Tag Archives: Resenhas

R&B 90′s: 12 Discos Essenciais

Por: Cleber Facchi

Em um cenário dominado por gigantes do Rock Alternativo – Nirvana, Pearl Jam – e pequenos duelos que abasteceram o Britpop – Oasis, Blur -, quem realmente conquistou o público na década de 1990 foram os entusiastas do R&B. Abastecidos pelas referências criadas por nomes como Marvin Gaye, Stevie Wonder, Prince e outros artistas influentes das décadas de 1970/1980, um time de novatos tomou o topo das principais paradas de sucesso, apresentando alguns dos principais exemplares da música negra do período.

Entre artistas cultuados como D’Angelo, Lauryn Hill e nomes comerciais como Mariah Carey, Aaliyah e TLC, voltamos duas décadas no tempo para resgatar 12 obras essenciais do R&B nos anos 90. Trabalhos que se entregam ao Pop, como The Writing’s on the Wall (1999), do Destiny’s Child, ou mesmo obras como Baduizm (1997), de Erykah Badu, capazes de referenciar o trabalho de veteranos e ainda assim manter o toque atual. Uma dúzia de obras marcadas pela sensualidade, versos confessionais e batidas que colam nos ouvidos em segundos.  Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Hyperdub 10.2″, Vários Artistas

Vários Artistas
Electronic/R&B/Experimental
http://www.hyperdub.net/

Por: Cleber Facchi

Durante grande parte dos anos 2000, a maioria dos trabalhos lançados pela Hyperdub Records partiram de uma mesma base musical: o dubstep. Sob o comando de Steve Goodman (Kode9), o selo britânico entregou ao público desde clássicos como Untrue (2007), do Burial, até singles e EPs assinados por nomes de peso da época, caso de Zomby, The Bug e Mark Pritchard. Não por acaso Hyperdub 10.1 (2014), coletânea comemorativa de dez anos do selo lançada há poucas semanas, trouxe um conjunto de faixas alimentadas pelo gênero.

Em um sentido oposto aos primeiros anos do selo e centrado no recente casting da gravadora, Hyperdub 10.2 (2014) apresenta ao público o lado mais “estranho” e, ainda assim, comercial do coletivo. Com um pé no R&B e outro nas ambientações eletrônicas que circulam pelo ainda quente novo acervo do selo, nomes como Dean Blunt, Inga Copeland, Jessy Lanza e Cooly G dividem espaço com veteranos como Burial e Kode9 em meio a faixas marcadas em essência pela melancolia.

Livre da euforia, batidas instáveis e toda a atmosfera construída da primeira (e extensa) parte da coletânea, 10.2 carrega na sobreposição dos temas uma atmosfera envolvente. Mesmo os parceiros Dean Blunt e Inga Copeland, tradicionalmente marcados pela construção de faixas sujas e complexas, usam da inaugural Signal 2012 de forma a confortar o ouvinte. Dentro desse propósito, vocalizações lentas e arranjos típicos do Soul/R&B dos anos 1990, servem de base para o surgimento de faixas inéditas – como Obsessed, de Cooly G -, ou mesmo o resgate de criações já conhecidas – caso de 5785021, da cantora Jessy Lanza.

Tal qual a coletânea lançada em maio, o presente compilado se divide em dois blocos de composições quase aproximadas. Para a primeira metade do trabalho, músicas como Shell Of Light e Solid tentam amarrar as pontas com a seleção de 10.1, emulando referências do 2-Step, ou mesmo reformulando o R&B dentro da fase inicial da Hyperdub. Uma espécie de continuação do último álbum e ao mesmo tempo um aquecimento para o restante da obra, delineada pela grandiosidade dos temas e faixas que esbarram no pop. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “The Voyager”, Jenny Lewis

Jenny Lewis
Indie/Folk/Female Vocalists
http://www.jennylewis.com/

Por: Cleber Facchi

Durante os primeiros anos em carreira solo, tudo o que Jenny Lewis parecia interessada era em se distanciar musicalmente do Rilo Kiley, sua outra banda. Não por acaso em Rabbit Fur Coat (2006), estreia solo da cantora, Lewis abandonou a energia das guitarras para abraçar a acústica leve do Country Folk. Curiosamente depois de reciclar a mesma sonoridade em Acid Tongue (2008), a artista regressa agora ao território musical do antigo grupo, transformando o recém-lançado The Voyager (2014, Warner Bros.) em um inevitável regresso aos primeiros anos em estúdio.

Espécie de comunicação com os memoráveis The Execution of All Things (2002) e More Adventurous (2004), trabalhos mais comerciais do Rilo Kiley até aqui, o presente registro solo de Lewis é uma obra de reposicionamento. Longe da atmosfera empoeirada dos dois últimos trabalhos, a cantora investe em melodias acessíveis, acordes bem executados de guitarras e uma doce comunicação com o pop que há tempos parecia abandonada.

Basta perceber a energia que escapa de músicas como Love U Forever para que todo o “novo” universo da cantora seja desvendado. Por trás de uma linha de baixo consistente, guitarras firmes, crescentes e encaixadas de forma precisa servem de base para as confissões românticas da artista. Doses consideráveis de referências dos anos 1980 e 1970, batidas econômicas e a voz limpa: nada tende ao excesso. É dentro construção que Lewis planeja a arquitetura do álbum, um trabalho que aposta no descompromisso, mas soluciona de forma assertiva todas suas imposições.

Mesmo que tropece aqui e ali em elementos conquistados ao lado do parceiro Johnathan Rice – namorado e uma das metades do Jenny and Johnny -, todas as experiências da obra são típicas de sua autora. Nada mais inteligente da parte de Jenny do que convidar o amigo de longa data (e inspiração confessa) Ryan Adams para assumir a produção do registro. Conhecedor do trabalho de Lewis, o músico mantém o registro dentro de uma formatação homogênea, pinçando tanto elementos dos últimos discos da cantora, como referências da música Country que abasteceram toda a década de 1970. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Vigília”, Terno Rei

Terno Rei
Dream Pop/Lo-Fi/Experimental
https://soundcloud.com/ternorei/

Por: Cleber Facchi
Fotos: Fabio Ayrosa

Vigília
s.f. Privação (voluntária ou involuntária) do sono durante a noite: longas noites de vigília prejudicam a saúde. / Estado de quem se conserva desperto durante a noite. / Véspera de dia festivo.

É preciso tempo até ser inteiramente seduzido pelo ambiente instável que a paulistana Terno Rei sustenta em Vigília (2014, Balaclava). E não é por menos. Do momento em que lisérgica Manga Rosa abre o registro, até a chegada de Saudade, composição escolhida para o encerramento da obra, cada faixa, voz, ritmo e sentimento expresso pelo quinteto – Bruno Rodrigues (Guitarra), Gregui Vinha (Guitarra), Luis Cardoso (Bateria), Victor Souza (Percussão) e Ale (Voz e Baixo) -, ecoa estranheza.

Como um labirinto instável que movimenta lentamente suas paredes, o trabalho de 10 faixas arrasta com o ouvinte para um universo de brandas, porém, constantes inquietações. Os vocais chegam como suspiros, as guitarras borbulham pequenos ruídos, deixando aos versos um flutuar proposital entre o nonsense e o sorumbático. Não seria errado deduzir que tudo o que os integrantes da banda procuram é o isolamento em relação ao público médio, efeito das maquinações preguiçosas (ainda que complexas) que sussurram a ordem do disco.

Todavia, longe de afastar o publico, Vigília aos poucos seduz e se apodera com cuidado a mente do espectador. Salvo o dinamismo (controlado) de faixas como Passagem, cada música do álbum cresce sob precisa timidez, como se estivesse prestes a se desfazer nos fones de ouvido. Mesmo que o caráter “Lo-Fi” da obra pareça bloquear tal aspecto, todas as composições do disco sobrevivem em essência do detalhe, acomodando acordes atmosféricos – típicos do Pós-Rock – com uma precisão rara dentro de outras obras recentes da cena nacional.

Regressar uma dezena de vezes ao território delicado do álbum é uma imposição que parte da banda, mas que merece ser seguida por qualquer espectador. Embaixo dos escombros sujos que as guitarras de Bruno Rodrigues e Gregui Vinha deixam pelo disco, há sempre um componente novo a ser filtrado. É o trompete que cria contraste em Salto da pedra da Gavea, a base doce que passeia ao fundo de Ela – no melhor estilo The Pastels – e até as vozes duplicadas de O Fogo Queimaria. Vigília. Livre de qualquer urgência natural, é uma obra que se entrega ao público, pronta para ser desvendada. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Trouble in Paradise”, La Roux

La Roux
Electronic/Synthpop/Female Vocalists
http://www.laroux.co.uk/

Por: Cleber Facchi

La Roux

Elly Jackson não poderia ter assumido uma estratégia mais corajosa do que os quatro anos de hiato que antecedem Trouble in Paradise (2014, Polydor). Longe da euforia, sintetizadores chiclete e versos fáceis que se projetam de Bulletproof e I’m Not Your Toy – algumas das faixas mais comerciais do álbum de estreia, lançado em 2009 -, a cantora/produtora britânica alcança o segundo registro de estúdio reforçando uma postura rara em tempos de produções urgentes e obras que normalmente chegam cruas aos ouvintes.

Lento, mas não estático, o presente disco é um passo além em relação ao furor oitentista que organizou grande parte da produção musical na década passada. Ainda íntima da New Wave instalada no single de estreia Quicksand, de 2008, Jackson transforma o novo álbum em uma obra de transição. Por mais que a inaugural Uptight Downtown estenda o exercício projetado no disco de estreia, à medida que a cantora atravessa a obra, o teor nostálgico da década de 1980 se encontra com os anos 1990 e 1970, reforçando a base conceitual do La Roux. Onde antes reinavam projetos como Eurythmics, A-Ha e The Human League, agora surgem gigantes como Grace Jones e Donna Summer.

Apresentado em idos de maio pela extensa Let Me Down Gently, Trouble in Paradise logo foi encarado como uma obra de oposição ao exercício frenético exposto no debut de Jackson. Todavia, não é preciso muito esforço para perceber como a mesma música pop da britânica ainda permanece a mesma, apenas detalhada em uma nova estrutura. Mesmo que canções como Tropical Chancer ou a inaugural Uptight Downtown apostem em uma tonalidade calorosa e propositadamente letárgica, por todo o trabalho músicas como Kiss and Not Tell e Sexotheque resgatam a essência do álbum anterior, arrastando o ouvinte para a pista.

É dentro desse universo de colagens, resgates e pequenas adequações que reside o grande acerto do disco. Enquanto The Ting Tings, Ladyhawke e outros artistas que surgiram na mesma época se acomodaram em uma terrível zona de conforto, Elly Jackson foi além, investindo na transformação. Sim, Trouble in Paradise está longe de ser um álbum encarado como “clássico”, tampouco parece capaz de igualar o acervo de faixas pegajosas do álbum passado, todavia, longe da redundância imediata e do autoplágio autoral que sobrevive do fanatismo cego do público, Jackson evita a redundância e aposta no novo. Trata-se de uma obra de passagem, uma seta indicando os acertos, tropeços e novas possibilidades da cantora ao velho público. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , ,

Disco: “Jungle”, Jungle

Jungle
Soul/R&B/Funk
https://www.facebook.com/jungle4eva

Por: Cleber Facchi

O passeio pelo Funk/Soul em Lucky I Got What I Want, o vídeo coreografado de Busy Earnin’ – no melhor estilo Hip-Hop 80′s -, ou mesmo o teor nostálgico do single de estreia – Platoon -, logo entregam a identidade musical do Jungle. Apresentado oficialmente em meados de 2013, o projeto comandado por Josh Lloyd-Watson (J) e Tom McFarland (T) é mais do que um novo exemplar do “Neo-Soul” britânico. Trata-se de um retrato delicado de tudo o que alimenta a Black Music em mais de cinco décadas de produção, transportando para o presente traços musicais há muito abandonados.

Versão descomplicada e até mesmo caricata de tudo aquilo que o TV On The Radio havia experimentado em Return to Cookie Mountain, de 2006, a autointitulada estreia do Jungle é uma obra que dança pelo tempo. Há espaço para a Disco Music em Julia e Accelerate, a busca pelo pop em Time, e até representações políticas da música negra em Son Of A Gun e Platoon. A diferença em relação ao trabalho do coletivo nova-iorquino ou mesmo de obras como St. Elsewhere (2006) do Gnarls Barkley está no caráter essencialmente acessível do registro.

Ainda que não apresente nenhuma faixa comercialmente grandiosa - vide a boa repercussão em cima de Crazy -, Jungle (o álbum) se distancia de prováveis bloqueios, trazendo na voz sutil de cada música uma evidente ferramenta de atração. Plástico, ainda que livre de exageros, complexo, porém tocante em se tratando das harmonias assinadas pelos produtores, o trabalho de 12 faixas rápidas se acomoda em quase 40 minutos de puro detalhamento e segurança para o ouvinte. Uma específica zona de conforto que não pretende e nem menos precisa ser provocada.

Quase minimalista em se tratando de outros exemplares recentes do Soul e R&B – como Electric Lady (2013), de Janelle Monáe -, a estreia do Jungle cresce justamente por conta do aspecto “diminuto” de cada canção. Salvo a inclusão de metais em Busy Earnin’ e outros instantes exaltados que se espalham pela obra, do início ao fim, o trabalho sustenta economia e atrativa homogeneidade. O proposital controle em relação aos arranjos força a dupla de produtores a investir de forma detalhada no uso dos vocais. O resultado está na construção de um álbum livre de possíveis lacunas, como se cada canto ou coro abrangente servisse de passagem para a canção seguinte. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Celestite”, Wolves in the Throne Room

Wolves in the Throne Room
Ambient/Drone/Instrumental
http://www.wittr.com/

Por: Cleber Facchi

A lenta transformação iniciada pelos irmãos Nathan e Aaron Weaver em Celestial Lineage, de 2011, atinge somente agora seu estágio final. Em Celestite (2014, Artemisia), quinto trabalho em estúdio do Wolves in the Throne Room, toda imposição caótica lançada nos primeiros anos da banda se organiza por completo. Completa desarticulação do Atmospheric Black Metal antes testado pelo duo, o novo álbum é a passagem para um cenário delicado e etéreo, trazendo na leveza o novo acervo instrumental do grupo.

Da mesma forma que os discos que o antecedem, o presente registro articula em atos lentos a estrutura de cada nova composição. Livre dos vocais, a dupla se concentra no uso apurado de texturas harmônicas, fazendo com que mesmo Bridge of Leaves, a canção mais curta do álbum, cresça substancialmente, como uma imensa colagem de ideias. Toda essa transformação vem da nova estrutura da banda, parcialmente livre das guitarras e investindo pesado no uso de sintetizadores – a principal “arma” do trabalho.

Mais do que substituir um instrumento por outro, ao entrar no território do quinto disco, o público mais uma vez é apresentado a todo um novo catálogo de referências. Se antes a dupla norte-americana parecia trilhar com firmeza em um caminho sombreado do Black Metal, aqui ela flutua. São faixas que escapam do delineamento orgânico e terreno – bem representado na capa do último disco -, para seguir em direção ao cosmos. Não por acaso Celestite carrega este título, um resumo das pequenas adequações da banda rumo ao espaço.

Espécie de trilha sonora para algum clássico da ficção científica nos anos 1970 – talvez Solaris (1972) ou Logan’s Run (1976) -, o novo álbum WITTR é uma obra que sobrevive de pequenas adaptações de conceitos – grande parte delas lançadas há três ou mais décadas. Há desde referências ao trabalho de veteranos da New Age, como Vangelis em Turning Ever Towards the Sun, até flertes com o Krautrock, relação escancarada no diálogo com o Tangerine Dream em Celestite Mirror. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Coisa Boa”, Moreno Veloso

Moreno Veloso
MPB/Bossa Nova/Alternative
https://www.facebook.com/morenoveloso

Por: Cleber Facchi

Moreno Veloso

A voz doce, os arranjos sempre econômicos e versos tomados pela nostalgia logo entregam: Moreno Veloso está em casa. Mais de uma década desde o lançamento do álbum Máquina de Escrever Música (2000) – obra em parceria com Domenico Lancellotti e Kassin pelo +2 -, o cantor e compositor baiano regressa ao mesmo cenário bucólico de Sertão, faixa de abertura do já empoeirado registro, para encontrar a matéria-prima de Coisa Boa (2014, Disco Maravilha), oficialmente, o primeiro trabalho solo do artista.

Distante dos projetos em que esteve envolvido nos últimos anos – como o eletrônico Recanto (2011), de Gal Costa, além dos trabalhos com a Orquestra Imperial e demais álbuns com o +2 -, Moreno (lentamente) abra as portas de um cenário desvendado em essência por ele. Concebido durante o período em que o músico se mudou para a Bahia, o trabalho emana leveza e tranquilidade a cada novo acorde, como se tudo fluísse dentro de uma medida de tempo delicadamente tecida pelo compositor. Contudo, longe do isolamento, a subjetividade e o teor “particular” da obra não custam a abraçar o ouvinte, transportado para o mesmo ambiente tão logo a inaugural Lá e Cá tem início.

Livre de qualquer traço comercial, Coisa Boa escapa com naturalidade das pequenas fagulhas “pop” lançadas com o +2 há 14 anos. A ausência de faixas acessíveis, entretanto, em nenhum momento prejudicam o rendimento da obra. Pelo contrário, em um registro que aposta no aconchego, a exclusão de músicas como Eu sou melhor que você e Deusa do Amor reforça o grande acerto da trabalho: a atmosfera de plena leveza.

Moreno Veloso

Marcado por pequenos retalhos de memória, Coisa Boa é mais do que um reflexo da mudança temporária do cantor para a Bahia. Por todo o trabalho, o resgate de experiências nostálgicas e cenários esculpidos pela saudade apontam a direção para músico, que deixa a fase adulta para resgatar liricamente a própria infância. Não por acaso, grande parte das faixas se entregam ao contexto pueril das palavras e arranjos. Músicas como Jacaré Coruja, Não Acorda o Neném ou mesmo a própria faixa-título, retratos da infância de Veloso e, ao mesmo tempo, uma delicada homenagem do músico aos próprios filhos. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “1000 Forms of Fear”, Sia

Sia
Pop/Electronic/Female Vocalists
http://siamusic.net/

Por: Cleber Facchi

Sia

Não importa o gosto ou provável tendência musical do espectador: todo mundo já ouviu alguma música de Sia pelo menos uma vez na vida. De faixas lançadas por grandes nomes da música pop, como Britney Spears, Beyoncé e Rihanna, passando por artistas da cena alternativa, caso de Birdy, Oh Land e até o veterano Beck, basta olhar o encarte do trabalho para notar a assinatura da australiana – talvez a maior fabricante de hits da última década. Curioso perceber que em 1000 Forms of Fear (2014, RCA), sexto álbum solo da cantora, tudo o que Sia não quer é ser notada pelo público.

Reflexo de uma série de transtornos recentes na vida da compositora, incluindo problemas com remédios, depressão e constantes ataques de pânico, o presente disco é uma obra que sobrevive do isolamento de sua criadora. Real ou fabricada, não importa, a temática que recheia o disco – e cresce em faixas como Eye Of The Neddle (“E eu não estou pronta/ Eu aguentarei firme“) – é a passagem para um registro de honestidade evidente. Livre do sofrimento fabricado da música pop – incluindo o dela própria -, Sia se converte com acerto na matéria-prima do trabalho, trazendo nas próprias confissões um personagem cotidiano e melancólico, assimilável por qualquer ouvinte.

Tal qual Adele em 21 (2011) ou Lykke Li no recente I Never Lern (2014), 1000 Forms of Fear entrega em cada música um fragmento triste da voz que a representa. A diferença em relação ao novo trabalho da australiana está na forma esquizofrênica em que arranjos e vozes entram em atrito durante todo o tempo, pervertendo um possível caráter essencialmente comercial da obra. Trata-se do registro mais “experimental” da cantora, que abandona o colorido efusivo do álbum We Are Born (2010) para mergulhar em território sombrio. Uma representação natural da mente perturbada de Sia.

Ainda que convincente em se tratando dos versos e temas que o definem, 1000 Forms of Fear pouco inova em se tratando dos arranjos. Basta observar Free The Animal, uma reciclagem das bases lançadas por Ariel Rechtshaid nos últimos discos do Haim (Days Are Gone) e Sky Ferreira (Night Time, My Time), ou mesmo Elastic Heart, parceria com o canadense Abel Tesfaye (The Weeknd) e faixa que mais parece uma adaptação de Exodus, colaboração entre o próprio Tesfaye com a cantora M.I.A. em Matangi (2013). Mesmo a poderosíssima Chandelier, uma das candidatas a música do ano, falsifica inovação. Ouça XXX 88, da dinamarquesa Mø, para notar as pequenas doses de autoplágio assinadas por Diplo, produtor responsável pelas duas músicas. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “HEAL”, Strand Of Oaks

Strand Of Oaks
Folk Rock/Indie Rock/Alternative
http://strandofoaks.net/

Por: Cleber Facchi

Mesmo para quem nunca se interessou pelo trabalho do Strand Of Oaks, perceber a versatilidade do projeto comandado por Timothy Showalter não é uma tarefa muito difícil. Em um sentido quase oposto ao teor melancólico (e arrastado) que orienta grande parte dos grandes lançamentos da cena Folk/Country estadunidense, o músico de Indiana sempre apostou na expansão, sustentando trabalhos que mesmo complexos e autorais, não parecem bloquear a passagem para o espectador novato ou qualquer visitante atento.

Com a chegada de HEAL (2014, Dead Oceans), quarto álbum de estúdio da banda/cantor, Showalter não apenas amplia o caráter melódico e musicalmente dinâmico da própria obra, como ainda sustenta um dos grandes exemplares do Romantismo-Folk lançado nos últimos meses. Em um cenário dominado pela maturidade de Mark Kozelek (Sun Kil Moon), além de vozes femininas guiadas por corações partidos – caso de Sharon Van Etten e Angel Olsen -, Timothy substitui a homogeneidade dos temas e arranjos para ziguezaguear pelos próprios sentimentos.

Capaz de romper com os limites autorais do próprio criador, HEAL deixa de lado a fórmula pronta da “voz e violão” para que Showalter sustente uma sonoridade alimentada em essência pelas guitarras. Diferente do que havia testado em Pope Kildragon (2010) e Dark Shores (2012), o novo álbum parece longe de sufocar o espectador, além do próprio criador. Tudo o que o músico testa no interior do disco faz com que as canções reverberem de forma libertadora, como o grito confessional instalado na faixa de abertura, Goshen ’97, ou as vozes em coro que passeiam pelos acordes amplos de For Me.

Livre da ambientação imposta por Bon Iver em 2011 – tendência que ainda se espalha em grande parte dos lançamentos recentes -, Showalter abandona completamente a cena atual para encarar musicalmente o passado. Proposital, ou não, a relação com os arranjos e temas lançados na década de 1990 trazem de volta uma série de efeitos nostálgicos e ao mesmo tempo transformadores para o álbum. São pequenas transições entre o acelerado (Same Emotions) e o bucólico (Playmouth) que resgatam tanto a obra de veteranos como, Hollywood Town Hall (1992), do The Jayhawks, da mesma forma que obras ainda “recentes”, caso do influente Magnolia Electric Co. (2003), da banda Songs: Ohia. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , , , , ,