Tag Archives: Resenhas

Disco: “Euforia”, Pélico

Pélico
Nacional/Indie/Alternative
http://www.pelico.com.br/

Daryan Dornelles

Pélico respira aliviado. Quatro anos depois de juntar os cacos do próprio coração e colecionar versos entristecidos no segundo álbum de estúdio, Que Isso Fique Entre Nós (2011), o cantor e compositor paulistano finalmente parece ter encontrado um espaço (ou alguém) para sorrir. Caminho seguro para a continua exposição dos próprios sentimentos, Euforia (2015, Independente) revela um compositor que mesmo íntimo das experiências mais dolorosas, típicas de uma separação recente, acerta o passo, muda de direção e aposta no recomeço.

De ritmo eufórico, como o próprio título indica, o novo álbum lentamente resgata a mesma combinação melódica incorporada pelo músico no primeiro trabalho de inéditas, O último dia de um homem sem juízo (2008). Uma coleção de temas apaixonados (Sobrenatural), declarações de amor (O meu amor mora no rio) e leve carga dramática (Sozinhar-me). Referências e sonoridades temporariamente extintas por conta do clima denso e ambientação cinza do disco de 2011.

Observado de forma atenta, este talvez seja o trabalho mais comercial, pop, já lançado por Pélico. Da abertura descomplicada com Sobrenatural, uma típica “música tema de novela”, passando por outras como Olha só, Overdose ou mesmo a própria faixa-título, raros são os instantes de completo isolamento do músico, acessível a cada novo acorde ou vocal apaixonado do disco. Como escapar da guitarra “sertaneja” que corta O meu amor mora no rio ou o jogo de palavras que cresce em Sozinhar-me, canção inspirada no livro Terra Sonâmbula, do escritor moçambicano Mia Couto e um diálogo breve com a música africana.

Mesmo nos momentos mais “reclusos” da obra, caso de Vaidoso e Meu Amigo Zé, há sempre um tempero lírico ou instrumental que pesca o ouvinte com naturalidade, conduzido de forma dinâmica até o último verso do registro. A seriedade de Pélico ainda é a mesma de Que Isso Fique Entre Nós, a diferença está na forma como o cantor assume uma postura ainda mais dinâmica, íntima dos mais variados públicos. Continue reading

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Disco: “O∆”, London O’Connor

London O’Connor
Hip-Hop/Psychedelic/Alternative
https://www.facebook.com/LondonOConnor

A música de London O’Connor é torta, estranha e, consequentemente, hipnótica. Personagem curioso da nova safra de representantes do Hip-Hop nova-iorquino, o artista de 24 anos encontra no primeiro álbum em carreira solo uma obra entregue ao experimento. Um passeio que começa pela mente (e versos) perturbados do compositor, segue de forma segura pelo Rap dos anos 1990 e só estaciona no final dos anos 1960, flertando com a mesma sonoridade de artista como The Velvet Undergound e outros gigantes que bagunçaram a música produzida no leste dos Estados Unidos.

Apresentado em pequenas “doses” no perfil de O’Connor no Soundcloud, O∆ (2015, Independente) é uma fuga de limites conceituais e bases previsíveis. Em um misto de canto, rima e lamentações, a formação de um registro de essência particular, isolado, como se diferentes tormentos sentimentais e existencialistas do jovem artista fossem essencialmente expostos e dissecados em cada instante sombrio que preenche o trabalho.

Interessante perceber que mesmo dentro de um cercado de versos e experiências particulares, O∆ está longe de parecer uma obra reclusa, pouco convincente. Em uma estrutura melódica, O’Connor revela ao público uma coleção de 10 faixas musicalmente atrativas, talvez não comerciais, porém, dificilmente ignoradas. Logo de cara, a dobradinha formada por OATMEAL e NATURAL, músicas que brincam com as mesmas melodias de vozes de grupos de músicas pop nos anos 1960, como das batidas minimalistas de Fever Ray e outros nomes recentes da música eletrônica.

Mesmo que o “pop” não seja a palavra certa para caracterizar o trabalho do rapper/cantor, escapar da armadilha de harmonias etéreas e versos pueris ressaltados em Nobody Hangs Out Anymore ou GUTS é uma tarefa quase impossível. São mais de cinco décadas de referências disformes, opositoras, mas que dialogam de forma segura até o encerramento da obra, sempre amarradas pela lírica sensível, pós-adolescente e particular de O’Connor. Continue reading

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Disco: “Sympathy”, GABI

GABI
Experimental/Chamber Pop/Ambient
https://www.facebook.com/officialGABI
http://www.gabi-music.com/

A voz parece ser o principal instrumento de Gabrielle Herbst. Mesmo com formação erudita em piano e clarinete, são os atentos coros de vozes, sobreposições delicadas e pequenas manipulações orquestrais que garantem vida, movimento e beleza ao ambiente criado para o primeiro disco solo da compositora nova-iorquina, Sympathy (2015, Software).

Filha do musicólogo Edward Herbst, interessada em ópera, dança balinesa e  profunda conhecedora da música de câmara, Herbst, aqui apresentada pelo nome de GABI, parece brincar com a própria formação musical – familiar ou acadêmia. Em uma montagem precisa, essencialmente detalhista, cada composição assume um conceito específico, revelando desde elementos da música sacra (Hymn), como referências extraídas do trabalho de Kate Bush (Falling), Björk (Da Void) e demais representantes do Art Pop .

Mesmo dominado pelas vozes e sentimentos entristecidos da musicista, Sympathy está longe de parecer uma obra hermética, fruto do total isolamento de Herbst. Com produção de Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never) e Paul Corley (Tim Hecker, Ben Frost), o álbum lentamente se entrega ao domínio e parcial interferência do seleto time de colaboradores formado por Matthew O’Koren (percussão), Rick Quantz (viola), Josh Henderson (violino) e Aaron Roche (guitarras, trombone).

Perceba como os sintetizadores de Lopatin crescem ao fundo da obra. Um fino tecido sonoro, quase imperceptível, porém, essencial para a composição do ambiente sombrio que define Sympathy. Aaron Roche é outro que interfere ativamente na formação do disco. Para ocupar as pequenas lacunas de voz deixadas pela cantora, o guitarrista espalha imensos blocos de ruídos, pilares para o fortalecimento de faixas extensas como Home. Continue reading

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Disco: “Get To Heaven”, Everything Everything

Everything Everything
Art Rock/Electronic/Alternative
http://www.everything-everything.co.uk/

Alguns trabalhos começam pela primeira faixa, outros, como Get To Heaven (2015, Sony RCA), pela capa. “Queríamos uma imagem impossível de ignorar, mesmo que ela fosse tão feia quanto o inferno“, disse o vocalista do Everything Everything, Jonathan Higgs, em entrevista ao site Creative Review. Produzida pelo artista gráfico neozelandês Andrew Archer, a colorida ilustração – bem como toda a identidade visual do álbum – cumpre com naturalidade sua função, atraindo de forma quase hipnótica a atenção do espectador desapercebido.

Muito além do atento jogo de cores fortes, psicodélicas, a imagem de um homem sendo atacado funciona como síntese do invasivo domínio político, religioso e até sentimental que define grande parte dos versos na presente obra. Mesmo que dialogue com essência “pop” dos antecessores Man Alive (2010) e Arc (2012), ao alcançar o terceiro álbum de inéditas, a amadurecimento explícito do quarteto de Manchester revela ao público todo um novo universo – sonoro e conceitual – a ser explorado.

Dramática, por vezes exagerada, a voz de Higgs serve de estímulo para o ambiente sombrio, caótico e essencialmente pessimista que se espalha ao longo das canções. Em um misto de passado e presente, faixas como Regret (“Alguma vez você viu sua vida escorrer pelas mãos?”) e Distant Past (“Leve-me para um passado distante / Eu quero voltar”) ironizam a suposta “evolução” do ser humano, discutem o crescente atuação de extremistas religiosos em toda a Europa e ainda apontam o completo isolamento dos indivíduos, cada vez mais frios, mecânicos, como robôs.

Tamanha seriedade das canções em nenhum momento distorce o caráter comercial do disco. Com produção assinada por Stuart Price – produtor que já trabalhou com Kylie Minogue, The Killers e Scissor Sisters -, Get To Heaven é uma obra marcada pelo rico acervo de faixas dançantes e acessíveis, como uma natural extensão da linguagem melódica alcançada no álbum de 2012. Nada de pausas ou mesmo espaço para o fortalecimento de composições “menores”. O esforço do quarteto prevalece mesmo na segunda metade do trabalho, postura evidente em músicas como Blast Doors e Zero Pharaoh.   Continue reading

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Disco: “Coming Home”, Leon Bridges

Leon Bridges
Soul/R&B/Singer-Songwriter
http://www.leonbridges.com/

Leon Bridges é um nostálgico. Nascido em julho de 1989 na cidade de Atlanta, Georgia, o cantor e compositor norte-americano parece viver em um mundo em preto e branco, vozes captadas em baixa fidelidade e temas que instantaneamente remetem ao som projetado na década de 1960. Orientado por Otis Redding, Al Green, Sam Cooke e outros gigantes do Soul e R&B do mesmo período, o novato (finalmente) abre as portas do primeiro disco solo: Coming Home (2015, Columbia).

Catálogo empoeirado de canções românticas, entristecidas e até mesmo dançantes, o registro segue um caminho isolado em relação a diferentes conterrâneos da música negra recente. Oposto ao trabalho de Janelle Monáe, Adele, Raphael Saadiq e tantos outros artistas interessados em brincar com referências lançadas há mais de quatro décadas, ao mergulhar no primeiro álbum solo de Bridges, a proposta assumida pelo cantor é clara e imutável. Trata-se de uma visita breve ao passado, como uma tentativa de replicar sons, temas e conceitos sem necessariamente investir na transformação.

Coeso, por vezes demasiado contido, Coming Home sustenta na forte aproximação entre as faixas outro importante acerto. Diferente de tantos outros registros que tentam amarrar um universo imenso de referências e movimentos musicais em um mesmo período de tempo, da abertura, com a faixa-título, ao fechamento em River, Leon Bridges em nenhum momento ultrapassa o cercado temático que se estende até o meio dos anos 1960. Nada de Dance Music, Funk e outras variações que invadiram a década seguinte. O controle é uma constante.

Como efeito dessa escolha, posicionado em um curto espaço de tempo, Bridges parece extrair o máximo de cada variação da música (não apenas negra) do período. Enquanto Smooth Sailin’ reverbera diversos elementos típicos da Surf-Music, composições como Better Man e Shine suspiram romantismo e arranjos nitidamente apaixonados, como canções de rádio há muito esquecidas. Como não se deliciar com os coros de vozes em Brown Skin Girl e Lisa Sawyer, faixas que espalham lentamente o pano de fundo nostálgico que cobre toda a obra. Continue reading

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Disco: “How Big, How Blue, How Beautiful”, Florence and The Machine

Florence and The Machine
Indie Pop/Alternative/British
http://florenceandthemachine.net/

As guitarras “falam” mais alto em How Big, How Blue, How Beautiful (2015, Island). Terceiro registro de inéditas do Florence and The Machine, o novo álbum pode até seguir a trilha dos antecessores Lungs (2009) e Cerimonials (2011), entretanto, indica uma direção totalmente nova dentro da curta obra da artista britânica. Em um diálogo preciso com a música pop e o rock dos anos 1980, Florence Welch se despe de possíveis conceitos e temas complexos de forma a revelar um trabalho marcado pela coerência, rico acervo de composições melódicas e sentimentos nunca antes tão detalhadamente expostos.

Fuga dos atos cênicos e extensa duração do operístico álbum de 2011, com o novo disco, Welch e os parceiros de produção, Markus Dravs e Paul Epworth, trazem de volta o mesmo ritmo “acelerado” do inaugural Lungs. Enquanto Dravs – produtor responsável pelos últimos discos do Arcade Fire -, garante dinamismo ao trabalho, é responsabilidade de Epworth – com quem Florence vem colaborando desde o primeiro registro -, além de nomes como James Ford (Simian Mobile Disco), garantir maior polimento e delicada reprodução ao acervo de músicas comerciais que preenchem toda a obra.

Logo de cara, uma sequência de tirar o fôlego do ouvinte. Dosando entre a sonoridade grandiosa de Shake It Out e a urgência de Kiss With a Fist, a trinca composta por Ship To Wreck, What Kind Of Man e a própria faixa-título não apenas captura a atenção do ouvinte, como ainda serve de estímulo para a série de músicas que sustentam o eixo final do trabalho. Difícil não perceber a interferência de Dravs, aproximando o trabalho de Welch do mesmo universo de referências (nostálgicas) exaltadas pelo Arcade Fire desde o álbum The Suburbs, de 2010. A própria utilização de guitarras sombrias e arranjos orquestrais parece extraída da obra do coletivo canadense, referência presente em cada movimento de How Big, How Blue, How Beautiful.

Ao mesmo tempo em que abraça um catálogo de novas tendências musicais, curioso perceber como elementos reforçados desde o primeiro trabalho da cantora são enquadrados em uma estrutura jovial. Dos experimentos e conceitos “florestais” de Kate Bush, pouco parece ter sobrevivido; mesmo Siouxsie Sioux, confessa influência de Welch parece explorada de forma distinta, longe do som empoeirado que ecoa de forma explícita no disco anterior. PJ Harvey, Patti Smith e até mesmo Régine Chassagne (Arcade Fire) ecoam com naturalidade com o passar do álbum. Nada que interfira de fato na essência e, cada vez mais presente, sonoridade autoral da britânica. Continue reading

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Disco: “Sprinter”, Torres

Torres
Indie/Alternative/Singer-Songwriter
http://torrestorrestorres.com/

Dois anos após o lançamento do primeiro álbum de estúdio, a melancolia continua a orientar a voz angustiada da norte-americana Mackenzie Scott. Em Sprinter (2015, Partisan), segundo e mais recente trabalho em estúdio da cantora de Nashville, Tennessee, temas como separação, abandono e isolamento ainda servem de incentivo para cada um dos versos assinados pela artista, a diferença? Longe de sufocar de forma perturbada pelo próprio desespero, Torres cresce, explode, transformando o registro em uma obra essencialmente dominada pela raiva.

Como explícito logo na capa do álbum – um retrato da cantora divido em duas partes -, Sprinter, diferente do conceito homogêneo retratado no álbum que o antecede, é uma obra de metades bem definidas. Na primeira delas, eixo que se estende da inaugural e intensa Strange Hellos até a faixa-titulo, uma clara extensão do último disco da musicista. Canções que mesmo aceleradas, por vezes cruas, mantém firme a relação com o Alt. Country e o rock alternativo explorado na década de 1990, principalmente o trabalho de veteranas como PJ Harvey (New Skin) e Cat Power (Son, You Are No Island).

Retrato explícito da alma atormentada de Scott, a porção inicial do disco funciona como uma espécie de grito de liberdade intencional. Mesmo que os versos sirvam como o principal indicativo para essa interpretação – “But if you do not know the darkness / Then you’re the one I fear the most” -, tanto a voz firme como o uso preciso dos instrumentos reforçam a explícita fuga sentimental de Torres, ainda corrompida pela saudade e confessa tristeza, porém, em busca de um novo abrigo amoroso, tema que ainda serve de ponta para o ato seguinte do álbum.

Canção “símbolo” da segunda metade de Sprinter, Cowboy Guilt confirma o natural interesse de Scott para a sequência de faixas que definem o eixo final da obra: o experimento. Ruídos incontidos de guitarras, programações eletrônicas, arranjos ambientais e bases extensas. Ainda que seja possível perceber (mais uma vez) a essência de PJ Harvey e outras veteranas do rock alternativo, pela primeira vez Torres sustenta uma sequência de músicas conduzidas em uma estrutura própria, autoral e provocativa. Continue reading

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Disco: “Peace Is the Mission”, Major Lazer

Major Lazer
Electronic/Dancehall/Pop
http://majorlazer.com/

Há tempos Diplo não apresentava um trabalho tão coeso e versátil quanto o recém-lançado Peace Is the Mission (2015, Mad Decent). Passado o turbilhão instável que bagunçou as canções no antecessor Free the Universe (2012) – registro carregado de boas composições, porém, sufocado pelo excesso de faixas descartáveis e repetitivas -, o produtor se livra dos exageros , diminui o número de parceiros e encontra no pop uma ferramenta funcional, base para grande parte das canções no presente álbum.

Próximo e ao mesmo tempo distante do material apresentado em 2009 com Guns Don’t Kill People… Lazers Do, primeiro trabalho aos comandos do Major Lazer, Diplo ainda mantém o diálogo com diversos elementos do DanceHall/Reggae, porém, os rumos agora são outros. Confortado em temas e estruturas melódicas, o novo disco reflete ainda mais a face “comercial” do produtor, capaz de flertar com referências extraídas da EDM sem necessariamente fazer disso a base para um som penoso, íntimo dos exageros e tropeços de ouros artista próximos – como Skrillex e Calvin Harris.

Terceiro e mais curto registro do “coletivo” até aqui – são apenas 32 minutos de duração divididos em nove canções -, Peace Is the Mission faz de cada canção um hit imediato, radiofônico e acessível aos mais variados públicos. Cercado por novatos da cena alternativa – caso da dupla Wild Belle, Elliphant e MØ – e parceiros de longa data na produção, Diplo transporta para dentro do trabalho a mesma energia explorada nas apresentações ao vivo do projeto. Uma atuação rápida e carregada de faixas grudentas na medida certa.

Ainda na primeira metade do disco, uma metralhadora de versos fáceis e melodias essencialmente dançantes. Too Original, Be Together e Powerfull, músicas que repetem a mesma estrutura acessível do single Lean On – canção produzida em parceria com DJ Snake -, prendendo o ouvinte a atenção do ouvinte até o último segundo. Difícil se desvencilhar de elementos pontuais como a voz límpida de Jovi Rockwell (em Too Original) ou as referências tropicais que crescem as rimas/canto do convidado Chronixx em Blaze Up The Fire, faixa que mais se aproxima da proposta do Major Lazer com o primeiro disco. Continue reading

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Disco: “Dark Energy”, Jlin

Jlin
Electronic/Experimental/Footwork
https://soundcloud.com/jlinnarlei
http://www.planet.mu/artists/jlin  

Não é necessário ir além da inaugural Black Ballett para entender o trabalho de Jerilynn Patton em Dark Energy (2015, Planet Mu). Vocais picotados, encaixado de forma flexível e instrumental. Sobreposições e batidas rápidas – entre 150 e 160 BPM -, garantindo sustento ao uso de sintetizadores minimalistas, além da contida utilização das vozes e samples – em geral, fragmentos extraídos de jogos de video game e até mesmo seriados de TV. Referências talvez esperadas em um típico registro de Footwork/Juke, porém, exploradas em um estágio de plena euforia e completa insanidade.

Ancorado em um redemoinho de colagens, batidas e vozes precisas, Patton, aqui apresentado sob o título de Jlin, prende o ouvinte logo nos primeiros instantes da obra, impedindo que ele escape antes da derradeira (e robótica) Abnormal Restriction. São 11 composições que ultrapassam com naturalidade os limites do “dançante”, abraçando o experimento em sentido de explícita provocação, como se o artista fosse capaz de mudar a direção a cada nova batida ou ruído sintético do álbum.

Original da cidade de Gary, Indiana, Patton parece longe de se apoiar no principal fenômeno musical da cidade – o grupo The Jackson 5 -, buscando apoio no município vizinho, Chicago. Berço das diferentes vertentes que tanto inspiram e movimentam o trabalho do produtor, a cidade (antes) dominada pela montadoras de automóveis pode não interferir diretamente nas composições do produtor, entretanto, serviu de morada para algumas das principais influências de Jlin, caso específico de DJ Rashad, entidade viva em cada ato de Dark Energy.

Talvez a principal diferença em relação ao trabalho de Rashad – morto em 2014 – está na ambientação temporal e pequenos conceitos explorados por cada produtor. Enquanto o veterano transformou a sequência de obras produzidas entre 1998 e 2013 em uma representação da própria decadência na cidade de Chicago, Patton parece olhar para frente, expandindo um conceito mecânico/futurístico que preenche grande parte das composições. Caso da urgente Black Diamond ou mesmo a já conhecida Erotic Heat, faixa originalmente lançada na coletânea Bangs & Works Vol. 2 (2011). Continue reading

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Disco: “Estratosférica”, Gal Costa

Gal Costa
MPB/Female Vocalists/Samba
http://www.galcosta.com.br/

A necessidade de ruptura e parcial transformação está longe de parecer uma novidade dentro da (extensa) obra de Gal Costa. Do habitual cruzamento de ritmos – Bossa Nova, Jazz, Samba, Rock, – ao constante diálogo com músicos, compositores e produtores vindos de diferentes gerações – Luiz Melodia, Djavan, Cazuza, Domenico Lancellotti -, de tempos em tempos, a cantora baiana entrega ao público um registro que parece não apenas indicar uma nova direção, mudando o curso da própria discografia, como ainda serve de síntese temática, revelando ao grande público o nascimento de novas cenas e pequenos coletivos musicais.

É o caso do recente Estratosférica (2015, Sony Music). Dando continuidade ao trabalho iniciado no álbum Hoje (2005) – obra marcada pela interferência de novos compositores como Nuno Ramos, Junio Barreto e Moreno Veloso -, dentro do trigésimo sexto registro em estúdio da cantora, é possível perceber o crescimento de uma obra que clama por novas referências, sonoridades e tendências, porém, mantém firme a experiência (e sobriedade) acumulada por Gal mais 50 anos de carreira.

Para aqueles que se assustaram com a curva brusca iniciada no experimental Recanto (2011) – obra de temas eletrônicos e versos assinados pelo parceiro de longa data, Caetano Veloso -, um respiro “aliviado”. Ainda que a essência do trabalho anterior seja preservada em instantes específicos do álbum – como nos arranjos de Você Me Deu e Por Baixo -, da abertura ao fechamento, a proposta do registro é completamente outra, muito mais intensa. Antes reclusa, confortada no “recanto” sintético das batidas e arranjos eletrônicos, Gal agora aparece grandiosa, para além dos limites da estratosfera, uma leoa como o cabelo volumoso parece indicar logo na capa do álbum.

Diálogo aberto com pequenos gigantes da atual geração – entre eles, Marcelo Camelo, Mallu Magalhães e José Paes Lira -, o registro produzido Alexandre Kassin e Moreno Veloso é um passeio pela essência versátil da cantora. Enquanto a inaugural Sem Medo Nem Esperança aponta para a boa fase no começo dos anos 1970, marca explícita na crueza das guitarras e o “solo de voz” típico do clássico Fa-Tal – Gal a Todo Vapor (1971), em minutos, o uso de temas eletrônicos (Muita Sorte) e até melodias mais “pop” (Quando Você Olha Pra Ela) confortam a artista no cenário plastificado dos anos 2000. Continue reading

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