Tag Archives: Psychedelic

Disco: “Magnifique”, Ratatat

Ratatat
Indie/Experimental/Alternative
http://www.ratatatmusic.com/

Em 2008, com o lançamento de LP3, Evan Mast e Mike Stroud embarcavam em uma verdadeira viagem lisérgica/musical. Ainda que o diálogo com a música psicodélica servisse de base para o trabalho do grupo desde o primeiro registro de inéditas, de 2004, com a chegada do terceiro álbum de estúdio, um nítido “exagero criativo” parecia transportar as composições da dupla para um universo de formas e arranjos tortos, conceito seguido com naturalidade até o lançamento do trabalho seguinte, o também chapado LP4 (2010).

Em Magnifique (2015), quinto álbum de estúdio do Ratatat, uma espécie de recomeço. Primeiro registro de inéditas da dupla depois de um (longo) hiato de cinco anos, o trabalho de capa e arranjos sóbrios não apenas se distancia dos últimos inventos assinados pela banda nova-iorquina, como ainda resgata uma série de elementos “abandonados” dentro dos primeiros trabalhos da dupla – caso do ótimo Classics, de 2006.

Como explícito logo na capa do disco – uma ilustração com o rosto de diferentes personalidades, figuras históricas e ícones da cultura pop -, Magnifique cresce como uma verdadeira coleção/colagem de ideias. De natureza instável, cada faixa do registro aponta para uma direção completamente distinta, indo do rock dançante explorado no começo dos anos 200 ao Hip-Hop, até encontrar uma versão “comportada” do mesmo som (exageradamente) psicodélico testado nos dois últimos discos da banda.

Mesmo recheado com faixas marcadas pelo experimento – caso de Rome, Drift e I Will Return -, difícil não encarar Magnifique como o trabalho mais acessível já apresentado pelo Ratatat. É o caso da trinca inicial formada por Cream on Chrome, Abrasive e a canção-título do álbum. Uma coleção de faixas marcadas pelo diálogo com as pistas, guitarras rápidas e batidas dançantes, preferência que imediatamente transporta o ouvinte para o mesmo ambiente temático de músicas como Wildcat e Lex. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Currents”, Tame Impala

Tame Impala
Psychedelic/Experimental/R&B
http://www.tameimpala.com/

Olhe para a capa de Currents. Uma sequência de linhas retas, paralelas perfeitamente alinhadas. De repente: um susto. A interferência de um estranho objeto esférico, algo que “não deveria estar ali”. Agitação, desordem, caos. Antes organizadas, perfeitamente posicionadas, as retas de cores sóbrias agora se desmancham em uma corredeira instável, psicodélica. Um tracejado irregular, cheio de curvas, novas cores e caminhos talvez indefinidos.

“Em mecânica dos fluidos, um estudo dos efeitos do escoamento de fluidos na redondeza – troca de forças e energia -, o escoamento chega laminar (ordenado) até a interferência onde se formam regiões de turbulência. A diferença de pressão entre o fluido que bateu no cilindro e o fluido que está atrás dele gera a turbulência. Note que a capa do single Let It Happen, primeira canção do disco, ainda mostra o escoamento ordenado”*.

Lembrou de alguma coisa?

Muito além do caráter técnico, um simples “ilustração”, a imagem assinada pelo artista gráfico e músico norte-americano Robert Beatty resume com naturalidade a curta trajetória do Tame Impala. Enquanto a psicodelia suja e forte relação entre Innerspeaker (2010) e Lonerism (2012) representa a linearidade assumida pela banda nos últimos anos, os quase oito minutos de experimentos eletrônicos, colagens e adaptações de Let It Happen, faixa de abertura do presente álbum, revela a passagem para um caminho sinuoso, propositadamente instável, turbulento, que o grupo australiano assume no presente registro.

Led Zeppelin virou Bee Gees, The Flaming Lips encontrou Toro Y Moi, enquanto Britney Spears, confessa influência de Kevin Parker em Lonerism, agora abre espaço para a chegada de Michael Jackson. Como não lembrar de clássicos como Thriller (1982) e Bad (1987) quando começam as batidas dançantes de The Moment? E o que dizer de Past Life, música que vai do Synthpop ao R&B dos anos 1980 em segundos. A essência psicodélica da banda ainda é a mesma dos primeiros discos, porém, agora aparece em segundo plano, dissolvida em meio as emanações vocais de Parker, um romântico em cada movimento lírico do trabalho.

Obra de sentimentos, Currents sustenta nos versos uma rara exposição de Kevin Parker. Trata-se do álbum mais intimista, doloroso e, ainda assim, acolhedor já montado pela banda. Canções marcadas por pedidos de desculpas (‘Cause I’m A Man), relacionamentos fracassados (Eventually) e até mesmo versos costurados pelo mais profundo sofrimento (The Less I Know The Better). Uma constante sensação de que todo o arsenal melancólico do álbum anterior – caso de She Just Won’t Believe Me e Why Won’t They Talk To Me? – “floresceu” dentro do campo fértil de sintetizadores que se espalha do primeiro ao último instante da obra. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Amor Violento”, Quarto Negro

Quarto Negro
Indie/Alternative/Post-Punk
https://www.facebook.com/quartonegro

Amor violento (2015, Balaclava Records), segundo álbum de estúdio da banda paulistana Quarto Negro é uma obra difícil de ser explorada. Arranjos de cordas e instrumental sufocante. Versos densos, como um retrato honesto (e triste) de qualquer separação. Composições longas, dramáticas, propositadamente arrastadas. Uma constante sensação de peso e descrença que prende, perturba e até mesmo conforta o ouvinte durante quase uma hora de duração.

Verdadeiro martírio sentimental, por vezes íntimo dos pesadelos mais profundos de qualquer ouvinte, o sucessor de Desconocidos (2011) está longe de parecer um álbum de fácil interpretação. De fato, é necessário tempo até conseguir apoio ou mínimo equilíbrio dentro do ambiente instável montado por Eduardo Praça e Thiago Klein. Como um tecido esvoaçante, vozes e arranjos balançam da abertura ao fechamento do disco, resultando em uma obra dividida entre a hipnose e permanente desconforto.

Oposto ao conceito do primeiro disco da banda, uma obra homogênea, porém, marcada pela continua formação de brechas e canções “comerciais”, Amor Violento é um registro que precisa ser apreciado em completude. Dos pianos comportados em Filhos do Frio, passando pelas guitarras de Há um Oceano entre nós, até alcançar a derradeira faixa-título, cada música espalhada pela obra serve de estimulo para a canção seguinte. Capítulos (musicais) em uma lenta narrativa melancólica.

Em se tratando da estrutura musical montada para o novo disco, uma clara evolução. Livre do encaixe descomplicado de pianos e vozes melódicas, Amor Violento é uma obra marcada pelos ruídos e tonalidade sombria dos temas instrumentais. Como uma espiral lenta, solos de guitarras, efeitos de distorção e até mesmo os vocais são orquestrados de maneira soturna, tão íntimos de veteranos como Echo and the Bunnymen – influência confessa do grupo -, quanto de “novatos” como Arcade Fire e Grizzly Bear. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “O∆”, London O’Connor

London O’Connor
Hip-Hop/Psychedelic/Alternative
https://www.facebook.com/LondonOConnor

A música de London O’Connor é torta, estranha e, consequentemente, hipnótica. Personagem curioso da nova safra de representantes do Hip-Hop nova-iorquino, o artista de 24 anos encontra no primeiro álbum em carreira solo uma obra entregue ao experimento. Um passeio que começa pela mente (e versos) perturbados do compositor, segue de forma segura pelo Rap dos anos 1990 e só estaciona no final dos anos 1960, flertando com a mesma sonoridade de artista como The Velvet Undergound e outros gigantes que bagunçaram a música produzida no leste dos Estados Unidos.

Apresentado em pequenas “doses” no perfil de O’Connor no Soundcloud, O∆ (2015, Independente) é uma fuga de limites conceituais e bases previsíveis. Em um misto de canto, rima e lamentações, a formação de um registro de essência particular, isolado, como se diferentes tormentos sentimentais e existencialistas do jovem artista fossem essencialmente expostos e dissecados em cada instante sombrio que preenche o trabalho.

Interessante perceber que mesmo dentro de um cercado de versos e experiências particulares, O∆ está longe de parecer uma obra reclusa, pouco convincente. Em uma estrutura melódica, O’Connor revela ao público uma coleção de 10 faixas musicalmente atrativas, talvez não comerciais, porém, dificilmente ignoradas. Logo de cara, a dobradinha formada por OATMEAL e NATURAL, músicas que brincam com as mesmas melodias de vozes de grupos de músicas pop nos anos 1960, como das batidas minimalistas de Fever Ray e outros nomes recentes da música eletrônica.

Mesmo que o “pop” não seja a palavra certa para caracterizar o trabalho do rapper/cantor, escapar da armadilha de harmonias etéreas e versos pueris ressaltados em Nobody Hangs Out Anymore ou GUTS é uma tarefa quase impossível. São mais de cinco décadas de referências disformes, opositoras, mas que dialogam de forma segura até o encerramento da obra, sempre amarradas pela lírica sensível, pós-adolescente e particular de O’Connor. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , ,

London O’Connor: “O∆”

.

Depois da sequência de boas composições apresentadas nas últimas semanas – como GutsNobody Hangs Out Anymore -, já era hora de ter acesso ao primeiro álbum de London O’Connor. Na trilha dos últimos lançamentos do jovem artista, O∆ (2015), nasce como reflexo do passeio do cantor/rapper por diferentes campos da música estadunidense, buscando referências que se escondem no rock nova-iorquino de grupos como The Velvet Underground, além, claro, de diálogos curtos com o Hip-Hop, R&B e Soul de diferentes épocas.

São 10 composições, algumas já conhecidas do Soundcloud de O’Connor, além de outras NATURAL e Steal, pequenas representações do som experimental assinado pelo músico. Disponível para download gratuito – clique aqui -, o álbum também pode ser apreciado na íntegra logo abaixo. Para quem acompanha o trabalho de Frank Ocean e King Krule, uma excelente recomendação:

 

.

London O’Connor – O∆

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , ,

London O’Connor: “Guts”

.

London O’Connor parece longe seguir um caminho linear dentro do próprio trabalho. Hip-Hop, Pop, Folk, Psicodelia, referências ao som dos anos 1960 e diálogos breves com a música atual. Como explícito no lançamento de Nobody Hangs Out Anymore, faixa escolhida para inaugurar o esperado O∆ (2015), primeiro álbum do jovem norte-americano, a incerteza é a base de cada arranjo, canto sujo ou rima lançada pelo garoto. Com a entrega da inédita Guts, mais uma prova desse mesmo resultado.

Tão instável quanto o último lançamento de O’Connor, a faixa de batidas pesadas e rimas curtas segue um caminho ainda mais instável. Ora entregue ao som psicodélico da década de 1970, ora costurada por versos secos, típicos do Hip-Hop na década de 1990, a canção reforça a completa flexibilidade do músico, cada vez mais distante de comparações ao trabalho de Frank Ocean e King Krule, revelando a produção de um material verdadeiramente particular.

.


London O’Connor – Guts

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , ,

Disco: “Multi-Love”, Unknown Mortal Orchestra

Unknown Mortal Orchestra
Psychedelic/Indie/Alternative
http://unknownmortalorchestra.com/

Com o lançamento do segundo trabalho em estúdio, II (2013), Ruban Nielson e os parceiros do Unknown Mortal Orchestra partiram em busca de um novo universo de referências musicais. Da sonoridade suja e naturalmente esquizofrênica lançada por gigantes como Captain Beefheart e toda a geração de artistas pós-1967, base do primeiro disco, pouco sobreviveu. Para ocupar essa “lacuna”, um diálogo aproximado com o mesmo R&B de Prince e outros veteranos da década de 1970, preferência que também conduz os arranjos e versos do terceiro álbum do grupo, Multi-Love (2015, Jagjaguwar).

Passo além em relação ao último lançamento da banda, com o presente registro, o coletivo original de Auckland, Nova Zelândia continua a investir no uso descomplicado das melodias, entretanto, encontra no experimento um mecanismo de transformação. São peças como a inaugural faixa-título, canção que mesmo sustentada pelo uso de arranjos e temas radiofônicos, jamais tende ao óbvio, brincando com a interpretação do ouvinte a cada novo ruído distorcido.

Em uma observação atenta, Multi-Love parece entregar ao ouvinte o mesmo cardápio de composições apresentadas no trabalho anterior, porém, hoje cobertas pelo granulado sujo e carga de distorções que marca o primeiro registro da banda, de 2011. Exemplo claro disso está nas melodias e vozes encaixadas no interior de Like Acid Rain e Ur Life One Night. Montadas de forma urgente, ambas as canções passeiam pela psicodelia caseira de 1960 sem necessariamente abandonar o diálogo com as referências lançadas na década seguinte.

Com a chegada de Can’t Keep Checking My Phone, quarta faixa do álbum, um breve distanciamento desse continuo jogo de experiências. Marcada pelas batidas e ritmo acelerado, a composição de abertura climática – como a trilha sonora de um filme de suspense – logo se entrega à dança, como um flerte rápido com a obra de Giorgio Moroder. A mesma proposta ainda se repete com Necessary Evil, porém, de forma controlada, interrompendo o ritmo frenético inicialmente proposto pelo grupo. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , ,

Supercordas: “Maria³″

.

Em 2012, o coletivo carioca Supercordas abandonou o sertão musical criado no álbum Seres Verdes Ao Redor (2006) para visitar com o universo insano (e parcialmente urbano) do sucessor A Mágica Deriva Dos Elefantes. Curioso perceber em Maria³, mais recente lançamento do grupo desde a inédita Sobre o Amor e Pedras – também pelo selo Balaclava Records – uma espécie de ponto de equlibrado encontro entre esses dois ambientes tão distintos.

Bucólica e cinzenta na mesma medida, a nova faixa, mais do que amarrar as pontas dos dois universos, aponta a direção para o novo registro de inéditas da banda – álbum reservado para estrear nos próximos meses. Além do quarteto orientado pela voz de Pedro Bonifrate, Maria³ conta com a participação do guitarrista Benke Ferraz, integrante do Boogarins e responsável pelos ruídos sujos que crescem ao fundo da canção.

Há poucos meses, Boogarins e Supercordas também se encontraram na nossa lista de 14 discos para entender a Neo-Neo-Psicodelia.

.

Supercordas – Maria³

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , ,

Tame Impala: “Cause I’m a Man” (VÍDEO)

.

Currents (2015), este é o nome do terceiro álbum de estúdio da banda australiana Tame Impala. Sucessor do elogiado Lonerism, de 2012, o novo registro aponta para uma direção contrária em relação aos dois últimos lançamentos do grupo comandado por Kevin Parker; transformação explícita nos mais de sete minutos da “eletrônica” Let It Happen, primeira composição da “nova fase” e, agora, oficialmente completa com a entrega de Cause I’m a Man.

Dotada de vocais e arranjos compactos, acompanhados de perto pelo uso delicado de sintetizadores, a nova faixa reforça o completo interesse de Parker no trabalho produzido por Michael Jackson nos anos 1980, representação marcada pelo distanciamento do som enérgico/psicodélico de Lonerism, conceito temporariamente substituído por uma proposta muito mais branda, melancólica e íntima do R&B.

Assista abaixo ao divertido clipe dirigido por Dan Dipaola & Megan McShane e que utiliza de bonecos para representar o coletivo australiano.

.

Tame Impala – Cause I’m a Man

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , ,

Disco: “Fortaleza”, Cidadão Instigado

Cidadão Instigado
Rock/Alternative/Psychedelic
http://www.cidadaoinstigado.com.br/

Climáticos, os sintetizadores crescem lentamente. Ao fundo, guitarras espalham ruídos, sem pressa ou possíveis exageros. A bateria ocupa espaço com timidez, abrindo passagem para que a voz de Fernando Catatau ecoe de forma clara, como um suspiro aliviado: “até que enfim”. Com os pés firmes no chão, passados seis anos desde o lançamento do último álbum de estúdio, Uhuuu! (2009), o grupo cearense Cidadão Instigado deixa de lado do som experimental (e lisérgico) dos primeiros trabalhos para investir em uma obra pontuada pela saudade, melancolia e completa lucidez.

Fuga dos temas e arranjos complexos testados desde a boa fase em O Ciclo da Decadência (2002) e Cidadão Instigado e o Método Túfo de Experiências (2005), com recém-lançado Fortaleza (2015, Independente) a banda – completa com Regis Damasceno, Clayton Martim, Rian Batista e Dustan Gallas – revela ao público uma sonoridade talvez “simples”, mas não convincente. Livre da estrutura torta e limitadora de faixas como O Pinto de Peitos e Deus É Uma Viagem, o canto triste de Catatau se despe do manto colorido, transporta o ouvinte para um cenário obscuro e ainda cria brechas acessíveis aos mais variados público.

Quem esperava por uma possível continuação dos temas cósmicos testados no disco de 2009 talvez se decepcione. Salve exceções, da abertura ao fechamento, guitarras, batidas e toda os arranjos que preenchem a obra são tratados com sobriedade e expressivo “controle” por parte dos integrantes. A herança da década de 1970 – principalmente Pink Floyd – ainda é a mesma, entretanto, o caminho percorrido agora é outro. Mesmo a essência regional de artistas como Fagner e Zé Ramalho parece alterada no interior das canções, como se a longa relação do grupo com a cidade de São Paulo cobrisse todas as lacunas da obra com tons de cinza.

Em se tratando dos versos, um amadurecimento. Basta um passeio pelo romantismo que cobre Besouros e Borboletas para ser atraído pela temática amarga e sempre particular de Catatau. “Me diga o que passou que eu procuro pra você /  Em cantos que eu nem vou / Só pra você perceber / Que estou mais velho”, entrega o melancólico vocalista, ainda íntimo da mesma essência confessional carimbada em clássicos como Lá Fora Têm…, O Tempo, Dói e demais exemplares do puro sofrimento que há tempos cerca os versos da banda.

Mais do que um caricato dramalhão romântico, temas sociais, urbanos e até existencialistas aos poucos se espalham pelo registro. Em Quando a Máscara Cai, por exemplo, o sempre “pacifico” Fernando Catatau assume uma postura quase raivosa, esbravejando em versos como “Vou arrancar Zé Doidim tua máscara / Só pra te ver desorientado / Como tu vais fazer para se esconder?”. A utilização de versos em inglês reflete outro aspecto curioso da obra. Tanto Green Card quando Land Of Light entregam ao público uma banda confortável, longe do idioma local. Sobram ainda faixas que traduzem a saudade em relação à cidade de origem do coletivo, Fortaleza, referência que ultrapassa a própria faixa-título do trabalho e se esconde em pontos estratégicos de toda a obra.

Misto de ruptura e transformação, Fortaleza mostra um grupo remodelado, tão curioso e atento quanto há dez anos, quando passou a receber maior atenção da imprensa especializada. Do dedilhado tímido que preenche o cancioneiro em Perto de Mim, ao som raivoso, quase “punk”, esculpido pelas guitarras de Quando a Máscara Cai, inúmeros são os caminhos (e sonoridades) incorporados pela banda, seguramente capaz de condensar maturidade e jovialidade até a derradeira Lá Lá, Lá Lá Lá Lá. Como entrega o vocalista no primeiro verso do disco: “até que enfim”.

Fortaleza (2015, Independente)

Nota: 8.6
Para quem gosta de: Siba, Céu e Pélico
Ouça: Besouros e Borboletas, Perto de Mim e Até Que enfim

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , , ,