Artista: Jens Lekman
Gênero: Indie Pop, Alternativo,
Acesse: http://jenslekman.com/index2.htm

 

Jens Lekman passou os últimos cinco anos pulando de um trabalho para outro. Logo após o lançamento de I Know What Love Isn’t (2012), terceiro álbum de estúdio, o cantor e compositor sueco deu início a uma série de singles – intitulada Postcard –, produziu uma divertida mixtape recheada com músicas de David Byrne, Jhene Aiko e diferentes clássicos do Soft Rock – WWJD MIXTAPE –, além de compor uma faixa especialmente para duas garotas – Olivia & Maddy –, fãs salvaram o músico de ficar ilhado na cidade de Nova York durante a passagem do furacão Sandy, em outubro de 2012.

Interessante perceber em Life Will See You Now (2017, Secretly Canadian), quarto e mais recente álbum de estúdio de Lekman, grande parte dos “experimentos” testados pelo músico sueco nos últimos anos. Em um intervalo de 40 minutos, diferentes personagens, histórias marcadas pelo bom humor, arranjos ensolaradas, batidas e vozes em coro dançam pelo interior do trabalho, resultando na construção de uma obra íntima do mesmo som melódico explorado no clássico Night Falls Over Kortedala (2007).

Apresentado ao público durante o lançamento da romântica What’s That Perfume That You Wear?, em janeiro deste ano, o novo álbum delicadamente encaminha Lekman em direção ao passado. São batidas e arranjos tropicais que flutuam entre a boa fase da Disco Music e o som colorido da Balearic Beat. “Eu queria que fosse um disco pop”, explicou em entrevista ao site da Entertainment Weekly, reforçando o conceito acessível que se espalha ao longo da obra e cresce em cada fragmento instrumental do disco.

Quinta faixa do álbum, Our First Fight reflete com naturalidade essa mesma proposta. Arranjos ensolarados que servem de pano de fundo para uma letra essencialmente descritiva. Em Hotwire the Ferris Wheel, parceria com a britânica Tracey Thorn, um som eletro-acústico, pontuado pelo uso de samples e batidas eletrônicas, conceito que se repete de forma dançante em How We Met, The Long Version, porém, assume novo (e melancólico) enquadramento em Postcard #17.

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Artista: Thundercat
Gênero: Neo-Soul, Funk, R&B
Acesse: http://www.brainfeedersite.com/

 

De To Pimp a Butterfly (2015) e Untitled Unmastered (2016) do rapper Kendrick Lamar, passando pelo experimentalismo de The Epic (2015), álbum de estreia do saxofonista Kamasi Washington, até alcançar o trabalho de artistas como Ty Dolla $ign, Kirk Knight e Mac Miller, não são poucos os registros que contaram com a presença e interferência do versátil Stephen Bruner. Uma coleção de faixas que atravessa a obra de Erykah Badu, Vic Mensa, Childish Gambino, Flying Lotus e outros nomes de peso da música negra dos Estados Unidos.

Dono de uma bem-sucedida sequência de obras lançadas sob o título de Thundercat – The Golden Age of Apocalypse (2011), Apocalypse (2013) e The Beyond / Where the Giants Roam (2015) –, o músico californiano chega ao quarto álbum de estúdio brincando com a capacidade de dialogar com diferentes estilos e técnicas. Em Drunk (2017, Brainfeeder), cada uma das 23 faixas do disco se transforma em um objeto de destaque, conduzindo a música de Bruner para dentro de um terreno nunca antes explorado.

Melodias eletrônicas que parecem resgatadas de algum jogo de videogame em Tokyo, o R&B sombrio da psicodélica Inferno ou mesmo o som descompromissado que escapa de Bus In These Streets, música que parece pensada como a abertura de alguma série cômica dos anos 1980. Em um intervalo de 50 minutos, tempo de duração da obra, Bruner e um time seleto de colaboradores passeia pelo álbum de forma sempre curiosa, atenta, resgatando diferentes conceitos e possibilidades sem necessariamente fazer disso o estímulo para um trabalho instável.

Mesmo na estranheza de Drunk e todo o universo de possibilidades que cresce dentro de cada composição, Bruner mantém firme a proximidade entre as faixas. São variações entre o R&B/Soul da década de 1960 e o pop eletrônico que começou a crescer no final dos anos 1970. Uma mistura de ritmos temperada pelo jazz fusion, trilhas sonoras de videogame, viagens de LSD e antigos programas de TV, como se memórias da adolescência do músico servissem de base para a formação do trabalho.

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Artista: Dirty Projectors
Gênero: Experimental, Indie, Alternativo
Acesse: http://dirtyprojectors.net/

 

Entre samples de Sheathed Wings, do produtor canadense Dan Deacon, e fragmentos da romântica Impregnable Question, parte do álbum Swing Lo Magellan, de 2012, variações claustrofóbicas na voz de David Longstreth detalham uma poesia angustiada, triste: “Eu não sei porque você me abandonou / Você era minha alma e minha parceira”. Ponto de partida para o sétimo álbum de estúdio do Dirty Projectors, a inaugural Keep Your Name indica o percurso amargo assumido pelo músico nova-iorquino durante toda a formação do melancólico registro.

Claramente influenciado pelo rompimento com a cantora, guitarrista e ex-integrante do Dirty Projectors Amber Coffman – embora Longstreth tenha reforçado em entrevistas que está “tudo bem” entre eles –, o registro flutua em meio a versos dolorosamente apaixonados e tentativas de reconciliação. Dono de grande parte dos instrumentos e responsável pela produção do disco, Longstreth se revela em sua forma honesta, fazendo de cada música ao longo da obra um fragmento essencialmente intimista.

Nosso amor está em uma espiral / Morte / Nosso amor é / Morte”, canta com frieza em Death Spiral, composição que utiliza de samples de Scene D’Amour, música composta por Bernard Hermann para o filme Um Corpo que Cai (1958), de Alfred Hitchcock, e um fino reflexo de qualquer relacionamento em decomposição. O mesmo aspecto se reflete ainda na saudosista Little Bubble, música que se espalha em meio a delírios românticos, memórias e cenas extraídas de um passado recente – “Nós tivemos nossa própria pequena bolha / Por um tempo”.

Tamanha melancolia na construção dos versos se reflete na forma como Longstreth detalha toda a base instrumental do disco. São batidas eletrônicas, ambientações densas e pequenos diálogos com o R&B. Um reflexo da própria colaboração do músico com o trabalho de artistas como Rihanna e Solange, essa última co-autora de Cool Your Heart, bem-sucedida parceria com Dawn Richard. A própria voz, maquiada pelo auto-tune, surge como um elemento fundamental para o crescimento da obra. Uma representação dos pequenos fluxos de pensamento na mente atormentada de Longstreth.

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Artista: Los Campesinos!
Gênero: Indie Rock, Alternativo, Indie Pop
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Guitarras e batidas rápidas, o coro de vozes melódicas – Uh Uh Uh Uh Uh Uh Uh-Uh –, sintetizadores sempre funcionais, trabalhados ao fundo da composição. Basta uma rápida audição da inaugural Renato Dall’Ara (2008) para que o ouvinte seja instantaneamente transportado para dentro do novo álbum de inéditas do Los Campesinos. Finalizado depois de um hiato de quatro anos, Sick Scenes (2017, Wichita Recordings) traz de volta a mesma energia do coletivo inglês em começo de carreira, porém, completo pelo uso de versos e temas marcados pela sobriedade.

Dizem que se tivessem conquistado a vitória / Agiriam com muito mais humildade / Dizem que se tivessem conquistado a vitória / Bem, acho que nunca saberemos”, canta o vocalista Gareth em 5 Flucloxacillin, um reflexo da poesia angustiada e completa descrença – política e social – que sustenta o trabalho. Canções mergulhadas de forma explícita no universo da vida adulta, como uma lenta desconstrução do romantismo jovial e sonhador retratado nos primeiros álbuns de estúdio do grupo.

Sucessor dos maduros Hello Sadness (2011) e No Blues (2013), Sick Scenes é um trabalho que reflete os principais tormentos de qualquer indivíduo que acaba de alcançar a vida adulta. Um disco naturalmente amargo, mas nunca pessimista, montado a partir de memórias e fragmentos sempre sensíveis. Canções que falam sobre a dificuldade em lidar com a depressão, caso de I Broke Up in Amarante, ou mesmo versos que refletem a vida conjugal de forma pessimista, marca de Here’s to the Fourth Time! – “E tudo o que temos é a necessidade de se reproduzir antes de apodrecer”.

Quinta faixa do disco, a acolhedora The Fall of Home talvez seja a composição que melhor reflete esse “deslocamento” do eu lírico durante toda a construção do trabalho. Entre versos curtos e lembranças recortadas de diferentes épocas, o ouvinte percebe a incapacidade do protagonista em se adaptar aos velhos costumes da cidade onde cresceu. “Você deixou a sua cidade natal por algo novo / Não se surpreenda, agora ela está deixando você”, canta o vocalista da banda enquanto uma delicada base melódica, composta por xilofones e violinos, dança em torno dos versos.

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Artista: Visible Cloaks
Gênero: Experimental, Electronic, Ambient
Acesse: http://www.visiblecloaks.com/

 

Imagine tudo que foi produzido em termos de experimentação com a música eletrônica na última década. Da chillwave de Neon Indian e Ford & Lopatin ao som torto explorado por Oneohtrix Point Never e Laurel Halo. Da vaporwave de 2 8 1 4, Macintosh Plus e Blank Banshee ao detalhamento atmosférico que escapa das composições de artistas como Julianna Barwick, Emeralds e Fennesz. Ideias, reciclagens e possibilidades que se agrupam de forma propositadamente instável em Reassemblage (2017, RVNG INTL), segundo registro de inéditas da dupla Visible Cloaks.

Inicialmente pensado como um trabalho solo do produtor Spencer Doran e batizado apenas como Cloaks, o projeto ganhou novos contornos com a chegada do músico e parceiro de estúdio Ryan Carlile. Do encontro, veio o primeiro álbum homônimo como Visible Clocks, um curioso ensaio para as canções que assumem nova formatação dentro do presente registro. Músicas essencialmente curtas, dinâmicas, porém, compostas por camadas de melodias eletrônicas, quebras e ritmos diferentes.

Obra de incertezas, Reassemblage parece mudar de direção a cada novo fragmento musical. Basta uma audição da atmosférica Screen, faixa de abertura do disco, para mergulhar no universo produzido pela dupla de Portland. Em um intervalo de apenas três minutos, tempo de duração da música, sintetizadores etéreos, pinceladas minimalistas e ruídos delicadamente se espalham ao fundo da canção, resultando em uma improvável encontro entre Killing Time de Nicolas Jaar e a trilha sonora de Vangelis para Blade Runner (1982).

Na contramão de outros projetos do gênero, em sua maioria centrados na força das batidas, o álbum de 11 canções – 15 na versão digital –, encontra nas melodias e bases eletrônicas o ponto de partida para grande parte das canções. Terceira faixa do disco, Bloodstream reflete com naturalidade esse conceito. Sintetizadores e entalhes minimalistas que se espalham durante toda a formação da faixa. Uma fina tapeçaria que cresce e ocupa todo a composição, completa pelo uso de vozes eletrônicas à la Daft Punk em The Game of Love.

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Artista: Bing & Ruth
Gênero: Experimental, Ambient, Drone
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Questionado pelo jornalista Philip Sherburne em uma extensa entrevista sobre a origem conceitual, evolução e novos rumos da Ambient Music, Brian Eno respondeu: “Para mim, a idéia central era sobre a música como um lugar que você pudesse visitar. Não uma narrativa, tampouco uma sequência que tenha algum tipo de direção teleológica. É realmente baseado no expressionismo abstrato: em vez da imagem de uma perspectiva estruturada, onde o olho aponta para uma determinada direção, temos um campo, e você pode passear sonicamente sobre esse campo”.

Inspirado de forma confessa pela obra do cantor, compositor e produtor inglês, o pianista nova-iorquino David Moore faz de cada novo álbum do Bing & Ruth a passagem para um cenário dominado por diferentes formas, estruturas instrumentais e melodias que dançam em torno do ouvinte. Oficialmente apresentado ao público durante o lançamento do álbum Tomorrow Was The Golden Age, de 2014, Moore retorna ao estúdio com um time de instrumentistas para a produção de um novo e delicado experimento atmosférico.

Em No Home of the Mind (2017), quinto registro de inéditas do músico norte-americano e primeiro trabalho do Bing & Ruth lançado pelo selo 4AD – casa de artistas como Tim Hecker e Deerhunter –, Moore mais uma vez conduz o ouvinte para dentro de um labirinto dominado por pianos e sons enevoados. Uma lenta sobreposição dos instrumentos que atravessa a obra de Brian Eno, dialoga com o trabalho de compositores como Phillip Glass e Max Richter, até se perder em um universo de formas abstratas.

Obra de repetições, como tudo que Moore vem produzindo nos últimos anos, o registro de dez faixas exige uma audição atenta até que ouvinte perceba todas as nuances e manobras instrumentais que o pianista detalha no interior do disco. Longe de garantir respostas, No Home of the Mind parece pensado de forma que o público se perca dentro dele. Passagens, brechas e espirais que mudam de forma a todo instante. Composições iluminadas por um brilho fosco, como a inaugural Starwood Choker, ou mesmo faixas marcadas pelo tom soturno dos arranjos, caso de Chonchos.

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Artista: Ryan Adams
Gênero: Rock, Alternativo, Folk
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Guitarras e batidas exploradas de forma crescente e dramática. Ao fundo da canção, o uso climático dos teclados, instrumento trabalhado como um complemento aos versos românticos que explodem de forma sempre exagerada, brega: “Você ainda me ama, bebê?”. Bastam os primeiros minutos de Do You Still Love Me? para que o ouvinte seja rapidamente transportado para dentro do novo (e melancólico) álbum de Ryan Adams: Prisoner (2017, PAX AM / Blue Note).

Primeiro registro de inéditas do cantor e compositor norte-americano desde o homônimo álbum lançado em 2014 e também sucessor da controversa adaptação do disco 1989 (2015), de Taylor Swift, Prisoner é, como grande parte dos trabalhos de Adams, um doloroso registro de separação. Trata-se de uma coleção de memórias ainda recentes e versos sorumbáticos que refletem todo o processo de distanciamento do artista e sua ex-esposa, a cantora e atriz Mandy Moore.

A principal diferença em relação a outros trabalhos produzidos pelo músico, caso do melancólico Gold (2001) e Love Is Hell (2004), está na forma como Adams abraça de vez o rock dos anos 1970/1980 como um estímulo para a construção de toda a atmosfera do disco. Difícil não lembrar de Bruce Springsteen, Dire Straits e Fleetwood Mac à medida que o álbum avança, efeito do evidente diálogo do músico com toda uma geração de representantes do famigerado “Dad Rock”.

O som ecoado das batidas e vozes, arranjos eletroacústicos e versos que se espalham em meio a delírios românticos, angústias e pequenas confissões. “Eu poderia esperar mil anos, meu amor / Eu esperaria por você / Eu poderia ficar em um só lugar, meu amor / E nunca me mover”, canta em Doomsday, uma dolorosa síntese do som amargo que preenche o disco. Instantes em que os sentimentos mais profundos de Adams se transformam em um retrato das desilusões de qualquer ouvinte.

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Artista: Momo
Gênero: Indie, Samba, Folk
Acesse: https://www.facebook.com/momooficial/

 

Marcelo Frota é um cidadão do mundo. Nascido em Minas Gerais, filho de pai cearense e dono de uma longa trajetória no Rio de Janeiro, o cantor e compositor decidiu aportar em Portugal, fixando residência na região de Alfama, um dos bairros mais tradicionais da capital Lisboa. Dessa mudança vem o recém-lançado Voá (2017, Universal Music), primeiro registro de inéditas do cantor em quatro anos e a busca declarada por um som marcado pelas possibilidades.

Em um sentido oposto ao som melancólico e cinza de Cadafalso (2013), Momo traz de volta a mesma essência litorânea, intimista e levemente ensolarada de Serenade of a Sailor (2011). Um cenário montado de frente para o mar, coberto pelo Sol, amores e personagens reais que surgem e desaparecem a todo instante, a cada novo fragmento de voz. Memórias de um passado ainda recente, quente, como se o ouvinte pudesse tocar nas palavras e sentimentos lançados pelo cantor.

A principal diferença em relação aos últimos trabalhos de Momo está no aspecto “sorridente” que movimenta as canções. “Sem dor, com fé / Perdão, o meu destino não é solidão … Tempo é tão bonito sem partida“, canta na inaugural Esse Mar, um sopro leve, poderoso indicativo da lírica esperançosa que acompanha o ouvinte durante a obra. Uma fuga declarada do sabor amargo, quase tétrico, incorporado pelo músico em faixas como Sozinho, Recomeço e parte expressiva do último disco.

Dotado de um precioso romantismo, Voá se espalha em meio a histórias e recordações que dançam em torno de diferentes personagens. Em Pensando Nele, sem necessariamente parecer saudosista, Momo olha para a própria família de forma delicada — “Eu me peguei pensando / Eu me perdi pensando nele”. Entre arranjos e batidas cadenciadas, o doce afoxé de Meu Menino, um dos instantes de maior entrega do músico mineiro — “Uma boca que é linda / É linda / Eu bem beijei”.

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Artista: Figueroas
Gênero: Eletrônica, Lambada, Pop
Acesse: https://www.facebook.com/figueroaslambadaquente/

 

Não poderia existir melhor época para o lançamento de Swing Veneno (2017, Deck Disc / Läjä Records). Segundo registro de inéditas do Figueroas, projeto comandado pela dupla alagoana Givly Simons (vocal) e Dinho Zampier (órgão, sintetizador), o trabalho de dez faixas funciona como um curioso rito de passagem para a chegada do Carnaval. Uma solução de versos, batidas e melodias quentes, sempre provocantes, ponto de partida para cada uma das canções dissolvidas no interior da obra.

Tal qual o caloroso registro entregue em 2015, Lambada Quente, o novo álbum se espalha em meio a sintetizadores, versos marcados pela comicidade e batidas que nascem como um convite à dança. Uma mistura de ritmos que joga com o som e a essência do carimbó, se espalhando em meio a flertes com a música eletrônica, pop, cúmbia, brega e todo um universo de referências extraídas de diferentes épocas e tendências da música popular brasileira.

Completo com a presença dos músicos Rafa Moraes (guitarra e baixo), Raphael Coelho (percussão), Natan Oliveira (metais) e Dieguito Rocha (bateria), Swing Veneno ainda conta com um toque especial de dois convidados. É o caso do veterano Manoel Cordeiro, músico responsável pelo som colorido que escapa das guitarras e violões em quatro composições do disco, além, claro, do ator Chay Suede, a voz pontual em duas vinhetas produzidas para o álbum.

Inaugurado pelo romantismo torto do Boneca Selvagem (“Boneca selvagem / Seu beijo me acelera”), o trabalho convence logo nos primeiros minutos. Difícil escapar da sequência de versos cíclicos e batidas que invadem na cabeça do ouvinte. Mesmo o clássico Não Há Dinheiro Que Pague, música eternizada por Roberto Carlos na década de 1960, se transforma em um arrasta-pé caloroso e sedutor, efeito da simplicidade como os elementos — sonoros e poéticos — ocupam a canção.

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Artista: Ty Segall
Gênero: Rock, Garage Rock, Rock Alternativo
Acesse: https://tysegall.bandcamp.com/

 

Passado o lançamento de Manipulator, em 2014, Ty Segall decidiu revisitar uma série de composições esquecidas dentro do próprio repertório. O resultado dessa busca está na produção de uma bem-sucedida coletânea de singles — $INGLE$ 2 (2014) —, um trabalho em homenagem ao grupo inglês T. Rex, lançado em 2015, além de um registro ao vivo, Live in San Francisco, apresentado meses depois. No começo de 2016, a chegada de um novo álbum de inéditas, o mediano Emotional Mugger, e o início de um longo período de hiato — pelo menos para os padrões do músico.

Primeiro registro de inéditas do cantor e compositor californiano em meses, Ty Segall (2017, Drag City), autointitulado trabalho de dez faixas, segue em direção ao passado. Trata-se de um precioso resgate de temas e referências que passa pelo pop-rock da década de 1960 — principalmente The Beatles —, mergulha no som psicodélico produzido nos anos 1970 e cresce como uma reciclagem de diferentes estilos de forma sempre enérgica, crua, estímulo para grande parte da discografia do guitarrista.

A principal diferença em relação aos últimos lançamentos de Segall está na forma como cada composição ao longo do presente disco se revela de forma acessível ao grande público. Logo nos primeiros minutos do trabalho, a explosão das guitarras e vozes de Break A Guitar, música que passeia por algumas das principais referências do músico norte-americano – como Nirvana e T. Rex –, sem necessariamente fazer disso um som copioso ou pouco inventivo.

Quanto mais o disco avança, mais Segall brinca com as possibilidades. Em Freedom, segunda faixa do disco, o possível resultado de como seria um encontro entre The Beach Boys e Ramones. Nas guitarras de The Only One, uma clara reverência ao Hard Rock dos anos 1970, efeito da movimentação firme dos arranjos, no melhor estilo Led Zeppelin. Na curtinha e acústica Orange Color Queen, um breve instante de pura leveza e romantismo, como se o músico resgatasse as mesmas melodias originalmente testadas em obras como Twins (2012) e Sleeper (2013).

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