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Resenha: “Memoro Fantomo_Rio Preto”, Sentidor

Artista: Sentidor
Gênero: Ambient, Experimental, Electronic
Acesse: http://sentidor.bandcamp.com/

 

Fotos: Raíssa Galvão

Os cenários esverdeados e aconchegantes do interior do Brasil pouco a pouco são montados na cabeça do ouvinte durante a audição de Memoro Fantomo_Rio Preto (2016, Independente). Mais recente trabalho de inéditas do mineiro João Carvalho como Sentidor, o registro de treze faixas não apenas revela o uso atento de texturas e ambientações eletrônicas típicas de grandes nomes da cena estrangeira, como reflete com naturalidade sensação de mudança a cada novo fragmento instrumental, fazendo do registro uma obra viva.

Como indicado no próprio título do trabalho, o sucessor do também delicado Dilúvio, de 2015, se divide de forma explícita em dois atos distintos. Na primeira metade, Memoro Fantomo. São oito composições em que Caravalho parece confortar o ouvinte. Paisagens, cenas e pequenos acontecimentos cotidianos remontados de forma instrumental. Em Célula_1, por exemplo, terceira faixa do disco, é possível visualizar um grupo de crianças brincado em um fim de tarde, proposta que muito se assemelha ao clássico Music Has the Right to Children (1998), da dupla Boards of Canada.

Da abertura do disco, em Os Momentos Plenos Da Minha Vida São Verdes, passando por faixas como Dezembro, Guara Pari, Inverno até alcançar a derradeira Nascer Do Sol, Janeiro, Carvalho parece jogar com as sensações do ouvinte. Um jogo atento de sintetizadores sobrepostos, fragmentos de vozes e pequenos entalhes eletrônicos. Sem pressa, cada composição nasce como um ato isolado, curioso, histórias contadas mesmo na ausência de voz, como se diferentes personagens e cenários fossem apresentados ao público no interior de cada canção.

Em Rio Preto I, nona faixa do disco, a passagem para um novo universo de composições. Enquanto todo o primeiro ato do trabalho parece refletir uma atmosfera acolhedora, pueril e matutina, efeito da profunda leveza de cada fragmento eletrônico, Carvalho faz do segundo bloco de canções uma completa inversão desse resultado. São canções densas, obscuras e amargas, como se a música do artista mineiro dialogasse com a noite, esbarrando vez ou outra na obra de artistas como Oneohtrix Point Never e, principalmente, Tim Hecker, influência confessa do músico. Continue reading

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Resenha: “Sketches From An Island 2”, Mark Barrott

Artista: Mark Barrott
Gênero: Ambient, Balearic Beat, Electronic
Acesse: http://sketchesfromanisland.com/

 

Mark Barrott passou grande parte da década de 1990 e começo dos anos 2000 explorando a música eletrônica de forma sempre atmosférica, levemente experimental, estímulo para grande parte da discografia produzida sob o título de Future Loop Foundation. Também responsável pelo selo International Feel — casa de produtores como CFCF e José Padilla —, no início da presente década o produtor de origem inglesa partiu em busca de novas sonoridades, encontrando na essência litorânea da música produzida em  Ibiza a base para a série Sketches from an Island.

Cantos de pássaros, sons extraídos de fenômenos naturais, sintetizadores, ruídos eletrônicos, guitarras sempre contidas e climáticas, além do uso descompromissado de temas psicodélicos. Dois anos após o lançamento do primeiro “capítulo” da série de obras, Barrott regressa ao mesmo ambiente ensolarado que surge impresso na capa de cada registro para apresentar ao público o inédito Sketches from an Island 2 (2016, Internacional Feel).

Movido pelo uso de temas lisérgico-tropicais, Barrott faz do presente álbum uma coleção de ideias marcadas pela completa delicadeza dos arranjos. Logo na abertura do disco, Brunch With Suki, composição que vai do reggae à música disco em um exercício de puro descompromisso, como a trilha sonora para um fim de tarde à beira mar. Batidas e colagens tímidas, precisas, um aquecimento para o som deliciosamente acolhedor que marca a canção seguinte Over At Dieter’s Place.

Longe de parecer confortado em uma preguiçosa zona de conforto, reciclando conceitos anteriormente explorados no primeiro registro da série, Barrot aproveita do álbum para buscar por novas sonoridades e temas eletrônicos. Quarta faixa do disco, Winter Sunset Sky talvez seja a melhor representação desse resultado. Ao mesmo tempo em que dialoga com toda a sequência de composições do disco, a música de quase seis minutos cria uma delicada passagem para o final dos anos 1980, efeito do enquadramento nostálgico dos sintetizadores. Continue reading

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Resenha: “BlackSUMMERS’night”, Maxwell

Artista: Maxwell
Gênero: R&B, Soul, Neo-Soul
Acesse: http://www.musze.com/

 

Em julho de 2009, depois de encerrar o longo período de hiato que teve início após o lançamento do álbum Now, em 2001, Maxwell deu vida a um novo e inusitado projeto. Intitulado BLACKsummers’night, o registro de nove composições seria apenas o primeiro capítulo de uma sequência de três obras complementares. Trabalhos apresentado ao público com o mesmo título — a diferença está na seleção de palavras específicas em caixa alta —, porém, mergulhados em temas e ambientações instrumentais completamente distintas.

Sete anos após o lançamento do bem-sucedido registro, obra que serviu para apresentar o trabalho de Maxwell a toda uma nova parcela do público, o cantor e compositor norte-americano está de volta com um novo disco de inéditas: BlackSUMMERS’night (2016, Columbia). Produzido em parceria com os velhos colaboradores Hod David e Stuart Matthewman, o álbum nasce como uma extensão pop e dançante de grande parte da discografia do artista nos anos 1990.

Da forma como as vozes flutuam livremente ao uso descomplicado das batidas e bases de cada canção, Maxwell e o time de produtores fazem do disco um precioso diálogo com o presente cenário do R&B norte-americano. Em um mundo pós-Channel Orange (2012), o cantor revela ao público uma obra que não apenas absorve conceitos típicos de Frank Ocean, como rivaliza com a temática sedutora de Miguel no álbum Wildheart (2015) e ainda incorpora elementos da mesma atmosfera “luxuosa” explorada por Justin Timberlake em The 20/20 Experience (2013).

Longe de apresentar ao público uma simples obra de reposicionamento, durante toda a construção do trabalho, Maxwell faz de BlackSUMMERS’night um registro de possibilidades, novas interpretações e pequenos traços de identidade. Um bom exemplo disso sobrevive na própria faixa de abertura do disco, All The Ways Love Can Feel. São pouco mais de cinco minutos em que o cantor desenvolve um jogo sutil de falsetes, batidas e pequenas variações vocais que tanto se aproximam das pistas como de um cenário marcado pelo romantismo intimista. Continue reading

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Resenha: “Ó”, Juliana Perdigão

Artista: Juliana Perdigão
Gênero: Nacional, MPB, Rock
Acesse: https://www.facebook.com/perdigaoju/

 

Juliana Perdigão passou os últimos cinco anos pulando de um trabalho para outro. Em meio ao processo de divulgação do primeiro registro em estúdio, Álbum Desconhecido, obra entregue ao público em 2011, a cantora e compositora mineira criou pequenas brechas criativas, colaborando com diferentes nomes da música brasileira, caso de Maurilio Nunes, em Choro Doce (2013), Matheus Brant no recente Assume Que Gosta (2016) e até na coletânea Mulheres de Péricles (2013), um disco/homenagem ao músico Péricles Cavalcanti que ainda contou com nomes como Céu e Mallu Magalhães.

Com a chegada de Ó (2016, YB), segundo álbum de estúdio de Perdigão e obra que conta com a produção de Romulo Fróes, a cantora revela ao público uma delicada extensão de toda a sequência de parcerias, experimentos e conceitos musicalmente explorados nos últimos anos. São 17 faixas em que a artista converte em música fragmentos de poemas cotidianos, apresenta versões para o trabalho de outros compositores e ainda finaliza uma série de canções inéditas.

Acompanhada de perto pelos integrantes da banda Os Kurva — coletivo formado por Chicão (piano e teclados), Moita (guitarra e baixo) João Antunes (baixo, guitarra e violão) e Pedro Gongom (bateria e percussão) —, Perdigão parece testar os próprios limites. O samba encontra o rock de forma sempre curiosa, ruídos controlados esbarram em melodias íntimas do pop, temas atmosféricos que se abrem para a precisa interferência vocal da artista, também responsável pela flauta transversal e clarinete que costura o disco.

Dentro de uma estrutura que se desprende do óbvio, a cantora parece seguir uma trilha distinta em relação ao trabalho de outras representantes da música nacional. A cada nova faixa, um exercício isolado, como se diferentes retalhos fossem agrupados no interior do registro. Se em instantes Perdigão mergulha em temas semi-esotéricos, caso de Mãe da Lua, música que parece feita para o Secos e Molhados, no minuto seguinte, a cantora inverte a ordem do próprio trabalho, revelando canções marcadas pelo cenário urbano, caso da bem-sucedida adaptação de Pierrô Lunático. Continue reading

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Resenha: “Vida Que Segue”, Não Ao Futebol Moderno

Artista: Não Ao Futebol Moderno
Gênero: Indie Rock, Alternative, Dream Pop
Acesse: https://umbadubarecords.bandcamp.com/

Foto: Tuany Areze

Dois anos após o lançamento do EP Onde Anda Chico Flores? (2014), obra que apresentou ao público o trabalho da Não Ao Futebol Moderno, pouco parece ter sobrevivido da essência triste que marca a sequência de seis canções produzidas pela banda gaúcha. Em Vida Que Segue (2016, Umbaduba), primeiro álbum de estúdio do coletivo de Porto Alegre, guitarras empoeiradas flutuam em meio a versos marcadas por relacionamentos tediosos, fracassos, personagens e conflitos típicos de jovens adultos.

Como indicado durante o lançamento de Cansado de Trampar, faixa escolhida para anunciar o novo disco, todos os elementos do trabalho parecem pensados de forma a emular um som parcialmente nostálgico. Se há dois anos o quarteto – formado por Felipe, Kílary, Pedro e Marco – apontava para clássicos do real emo – como a estreia do American Football e EndSerenading (1998), do Mineral –, hoje, a proposta é outra. Temas que resgatam o Jangle Pop/Pós-Punk dos anos 1980, porém, mantém firme o diálogo com o presente cenário, explorando a obra de Mac DeMarco, Real Estate e outros nomes fortes da cena norte-americana.

Um bom exemplo disso está em Janeiro. Sétima faixa do disco, a canção de guitarras e vozes arrastadas delicadamente parece confortar o ouvinte, transportado para o mesmo universo de obras recentes como Salad Days e Atlas – ambos lançados em 2014. “Olhar pra cama e ver você me faz enlouquecer / Viajar pra dentro de você / Para te conhecer melhor”, sussurra a letra enquanto a base “litorânea” da composição se espalha sem pressa, proposta também incorporada em Laços de Família.

Claro que a “mudança de direção” por parte da banda em nenhum momento interfere na construção de pequenos atos criativos que apontam para o registro apresentado há dois anos. Basta se concentrar na quinta faixa do disco, a dolorosa Saia. Enquanto os versos sufocam pela temática existencialista – “Eu sei que o que eu vou fazer vocês já fizeram antes de eu nascer / Eu só quero tentar” –, musicalmente a canção parece romper com a trilha psicodélica que inaugura o álbum, apontando de maneira explícita para o rock alternativo do final dos anos 1990. Continue reading

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Resenha: “Nothing’s Real”, Shura

Artista: Shura
Gênero: Electronic, Synthpop, Alternative
Acesse: http://weareshura.com/

 

Do lançamento de Touch, em meados de 2014, até alcançar o recém-lançado Nothing’s Real (2016, Polydor), a cantora e compositora britânica Shura passou por um lento processo de refinamento artístico. Inicialmente ancorada em referências típicas do Synthpop/R&B produzido no final da década de 1980, a artista original da cidade de Manchester decidiu aos poucos ampliar a próxima sonoridade, colecionando temas e referências eletrônicas que passam por diferentes décadas e agrupamentos musicais.

Inspirada de forma confessa em nomes antigos (Mariah Carey, Prince, Madonna) e recentes (Haim, Blood Orange) da música pop, a cantora faz do primeiro álbum de estúdio uma delicada colcha de retalhos. São composições que atravessam a década de 1980 (What’s It Gonna Be), esbarram na música negra dos anos 1990 (2Shy) e alcançam os experimentos da presente década (White Light) de forma sempre despojada, leve e autoral.

Sutilmente dividido em duas metades, Nothing’s Real sustenta no primeiro bloco de composições o lado mais dançante e “pop” do trabalho. Um bom exemplo disso está na própria faixa-título do disco. São pouco mais de quatro minutos em que batidas e sintetizadores que emulam violinos abraçam a Disco Music de forma reformulada, como um convite para dançar. Fragmentos instrumentais que revelam a completa nostalgia da cantora.

O mesmo teor radiofônico acaba se revelando em músicas como What’s It Gonna Be e Indecision. Enquanto a primeira incorpora parte das melodias exploradas pelo Haim em Days Are Gone, de 2013, na segunda canção, Shura mergulha de cabeça no mesmo synthpop pegajoso de artistas como CHVRCHES e La Roux. Sobra ainda a melancólica What Happened To Us?, composição que flutua entre o passado e o presente de forma dolorosa e curiosamente dançante. Continue reading

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Resenha: “Cheetah”, Aphex Twin

Artista: Aphex Twin
Gênero: Electronic, IDM, Techno
Acesse: https://www.facebook.com/aphextwinafx/

 

Desde a década de 1990 que Richard D. James não vivia uma fase tão produtiva. Em um intervalo de apenas dois anos, o produtor irlandês não apenas deu fim ao longo período de hiato que silenciou o Aphex Twin por mais de uma década — lançando o excelente Syro em 2014 —, como deu vida a dois ótimos EPs — Computer Controlled Acoustic Instruments pt2 e Orphaned Deejay Selek 2006–08, ambos apresentados ao público em 2015 — e ainda despejou uma série de composições inéditas no soundcloud.

Em Cheetah EP (2016, Warp), mais recente trabalho de inéditas como Aphex Twin, James continua a resgatar a própria essência musical. Do título inspirado em Cheetah Marketing — companhia inglesa especializada em produzir softwares de música eletrônica nos anos 1980 —, passando pela atmosfera levemente dançante que orienta grande parte das canções, cada uma das sete músicas do registro estabelecem uma espécie de ponte para os primeiros anos do produtor.

Como em grande parte dos registros produzidos pelo artista irlandês há mais de duas décadas, Cheetah se fragmenta em pequenos blocos de canções com tempos e ambientações diferentes. Um bom exemplo disso está na própria faixa-título do registro. São quatro variações de um mesmo conceito instrumental — CHEETAHT2 [Ld spectrum], CHEETAHT7b, CHEETA1b ms800 e CHEETA2 ms800 —, como se James explorasse todas as possibilidades da própria obra.

Em CIRKLON3 [Колхозная mix] e CIRKLON 1, a representação do lado dançante do registro. São batidas quebradas, ruídos minimalistas, texturas, sintetizadores serenos e toda uma coleção de pequenos fragmentos eletrônicos que se encaixam de forma sutil no interior de cada faixa. A julgar pelo constante ziguezaguear das canções, uma clara continuação de do material produzido há pouco mais de dois anos em faixas como minipops 67 (source field mix), do álbum Syro. Continue reading

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Resenha: “O Mesmo Mar que Nega a Terra Cede à sua Calma”, Bruna Mendez

Artista: Bruna Mendez
Gênero: Nacional, MPB, Alternative
Acesse: https://soundcloud.com/brunamendez

Foto: Vitor Garcia

Bruna Mendez parece seguir o caminho oposto de grande parte dos artistas originais da cidade de Goiânia. Longe da psicodelia, cores e parcial estado de leveza que abastece a obra de conterrâneos como Carne Doce e Boogarins, sobrevive na voz arrastada, versos entristecidos e melodias acinzentadas a base de cada canção assinada em parceria entre a cantora e Michelly Jardim. Retalhos melancólicos que se agrupam sem pressa dentro do primeiro álbum de estúdio da musicista, O Mesmo Mar que Nega a Terra Cede à sua Calma (2016, Falante).

Observado de forma atenta, Mendez parece se relacionar muito mais com a presente safra da música mineira do que com a essência colorida do som produzida dentro da própria cidade de origem. Difícil não lembrar do trabalho assumido pela cantora Jennifer Souza e os parceiros da Transmissor – principalmente no álbum De Lá Não Ando Só, de 2014. Mesmo a voz de Mendez, por vezes íntima do estilo de Elis Regina, soa como uma delicada interpretação da obra de Milton Nascimento pela eterna Pimentinha.

Passo além em relação ao material apresentado em 2014 no delicado Pra Ela, registro de seis faixas e primeiro trabalho de estúdio de Mendez, o novo álbum se projeta como uma verdadeira coletânea de confissões e temas sorumbáticos. Uma seleção curta, 11 canções inéditas, quase 30 minutos de duração. Músicas que se espalham de forma a revelar as desilusões de um passado ainda recente, doloroso, como se a cantora sufocasse a cada nota, a cada fragmento poético que costura o disco.

São reflexões sobre a vida a dois (“Meu bem / sei que está difícil / mas se a gente estiver grudadinho / tudo fica bem”), declarações de amor (“Vejo você dançar / Tonteio / É sua luz / Claro/  Meu bem, só tem você aqui”), atos de plena submissão sentimental (“Tudo é seu / Basta querer tocar”) e até pequenos respiros aliviados (“Neguinha, por sofrer eu não morro mais / Daquilo que me pesa, eu não busco mais saber”). Da abertura do disco, em Calor, Sol e Sal, até alcançar a derradeira Meu Bem, um doloroso e acolhedor exercício de exposição sentimental por parte de Mendez. Continue reading

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Resenha: “IV”, BADBADNOTGOOD

Artista: BADBADNOTGOOD
Gênero: Jazz, Experimental, Alternative
Acesse: http://badbadnotgood.com/

 

O leve amadorismo e completo descompromisso que marca as canções de BBNG (2011), álbum de estreia do coletivo canadense BADBADNOTGOOD, está longe de ser encontrado no quarto e mais recente trabalho do grupo, IV (2016, Innovative Leisure). Produto do natural amadurecimento da banda de Toronto – hoje composta por Matthew A. Tavares, Chester Hansen, Alexander Sowinski e Leland Whitty –, a obra de temas intimistas e arranjos marcados pela execução detalhista dos instrumentos concentra no renovado time de colaboradores o grande acerto de cada composição.

Trabalho em que o grupo mais se distancia da habitual relação com o Hip-Hop – vide o antecessor Sour Soul (2015), obra lançada em parceria com o rapper Ghostface Killah –, o novo álbum confirma a busca do quarteto por um som que dialoga com o passado. Temas e referências instrumentais que vão dos experimentos com o Funk/Soul na década de 1970 – base da parceria com Kaytranada, em Lavender –, até composições que resgatam o clima do jazz clássicos dos 1950, abrindo espaço para uma série de interferências vocais.

Em Time Moves Slow, terceira faixa do disco, uma perfeita representação de como a voz ganha destaque no interior da obra. Enquanto Samuel T. Herring, vocalista do Future Islands, detalha uma sequência de versos marcados pela saudade – “O tempo passa lentamente quando você está sozinho / o tempo passa lentamente quando você está fora de si” –, musicalmente, o quarteto brinca com os arranjos de forma essencialmente melancólica. Uma trilha dolorosa que se estende até a faixa de encerramento do disco, Cashmere.

Composta em parceria com a cantora canadense Charlotte Day Wilson, In Your Eyes, décima faixa do trabalho, é outra composição que encanta pelo uso atento dos versos e vozes. “Eu amo o jeito que você se move / É tão tímido”, canta Wilson enquanto a banda aponta de forma decidida em direção ao passado. Arranjos empoeirados, nostálgicos, como se alguma dolorosa canção dos anos 1960 fosse delicadamente resgatada e adaptada para o álbum. Continue reading

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Resenha: “Indigo”, River Tiber

Artista: River Tiber
Gênero: Electronic, R&B, Alternative
Acesse: http://rivertiber.com/

 

Vozes abafadas, versos marcados pelo sofrimento e batidas lentas, por vezes arrastadas, sufocantes. Seja em carreira solo ou trabalhando em parceria com diferentes nomes da cena alternativa – como Kaytranada e BADBADNOTGOOD –, Tommy Paxton-Beesley passou os últimos cinco anos dando voltas em torno do mesmo cercado autoral. Com a chegada de Indigo (2016, Independente), primeiro grande álbum como River Tiber, uma delicada extensão de parte expressiva das canções, temas e sentimentos previamente incorporados pelo artista.

Escolhida para inaugurar o disco, Genesis indica a atmosfera densa que se espalha durante toda a formação da obra. Uma base lenta, melancólica, cortinas que se abrem para a delicada inclusão de vozes quase instrumentais. Trata-se de uma ponte para a dolorosa sequência de vozes ecoadas, batidas e sintetizadores de No Talk e Acid Test, faixas que dialogam de maneira sutil com o mesmo material produzido por artistas como James Blake e Bon Iver.

Em Midnight, quarta faixa do disco, a exposição do lado mais experimental de Indigo. Sem pressa, Paxton-Beesley brinca com as texturas eletrônicas, colidindo vozes e fragmentos minimalistas de forma sempre acolhedora. Difícil não pensar em Radiohead (pós-Kid A) e outros produtores britânicos, principalmente Four Tet, percepção que se reforça com a chegada de Motives, sexta canção do álbum e outro ambiente aberto às colagens eletrônicas do artista canadense.

Antes, porém, a primeira colaboração do disco: West. Já conhecida do público fiel do produtor, a composição apresentada há poucos meses nasce do encontro sorumbático entre Paxton-Beesley e o cantor Daniel Caesar. Pouco mais de dois minutos, tempo suficiente para que a voz do convidado flutue em meia pianos sensíveis e bases etéreas. Um completo oposto do material que chega logo em sequência com Clarity, enérgica parceria entre River Tiber e a cantora Tess Parks. Continue reading

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