Artista: Tennis
Gênero: Indie, Alternativa, Dream Pop
Acesse: http://www.tennis-music.com/

 

O conceito referencial das guitarras, versos românticos e captações caseiras fizeram do som produzido pelo Tennis a base para um projeto quase caricatural. Uma interpretação nostálgica de tudo aquilo que abasteceu o pop-rock dos anos 1970/1980. Registros de essência litorânea, como Cape Dory (2011), e melodias empoeiradas, caso de Young & Old (2012) e Ritual in Repeat (2014), que posicionam de forma quase deslocada o trabalho da dupla Alaina Moore e Patrick Riley.

Quarto álbum de estúdio da banda original de Denver, Colorado, Yours Conditionally (2017, Mutually Detrimental) mantém firme a mesma proposta explorada pelo casal nos três primeiros álbuns de estúdio. Uma coleção de músicas enevoadas, como fragmentos resgatados de uma antiga coletânea. Do primeiro ao último instante, o perfeito diálogo entre as guitarras cuidadosamente encaixadas por Riley e a voz doce, por vezes melancólica, de Moore.

Entretanto, a similaridade com os primeiros trabalhos da dupla não passa apenas de uma relação estética, produto da arquitetura musical do disco. Responsável pela composição dos versos, Moore se distancia do eu lírico romântico e sonhador de outrora para viver uma personagem real, provocativa. O resultado dessa mudança está na composição de faixas que dialogam o presente. Versos que falam sobre empoderamento, crises conjugais e o papel da mulher na sociedade.

Garotas não tocam guitarra / Garotas não descem, não descem até o chão com som delas / Talvez possamos fingir”, canta em Ladies Don’t Play Guitar, um reflexo sobre o protagonismo sufocado e o peso do machismo dentro da cena musical. Ao mesmo tempo em que dialoga com a década de 1970, efeito da sonoridade e visual adotado pela dupla para a divulgação do disco, Moore estabelece nos versos a ponte para o presente cenário, fazendo do álbum um registro necessário.

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Artista: Tibério Azul
Gênero: MPB, Alternativo, Indie
Acesse: http://tiberioazul.com.br/

 

Seja como integrante do grupo Mula Manca & A Fabulosa Figura ou nas canções assinadas em parceria com diferentes nomes da cena pernambucana, Tibério Azul sempre foi um artista que acreditou na força do coletivo. Basta uma rápida passagem pelo primeiro registro de inéditas do cantor, o colorido Badarra (2011), para perceber a força das ideias, ritmos e diferentes mentes criativas que circulam pelo interior do trabalho, proposta que volta a se repetir nas canções de Líquido ou a vida pede mais abraço que razão (2017, Joinha Records), segundo álbum e mais recente álbum do músico em carreira solo.

Longe da terra, árvores altas e outros elementos esverdeados da natureza que serviram de inspiração para o trabalho lançado há seis anos, o artista recifense encontra na temática da água, chuvas, corredeiras e mares o ponto de partida para a construção de parte expressiva das canções. Em parceria com o produtor Yuri Queiroga, uma fina coleção de músicas que reflete a composição mutável dos sentimentos, relações pessoais e conflitos que invadem a mente do cantor.

E se a chuva nunca chegar / A gente vai é chover por aí / Eu molhando tu / E tu molhando eu”, detalha em Chover, bem-sucedida parceria com a cantora e compositora Clarice Falcão e um doce retrato da poesia metafórica que sustenta o disco. Em Sem Ontem e Sem Amanhã, quarta faixa do álbum, o mesmo cuidado na composição dos versos. “A chuva corre em pedaços / As gotas formam o mesmo rio / Nos braços dessa correnteza / Tudo me trouxe para tu”, canta enquanto a viola de Rodrigo Samico se espalha lentamente ao fundo da canção.

O mesmo conceito “líquido” incorporado aos versos acaba se refletindo na sonoridade versátil do trabalho. São diálogos expressivos com o jazz (Faz Favor), experimentos que bagunçam diferentes aspectos da música regional (Nem A Pedra É Dura) e até canções que brincam com o passado de forma nostálgica (Dindim). Uma verdadeira sobreposição de melodias, gêneros e tendências musicais, proposta que encanta logo nos primeiros minutos do disco, na homônima faixa de abertura, e segue até o último acorde de A vida pede mais abraço que razão.

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Artista: Nicolas Jaar
Gênero: Eletrônica, Experimental, Ambient
Acesse: http://nicolasjaar.net/

 

Os últimos cinco anos foram bastante produtivos para Nicolas Jaar. Entre remixes produzidos para nomes como Grizzly Bear (Sleeping Ute) e Florence and The Machine (What Kind of Man), o produtor nova-iorquino ainda presenteou o público com uma sequência de músicas inéditas – como Fight, parte da série Nymphs –, deu vida à coletânea Don’t Break My Love (2012), trabalho lançado pelo próprio selo, o Sunset & Clown, além de revisitar o clássico filme A Cor da Romã (1969), de Sergei Parajanov, em Pomegranates (2015). Isso sem contar os trabalhos em parceria com Dave Harrington no Darkside – caso do ótimo Psychic, de 2013.

Com a chegada de Sirens (2016, Other People), segundo registro de estúdio de Jaar e sucessor do elogiado Space Is Only Noise (2011), uma lenta desconstrução de tudo aquilo que artista vem produzindo na última meia década. Em um intervalo de apenas seis faixas – Killing Time, The Governor, Leaves, No, Three Sides of Nazareth e History Lesson –, Jaar costura fragmentos instrumentais, brinca com a própria essência e ainda prova de novas sonoridades de forma sempre curiosa, experimental.

Sem pressa – grande parte das faixas ultrapassam os seis minutos de duração –, Jaar testa diferentes combinações e ritmos. Um bom exemplo disso está em No. Quarta faixa do disco, a canção de batidas  lentas cresce com leveza, mergulhando em uma atmosfera quente, por vezes íntima das batidas e do romantismo presente na cúmbia. Nos versos, o peso político e um retrato da luta pela democracia no Chile no final dos anos 1980. Um resgate de frases e fragmentos que mostram a articulação para a derrubada do ditador Augusto Pinochet e o início do período democrático no país. A própria frase estampada na capa do disco –“Ya dijimos no pero el si esta en todo” –, dialoga de forma explícita com plebiscito de 1988, campanha perfeitamente retratada no filme No (2013), de Pablo Larraín.

Dividido entre a euforia e instantes de maior serenidade, Jaar brinca com os contrastes durante toda a construção da obra. Se em minutos são os ruídos atmosféricos de Killing Time que cercam o ouvinte, logo em seguida, os temas eletrônicos, batidas e até guitarras Three Sides of Nazareth tomam conta do trabalho. Um ato turbulento. Pouco menos de dez minutos em que Jaar prova de diferentes fases e conceitos da música Techno, mergulha em ambientações soturnas e ainda flerta com o trabalho de outros produtores e obras recentes, como Wolfgang Tillmans em Device Control (2016).

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Artista: Wado
Gênero: Nacional, Samba, Alternative
Acesse: http://wado.com.br/

Fotos: Alzir Lima/HollyShot

Depois de flertar com a música eletrônica em Samba 808 (2011), incorporar elementos da “bossa nova” no delicado Vazio Tropical (2013) – obra que conta com a produção do músico Marcelo Camelo –, além de esbarrar na crueza do rock que marca o raivoso (e ainda recente) 1977 (2015), o cantor e compositor alagoano/catarinense Wado regressa ao mesmo território dançante que serviu de base para a construção de obras como A Farsa do Samba Nublado (2004) e Terceiro Mundo Festivo (2008).

Em Ivete (2016, Independente), nono registro de inéditas do veterano, um descomplicado jogo de vozes, rimas, batidas e ritmos que instantaneamente convidam o ouvinte a dançar. Dez composições inéditas em que Wado, inspirado pela voz e energia da cantora Ivete Sangalo – “Ivete é a musa a não ser alcançada, ela é norte, mas não é ela quem canta o disco” – mergulha de cabeça na sonoridade da Bahia e grande parte da cultura tropical que movimenta o Norte e Nordeste do país.

Sem pausas, cada composição parece impulsionar de forma entusiasmada a canção seguinte, fazendo do trabalho uma obra essencialmente dinâmica, atrativa aos mais variados públicos. Da abertura, com Alabama, passando por músicas como Um Passo à Frente, Sexo, Filhos de Gandhi e Você Não Vem, Wado e o time de instrumentistas que o acompanham fazem do álbum um verdadeiro carnaval fora de hora, intenso do primeiro ao último verso.

Embora “descompromissado”, Ivete está longe de parecer um registro que se esquiva da poesia política/social de Wado, marca de obras como Terceiro Mundo Festivo e, principalmente, Atlântico Negro (2009). Um bom exemplo disso está na construção da segunda faixa do disco, Terra Santa / Jesus é Palestino, composição que discute com leveza os conflitos entre Israel e Palestina e uma espécie de “continuação” da música Primavera Árabe, nona faixa de Vazio Tropical e outra rápida incursão pelo Oriente Médio.

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Artista: Kristin Kontrol
Gênero: Synthpop, Pop, Dream Pop
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Kristin Welchez passou os últimos oito anos se aprofundando nas melodias sujas do Dum Dum Girls. Sob o pseudônimo de Dee Dee, a cantora e compositora californiana entregou ao público três grandes registros de inéditas – I Will Be (2010), Only in Dreams (2011) e Too True (2014) –, uma bem-sucedida sequência de EPs – como He Gets Me High (2011) e End of Daze (2012) –, além de uma coleção de faixas melancólicas, íntimas de uma série de referências musicais vindas da década de 1980.

Em X-Communicate (2016, Sub Pop), primeiro álbum em carreira solo, Welchez não apenas assume uma nova identidade, se apresentando como Kristin Kontrol, como passa a explorar um conjunto de ideias e temas instrumentais renovadas. Em um diálogo explícito com o trabalho de gigantes como Cocteau Twins, Kate Bush, Madonna e Siouxsie and the Banshees, a cantora delicadamente expande os próprios limites, produzindo um som que abraça o passado, porém, mantém firme a relação com o presente.

Da abertura do disco, com Show Me, passando por faixas como White Street, (Don’t) Wannabe e Smoke Rings, Kontrol finaliza um trabalho de essência pop, pegajoso em cada melodia sintetizada, batida ou uso assertivo da voz. Trata-se de uma verdadeira coleção de hits, como se diferentes composições lançadas há mais de três décadas fossem resgatados, polidos, e delicadamente encaixados dentro do presente disco. Uma verdadeira homenagem da cantora aos clássicos do Synthpop/New Wave.

Movida pelos sentimentos e histórias de relacionamentos fracassados, Kontrol cria uma obra marcada pela dor. Basta mergulhar e composições como What Is Love, Goinh Thru the Motions e (Don’t) Wannabe para perceber a completa exposição da cantora, honesta e dolorosamente apaixonada em cada fragmento de voz que preenche o registro. Observado de forma atenta, X-Communicate nasce como uma extensão do material produzido em faixas como Bedroom Eyes e Lord Knows, com o Dum Dum Girls.

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Artista: El Toro Fuerte
Gênero: Indie, Alternative, Emo
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Se a gente tivesse se conhecido quando era criança e fosse brincar de ciranda na casa da sua avó será que a gente percebia que a gente se dava bem?”. A poesia nostálgica da inaugural Se A Gente Tivesse Se Conhecido indica o tom melancólico que orienta grande parte do primeiro álbum de estúdio da banda mineira El Toro Fuerte. Depois de uma sequência de composições avulsas, o delicado Um Tempo Lindo Pra Estar Vivo (2016, Bichano Records) marca a estreia do trio João Carvalho (vocais, guitarra, baixo), Gabriel Martins (bateria) e Diego Soares (baixo, guitarra, vocais).

São 10 canções marcadas pelo uso honesto de temas confessionais e existencialistas (Flagelo), histórias sobre romances fracassados (Mudança), além de um delicado passeio temático que tem início na adolescência (Se A Gente Tivesse Se Conhecido) e seque até o alvorecer da vida adulta (Quando seus pais). Uma imensa colcha de retalhos sentimentais que se espalha e envolve cada fragmento de voz presente no disco, delicado do primeiro ao último sussurro.

Íntimo do mesmo universo de artistas mineiros como Jonathan Tadeu e toda a nova geração de músicos mineiros, Um Tempo Lindo Pra Estar Vivo encanta pela forma simples como os versos parecem dialogar com os tormentos de qualquer ouvinte. “Eu já pensei / Em me mudar daqui / Eu já não ouço mais / Seu coração batendo, afinal … Eu só posso esperar / Pelo dia em que você / Acorde sozinha“, canta de forma amargurada em Mudança, uma típica canção de separação e a base de grande parte do material que se estende até a derradeira Lembrar É Como Uma Roleta Russa.

Dividido entre o presente sóbrio e um passado ainda recente, durante toda a execução do trabalho, o trio mineiro joga com a instabilidade dos sentimentos. Se em instantes o eu lírico parece sufocar pela saudade (“será que você vai lembrar de mim?”), logo em seguida, o ouvinte é mergulhado em um cenário marcado pela aceitação (“Eu não tenho mais mágoa”). Uma tumultuada exposição, confusa em grande parte das canções, porém, íntima da incerteza de qualquer personagem romântico.  

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DIIV
Indie Rock/Dream Pop/Alternative
https://www.facebook.com/diivnyc/

 

Ouvir Is the Is Are (2016, Captured Tracks) é como ser arrastado para dentro de um imenso turbilhão de emoções, ruídos e sentimentos confessos. Guitarras crescem e encolhem a todo o instante, sempre replicando diferentes conceitos instrumentais explorados nas décadas de 1980 e 1990. Uma colisão de fórmulas, referências e pontes atmosféricas que sustentam na voz abafada do líder Zachary Cole Smith a base para o nascimento de letras marcados por temas pessoais (Out of Mind), delírios (Take Your Time) e conflitos amorosos (Dopamine).

Musicalmente amplo, livre do pós-punk hermético produzido durante o lançamento de Oshin (2012), álbum de estreia do DIIV, Is the Is Are é uma obra que lentamente brinca com as possibilidades. Ruídos ásperos que abraçam o shoegaze em Incarnate Devil, solos de guitarra essencialmente melódicos em Mire (Grant’s Song), a voz doce, por vezes pegajosa, de Smith em Dopamine e Under the Sun. Pouco mais de 60 minutos de duração em que o grupo nova-iorquino arremessa o ouvinte para todas as direções.

Verdadeiro mosaico de cores cinzentas, cada faixa do álbum parece buscar conforto em diferentes cenários, épocas e tendências instrumentais. Se em instantes o DIIV soa como o R.E.M. nos primeiros álbuns de estúdio – vide as guitarras da inaugural Out of Mind ou a crescente Yr Not Far -, em poucos segundos um novo catálogo de ideias e sonoridades parecem revisitadas. The Cure em Healthy Moon, The Raplacements nas guitarras de Under The Sun, Slowdive e Ride nos ruídos hipnóticos de Mire (Grant’s Song). Uma delicada expansão do rico acervo apresentado pelo grupo em Oshin.

Ambientado em um universo próprio de Zachary Cole Smith, Is The Is Are lentamente mergulha em um cenário marcado pela desordem, consumo excessivo de drogas e confissões alucinadas do músico. “You’re the sun and I was your cloud / Burning out, running in place / Got so high I finally felt like myself”, canta o vocalista em Dopamine, uma canção que cruza amor e lisergia de forma intensa, quente, um estímulo para o nascimento de faixas como Valentine (“Stuck inside of me / In tragedy i’m complete”) e Blue Boredom (“Thief for a chance / Kiss for a catch”), esta última, uma parceria entre Smith e a ex-namorada, a cantora Sky Ferreira.

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Bloc Party
British/Alternative/Rock
http://blocparty.com/

 

Há tempos o Bloc Party deixou de ser um projeto colaborativo para se transformar em uma extensão da carreira solo de Kele Okereke. Um meio termo entre o som incorporado pela banda nos ótimos Silent Alarm (2005) e A Weekend in the City (2007), mas que também passeia pela dobradinha autoral do vocalista em The Boxer (2010) e Trick (2014). Guitarras climáticas, versos cíclicos e temas eletrônicos que se movimentam de forma curiosa dentro do recém-lançado Hymns (2016, Vagrant / BMG / Infectious), quinto registro de inéditas do grupo britânico.

Entregue ao público dez anos após o lançamento do primeiro álbum do Bloc Party, Hymns inicialmente se projeta como uma obra de limites bem definidos. Longe dos experimentos que marcam as canções apresentadas em Intimacy (2008), ou mesmo da aceleração que movimenta o antecessor Four (2012), cada uma das 11 faixas do presente disco refletem o permanente controle da banda, hoje reformulada, com Justin Harris e Louise Bartle ocupando o lugar dos ex-integrantes Gordon Moakes e Matt Tong.

Ainda que carregue parte da essência eletrônica dos trabalhos de Okereke, vide a inaugural e dançante The Love Within, Hymns talvez seja o registro que melhor explora a essência do Bloc Party em tempos. São composições marcadas pela sensibilidade (Only He Can Heal Me) e conflitos pessoais de Okereke (So Real). Difícil ouvir a extensa Different Drugs e não ser arrastado pelo turbilhão emocional que sustenta a faixa. “Toda vez que eu volto para casa / Alguma coisa está errada, falta algo / Você está girando para longe de mim”, canta o vocalista naquela que é uma das melhores faixas já compostas pela banda.

Ao mesmo tempo em que encanta pela sutileza de determinadas músicas, não são poucos os momentos em que o Bloc Party tropeça em uma sequência de canções descartáveis. É o caso da balada Into The Earth e da “roqueira” The Good News. Enquanto a primeira apela para o mesmo sentimentalismo barato de grande parte dos grupos de pop-rock dos anos 1990 e 2000, com a segunda, Okereke e os parceiros de banda brincam de Arctic Monkeys, flertando com o mesmo som explorado pelo grupo inglês no álbum AM, de 2013.

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Hinds
Indie Rock/Lo-Fi/Garage Pop
http://www.hindsband.com/

 

Quem acompanha as garotas do Hinds em diferentes redes sociais – como Instagram ou Facebook – sabe do caráter “descompromissado” que movimenta o cotidiano de cada integrante da banda. Noites embriagadas que passeiam por diferentes bares de Madrid – cidade onde o grupo foi formado -, festas, apresentações em pontos distintos da Europa e pequenas doses de exagero. Um estímulo para o material essencialmente instável que abastece cada uma das canções do primeiro registro de inéditas do quarteto, Leave Me Alone (2016, Lucky Number).

Verdadeiro catálogo de gravações caseiras, o álbum de 12 faixas empoeiradas parece seguir uma cartilha de regras e conceitos próprios. “Nuestras mierdas, nuestras reglas”, como definiram as integrantes da banda em entrevista à NME. São vozes sujas, arranjos anárquicos, canções de amor (I LL Be Your Man) e separação (San Pedro) que se perdem em um mundo de guitarras pegajosos que seriam facilmente encontrados nos trabalhos de grupos como Wavves e Black Lips – este último, influência confessa do quarteto espanhol e parceiro em uma turnê realizada no último ano.

Mesmo cravejado de hits e faixas encorpadas por melodias acessíveis – vide a pegajosa música de abertura, Garden , Leave Me Alone parece seguir um caminho particular, essencialmente torto. Cada composição explorada ao longo do disco parece encaixada de maneira aleatória, propositadamente irregular, como um típico exemplar do rock alternativo dos anos 1990.

Ambientado no mesmo ambiente Lo-Fi de obras como DEMO e BARNS – quando a banda ainda se chamava Deers e era composta apenas pela dupla Ana Perrote e Carlotta Cosials -, Leave Me Alone é uma obra que encanta justamente pelo aspecto “amador” de cada composição. Instantes de serenidade, como na instrumental Solar Gap, e explosão, caso de Garden e da “litorânea” Castigadas en El Granero, que estabelecem um laço quase imediato entre o ouvinte e a obra.

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Arca
Experimental/Electronic/Ambient
http://www.arca1000000.com/

 

Alejandro Ghersi não poderia ter pensado em um título mais inteligente para o segundo álbum como Arca do que Mutant (2015, Mute). De fato, desde a estreia do produtor venezuelano, em 2012, a incerteza das batidas e imagens – assinadas pelo parceiro Jesse Kanda – servem de estímulo para cada composição produzida pelo artista. Uma permanente desconstrução ampliada durante o lançamento do álbum Xen, em 2014, mas que se revela de forma ainda mais assertiva e perturbadora nos mais de 60 minutos do presente álbum.

Livre da vitrine de possibilidades explorada no trabalho entregue há pouco mais de um ano, em Mutant, Arca conquista uma obra que mesmo torta, essencialmente instável, mantém firme a relação de similaridade entre as faixas. Em um explícito exercício de aproximação, cada música parece servir de estímulo para a composição seguinte, resultando em um registro que lentamente oculta as próprias lacunas e se completa.

São colagens eletrônicas (Sinner), vocais explorados como instrumentos (Anger) e até a interferência atípica de instrumentos, marca de Gratitud, 13ª faixa do disco e composição que parece extraída do clássico Endless Summer (2001), do produtor austríaco Fennesz. Observado de forma atenta, mais do que um exercício de criação, com o segundo álbum de inéditas, Arca se concentra em “homenagear” e resgatar o trabalho de diferentes nomes da música experimental – antiga ou recente.

Difícil não lembrar de Oneohtrix Point Never nos ruídos sobrepostos de En, uma típica canção do álbum Replica (2011). O mesmo vale para nomes como Tim Hecker, Laurel Halo, The Haxan Cloak e outros produtores que partilham da mesma essência musical que Ghersi e parecem dissolvidos no interior do trabalho. A própria relação de Arca como produtor de Vulnicura (2015), último registro de inéditas da cantora Björk, se reflete em músicas como Snakes e Soichiro, possíveis sobras do trabalho assinado em parceria.

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