na forma como Aeroplano incorpora diferentes tendências, épocas e sonoridades sem necessariamente se fixar em um conceito musical específico. Canções que mergulham no folk-brega dos anos 1970 (Outono à Toa), resgatam o rock brasileiro do final da década de 1960 (Cadente) e ainda dialogam com diferentes fases do cancioneiro popular, caso da empoeirada Eu Inezito, oitava faixa do disco.

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Com músicas como The Golden Throne, A Question Isn’t Answered e Fragment’s Lightem mãos, foi difícil não se encantar pelo primeiro álbum do grupo britânico Temples, Sun Stuctures (2014). Com produção assinada pelo próprio vocalista da banda, James Bagshaw, o registro de 12 faixas deu ao quarteto britânico a possibilidade de testar melodias, brincar com diferentes épocas da música psicodélica e, consequentemente, conquistar uma boa parcela do público.

Dois anos após o lançamento do bem-sucedido registro, o grupo inglês começa a preparar o terreno para um novo álbum de inéditas, Volcano (2017). Em Certainty, primeiro fragmento desse novo disco, vozes, guitarras, sintetizadores e batidas crescem lentamente, sempre coloridas, detalhando nuances psicodélicas, melodias cósmicas e diferentes variações instrumentais que atravessam a década de 1960 e chegam até o final dos anos 1970. Para o clipe da canção, um jogo de luzes, cores e animações essencialmente lisérgicas.

Volcano (2017) será lançado no dia 03/03 via Heavenly e Fat Possum

 

Temples – Certainty

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Dois anos após o lançamento do álbum A Sutil Arte de Esculhambar Música Alheia (2014), os integrantes da banda paulista Hierofante Púrpura estão de volta com um novo registro de inéditas. Intitulado Disco Demência (2016), o trabalho que conta com distribuição pelo selo Balaclava Records talvez seja o registro mais experimental de toda a trajetória do grupo de Mogi das Cruzes, percepção explícita durante o lançamento do single Cachorrada, porém, reforçada com a audição completa do registro.

Mergulhado em temas psicodélicos, quebras bruscas e instantes de puro experimento, o álbum parece apontar claramente para o rock do começo dos anos 1970, emulando melodias e vozes típicas de artistas como Os Mutantes e demais veteranos do mesmo período. São apenas cinco composições, parte expressiva delas com mais de oito minutos de duração, tempo suficiente para que a banda brinque com a interpretação e mente do público.

 

Hierofante Púrpura – Disco Demência

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Em The Terror (2013), último álbum de estúdio do grupo norte-americano The Flaming Lips, Wayne Coyne e os parceiros de banda se despiram de prováveis experimentos para mergulhar em uma obra segura, marcada pelo uso de boas melodias e temas nostálgicos, íntimos da boa fase no clássico The Soft Bulletin (1999). Curioso perceber em The Castles, mais recente criação da banda Oklahoma o mesmo cuidado presente no disco entregue há três anos.

Composição escolhida para apresentar o novo álbum de inéditas do grupo, Oczy Mlody (2017), a faixa de quase cinco anos cresce de forma lenta e acolhedora. Guitarras serenas que caminham lado a lado com a voz de Coyne, provando de novas melodias e uma atmosfera sempre intimista, como uma fuga de todo o caos assumido pelo grupo em trabalhos paralelos – vide a parceria com Miley Cyrus – e pequenas adaptações da obra de The Beatles e outros veteranos do rock psicodélico.

Oczy Mlody (2017) será lançada em 13/01 via Warner Bros.

The Flaming Lips – The Castles

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Artista: Quarup
Gênero: Indie Pop, Alternativo, Psicodélico
Acesse: https://www.facebook.com/bandaquarup/

Fotos: Maria Romero

Cada composição presente no primeiro álbum de estúdio da banda paulistana Quarup é um objeto de destaque, a ser observado de forma atenta pelo público. O som empoeirado que sopra das guitarras psicodélicas de O Mensageiro. A letra subjetiva, repleta de significados ocultos e melodias minimalistas em Estrela Da Manhã, parceria com a cantora Ná Ozzetti. Versos essencialmente românticos, delicados, que se prendem a cada fragmento instrumental de Lila — “Lila, cansei de desatino / Eu quero o teu destino amarrado juntinho do meu”.

Concebido de forma “artesanal”, durante o intervalo de mais de um ano, o registro de 13 faixas e exatos 50 minutos de duração reflete o esforço e clara interferência de cada integrante da banda em estúdio. Aos comandos de Guta Batalha (Vocais), Ione Aguiar (guitarras, violões e vocais), Beni Teixeira (piano, teclados e vocais), Marcelo Maia (baixo e vocais) e Lucas Cassoli (bateria, percussões e vocais), um curioso e colorido experimento que dialoga de forma explícita com a imagens que preenchem o encarte e capa do disco – trabalho de Aruana Ribeiro.

Inspirado de forma confessa no som produzido por veteranos dos anos 1960 (Os Mutantes, Caetano Veloso) e 1970 (Novos Baianos, Milton Nascimento), a estreia do quinteto de São Paulo nasce como um precioso exercício autoral de revisitar o passado. Melodias, referências nostálgicas e temas que dialogam de forma declarada com a música produzida há quatro ou cinco décadas, mas que em nenhum momento se distancia do presente, abraçando e incorporando com naturalidade as memórias e experiências pessoais cada integrante da banda.

Doce criança, quando eu te perdi o tempo era um menino”, sussurra a letra de Uma Amizade Que Veio do Mar, um dueto que coleciona fragmentos da infância e ainda dialoga com cenas e elementos da animação Ponyo (2008), de Hayao Miyazaki. Em Pedra Rara, quarta faixa do disco, uma complexa declaração de amor que se distancia do óbvio para brincar com as palavras – “Que vaidade minha te despir sem pejo / Seixos que pesquei no mar, para enfeitar teu colo / Os mais lindos martins de que se tem notícia / Não houvesse tu, meu bem / paravam de cantar, pois”.

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Com o lançamento de Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos – 5º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2015 –, os integrantes da banda goiana Boogarins deram um verdadeiro salto criativo em relação ao debut As Plantas que Curam, de 2013. Entre temas lisérgicos e emanações cósmicas, um mundo de novas possibilidades foi apresentado em faixas como Mario de Andrade / Selvagem e Cuerdo, transformação que se repete na inédita Elogio à Instituição do Cinismo.

Mais recente lançamento do grupo, a composição dominada pelo uso de ruídos, experimentos “eletrônicos” e vozes sobrepostas soa como uma versão artesanal, naturalmente suja, de grande parte do material produzido pela banda no último ano. Entre colagens de pequenos fragmentos instrumentais, a voz curiosa de Dinho Almeida dança em meio a versos carregados de referências ocultas, dialogando de forma propositadamente instável com a ambientação torta da faixa.

 



Boogarins -Elogio à Instituição do Cinismo

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Com músicas como The Golden Throne, A Question Isn’t Answered e Fragment’s Light em mãos, foi difícil não se encantar pelo primeiro álbum do grupo britânico Temples, Sun Stuctures (2014). Com produção assinada pelo próprio vocalista da banda, James Bagshaw, o registro de 12 faixas deu ao quarteto britânico a possibilidade de testar melodias, brincar com diferentes épocas da música psicodélica e, consequentemente, conquistar uma boa parcela do público.

Dois anos após o lançamento do bem-sucedido registro, o grupo inglês começa a preparar o terreno para um novo álbum de inéditas. Em Certainty, primeiro fragmento desse novo disco, vozes, guitarras, sintetizadores e batidas crescem lentamente, sempre coloridas, detalhando nuances psicodélicas, melodias cósmicas e diferentes variações instrumentais que atravessam a década de 1960 e chegam até o final dos anos 1970.

 

Temples – Certainty

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