Tag Archives: Resenhas

Disco: “LOSE”, Cymbals Eat Guitars

Cymbals Eat Guitars
Indie Rock/Alternative/Rock
http://cymbalseatguitars.com/

Por: Cleber Facchi

Da geração de bandas norte-americanas que nasceram na segunda metade da última década, poucas amadureceram tanto quanto a Cymbals Eat Guitars. Fruto da mesma safra de Titus Andronicus, The Pains of Being Pure at Heart e outros coletivos próximos, o grupo de Nova York carrega no peso das guitarras e melodias abertas a ponte que conecta o rock alternativo do fim dos anos 1990 ao presente. Referências tão próximas de Built to Spill, The Wrens e Modest Mouse, quanto do quarteto, hoje um comprovado veterano ao alcançar o terceiro álbum da carreira, LOSE (2014, Barsuk).

Obra mais segura (e ampla) já projetada por Joseph D’Agostino, Andrew Dole, Matt Whipple e Brian Hamilton, o presente álbum é um verdadeiro exercício de consolidação. Se há pouco menos de três anos as guitarras sujas de Lenses Alien (2011) revelavam “apenas” uma extensão aprimorada do som cru lançado em Why There Are Mountains (2009), hoje cada porção instrumental espalhada pela obra se movimenta em parcimônia, seduzindo o ouvinte pelos detalhes.

Em um cenário tão próximo do Indie Rock de 1990 como da essência do rock progressivo, LOSE é uma obra de arranjos extensos, a serem desbravados pelo ouvinte. Ainda que leve em seus 44 minutos e 45 segundos de duração – média aproximada dos últimos lançamentos da banda -, grande parte das canções espalhadas pelo disco ultrapassam os limites de uma faixa “comercial”. São atos acima dos seis minutos, como em Jackson e 2 Hip Soul, e até músicas aos moldes de Laramie, com mais de oito minutos de distorções, cantos e novos improvisos.

Longe de ser interpretado como uma obra “revival”, como os dois primeiros trabalhos da banda, o acerto do novo disco está na expressiva formação de uma identidade musical por parte do CEG. Da essência melódica (Built To Spill) e agressiva (Superchunk) de grandes veteranos da cena alternativa nasce apenas a estrutura da obra, esqueleto aos poucos encorpado por pianos sutis (Jackson), batidas firmes (Chambers) e uma delicadeza rara em se tratando do uso das guitarras distorcidas (Place Names).   Continue reading

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Disco: “Rainha dos Raios”, Alice Caymmi

Alice Caymmi
Alternative/Electronic/Female Vocalists
http://www.rainhadosraios.com/

Por: Cleber Facchi

O mar inquieto desbravado por Alice Caymmi durante o primeiro álbum de estúdio, de 2012, encontra agora seu estado de maior agitação. Em Rainha dos Raios (2014, Joia Moderna), segundo trabalho solo da cantora e compositora carioca, todas as experiências – líricas e musicais – arrastam agora o espectador para um cenário de plena incerteza e constante transformação. Instável e senhora do próprio domínio, Alice rompe de forma decisiva com os laços da própria herança, deixando de ser encarada apenas como a “neta de Dorival Caymmi” para governar um universo inteiro dentro das próprias imposições.

Imenso registro de possibilidades, a obra “em louvor” à Iansã – a orixá das tempestades – logo se converte em um registro de incorporação. Das vozes fortes tomadas pela androginia ao uso versos provocados pelo incerteza de gênero do eu-lírico, quem passeia com liberdade pelo disco não é Alice, mas as diferentes entidades que temporariamente invadem o corpo (e voz) da artista.

Contrariando a força autoral do primeiro disco – rompida apenas na regravações de Unravel de Björk e Sargaço Mar do próprio avô -, aqui Alice é Caetano Veloso (Homem), Maysa (Meu Mundo Caiu), MC Marcinho (Princesa) e até uma versão transformada dela mesma (Antes de Tudo). Mesmo quando se encontra com o hitmaker Michael Sullivan em Meu Recado, Caymmi está longe de repetir a mesma “personagem” exaltada no álbum de estreia. Rostos, vozes e papéis que se confundem sem deixar de ditar a direção (incerta) a ser seguida pelo ouvinte no decorrer do trabalho.

Ainda que encarado como uma obra de interpretações – das nove faixas do disco, sete contam com assinatura ou foram gravadas previamente por outros artistas -, Rainha dos Raios está longe de ser resumido como um simples “disco de versões”. Inclinado ao remodelar de cada faixa, Diogo Strausz, produtor do disco, brinca não apenas com a base experimental de cada canção, mas com a essência da própria cantora. Parceiros desde o experimento testado em Iansã, no último ano, Strausz e Caymmi testam referências (Sou Rebelde), forçam o uso da voz como instrumento (Meu Recado) e, principalmente, atravessam um oceano imenso de novos ritmos. Continue reading

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Disco: “This Is All Yours”, Alt-J

Alt-J
British/Indie/Alternative
http://www.altjband.com/

Por: Cleber Facchi

Em um sentido oposto ao da homogenia ressaltada no começo dos anos 2000, durante a expansão do Revival Pós-Punk, nítida é a transformação imposta por todo um novo cercado de artistas que ocupam a cena inglesa. Coletivos como Everything Everything, Egyptian Hip Hop e Django Django; grupos motivados pelo mesmo “pop complexo” assinado por Foals, Wild Beasts e outros responsáveis pela transição de conceitos ainda na segunda metade da última década, mas que parecem em busca de um som cada vez mais particular.

Fruto explícito desse novo “movimento”, o grupo de Leeds Alt-J talvez seja o mais querido do público dentro de toda a nova safra de artistas britânicos. Com uma massa de ouvintes fiéis (e em expansão) desde a chegada do debut An Awesome Wave (2012) – verdadeira coletânea pop embalada de forma “experimental” -, o (hoje) trio resume no lançamento do segundo álbum de estúdio uma obra centrada na autoafirmação e, ao mesmo tempo, carregada de novas experiências.

Esculpido de forma menos “comercial” que o antecessor, This Is All Yours (2014, Infectious) é um trabalho que pode até escapar de faixas imediatas, como Breezeblocks e Tessellate, mas que surpreende pela delicadeza de seus (extensos) atos. Exemplo expressivo disso está em Hunger of the Pine. Escolhida para apresentar o disco, a lenta composição cresce como um ressaltar harmônico das nuances do Art Rock – de grupos como These New Puritans -, mas sem deixar de flertar com desconstrução do pop recente – vide a inclusão de trechos da música 4X4 de Miley Cyrus, “I’m a Female Rebel“. Todavia, assim como o álbum de 2012, o grande erro do Alt-J não está no acumulo e uso amplo de referências, mas na forma como grande parte desses elementos são encaixados de maneira “inexata” ao longo da obra.

Por mais comovente que seja o material apresentado em Hunger Of The Pine, mesmo que a música de Left Hand Free pareça comercialmente viável ou que o som de The Gospel of John Hurt ecoe de forma curiosa, falta coerência ou uma possível linha temática capaz de amarrar o imenso material do disco. É nítida a tentativa do grupo em iniciar um planejamento conceitual com a “trilogia Nara” – Arrival in Nara, Nara e Leaving Nara -, entretanto, a hiperatividade sobrepõe o controle, levando o trio a tropeçar no mesmo catálogo de sons avulsos de An Awesome Wave. Ideias, colagens, referências que tornam a experiência de apreciar o álbum confusa – vide o corte brusco que separa Every Other Freckle de Left Hand Free, esta última, música que parece incluída apenas por pressão da gravadora. Continue reading

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Disco: “Crush Songs”, Karen O

Karen O
Indie/Lo-Fi/Alternative
http://www.karenomusic.com/

Por: Cleber Facchi

A raiva incontida em grande parte das canções do Yeah Yeah Yeahs, muitas vezes parece ocultar a poesia doce costurada por Karen O. Seja na melancolia escancarada em Maps – uma das mais belas e honestas canções de amor dos anos 2000 -, passando por Little Shadow em It’s Blitz! (2009) e Wedding Song no ainda recente Mosquito (2013), o amor sempre encontra uma brecha para sobreviver na voz da artista, completamente entregue ao sentimento no interior do primeiro disco solo, Crush Songs (2014, Cult).

Confessional em toda a extensão, o “debut” se movimenta entre emanações brandas e sons prestes a se esfarelar. Uma obra de versos sussurrados, captações caseiras e toda uma ambientação dividida apenas entre a cantora e o ouvinte. Livre de um possível acabamento detalhista em estúdio, o álbum de 15 curtas composições é um bloco que não esconde a própria singeleza, carregando nos versos a principal ferramenta da cantora.

Sempre falando de amor – como o próprio título da obra logo entrega -, Crush Songs revela ao público todos os limites e pequenas imposições ainda na faixa de abertura, a triste Ooo. Trata-se de um catálogo de fragmentos sentimentais colecionados por Karen O ao longo dos últimos anos. Faixas talvez “simplistas” ou “pequenas” dentro do contexto musical grandioso do YYYs, porém, assertivas quando organizadas em conjunto, amarradas pela mesma trama sorumbática da recente obra.

Ainda que instalado no mesmo ambiente tímido de The Moon Song, faixa concebida especialmente para a trilha sonora do filme Her (2013), Crush Songs está longe de ser encarado como um material sereno. Como toda obra detalhada pelos percepções humanas, principalmente aqueles impulsionados pelo amor, a estreia solo de Karen O consegue ao mesmo tempo confortar (Day Go By), como despertar a insanidade do espectador (Beast). O próprio texto de apresentação do álbum (acima) traduz bem isso. Da mesma forma que não há certeza alguma no amor, instável é o caminho percorrido ao longo do disco. Continue reading

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Disco: “How To Run Away”, Slow Magic

Slow Magic
Chillwave/Electronic/Synthpop
http://slowmagic.bandcamp.com/

Por: Cleber Facchi

Um dos aspectos mais sublimes na obra de Hayao Miyazaki não está no roteiro delicado ou mesmo nos cenários fantásticos produzidos a cada película, mas nos personagens que o diretor utiliza como ponte para esse universo mágico. Seja o gigante Totoro no filme de 1988, os diferentes espíritos na trama de Princesa Mononoke (1998) ou mesmo o jovem Haku em A Viagem de Chihiro (2002), há sempre uma criatura/estopim que aos poucos afasta a mente do espectador da realidade, convidado a experimentar o novo plano de cores, cenários e sensações detalhadas em cada história.

Ainda que atuante em um ambiente específico – o da música -, não é difícil perceber no novo álbum do californiano Slow Magic a mesma atmosfera fantástica que toma conta da poesia visual de Miyazaki. Mágico personagem da própria obra, o produtor mascarado é o grande responsável por apresentar ao público – representado pelos jovens na capa do álbum – o panorama delicado que se apodera de How To Run Awaym (2014, Downtown), segundo e mais recente obra de estúdio.

Coleção de temas limpos e essencialmente melódicos, o presente álbum é um passo além em relação ao que Magic já havia testado com acerto no disco anterior, Triangle, de 2012. Trata-se de uma interpretação menos “artesanal” da Chillwave que ocupou grande parte da Costa Oeste dos Estados Unidos no final da década passada, experiência agora detalhada no uso atento dos sintetizadores – a principal ferramenta de trabalho para a obra. Todavia, mais do que um projeto orientado por novas imposições técnicas/estéticas, How To Run Away é um desenvolvido para brincar com as sensações do ouvinte.

Da imagem fantasiosa que estampa a capa do disco – o “personagem” de Slow Magic -, ao conjunto de harmonias detalhadas em cada faixa, por onde passa o ouvinte é arrastado para um novo campo de experiências oníricas. Em uma estrutura musical progressiva (e mística), o produtor detalha pequenas referências, sobrepõem instrumentos e brinca com a voz em uma captação carregada de eco. Assim como nas histórias de Hayao Miyazaki, Magic está longe de fornecer as respostas ao público, pelo contrário, parece se divertir com as diferentes interpretações lançadas em cada música. Continue reading

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Disco: “El Pintor”, Interpol

Interpol
Post-Punk/Rock/Alternative
http://interpolnyc.com/

Por: Cleber Facchi

De todas as habilidades conquistadas pelo Interpol ao longo dos anos, a do “esquecimento” talvez seja a mais expressiva. Explico: desde que o coletivo nova-iorquino alcançou um som ainda mais comercial em Antics, todo o esforço do grupo comandado por Paul Banks se concentra em replicar a mesma massa de arranjos e temas da obra de 2004, falseando “originalidade”. Um eterno reciclar de experiências refletido de maneira copiosa nos dois último álbuns de estúdio - Our Love to Admire (2007), Interpol (2010) -, reforçado no interior de El Pintor (2014, Matador), mas que sempre passa despercebido pela massa cega (ou surda) que acompanha a banda – encantada com tamanha “novidade” a cada lançamento.

Há quem defenda: “mas esta é a ‘identidade’ da banda. É ‘Pós-Punk‘, impossível fazer algo diferente disso”. Discordo. Existe uma diferença enorme em evoluir a partir de uma mesma estrutura musical e se acomodar de forma preguiçosa dentro dela. Um exemplo? Que tal o The National. Há mais de uma década o grupo de Matt Berninger permanece confortável na mesma base de sons cinzentos e temas “alcóolicos” do primeiro disco, postura renovada (e ampliada) com sutileza a cada álbum de estúdio – vide a evidente separação entre Boxer (2007) e o ainda recente Trouble Will Find Me (2013).

O mesmo acontece com as novatas Cult of Youth e Iceage, bandas inclinadas ao trabalhar contínuo da mesma estrutura musical e responsáveis por projetos muito mais significativos do que os registros lançamentos do Interpol na última meia década. É possível ainda citar a veterana do pós-punk nova-iorquino Swans, tão ativa e mutável hoje quanto há três décadas – vide To Be Kind (2014) -, mas aí seria humilhação.

Todavia, o grande erro do Interpol em El Pintor não está no reciclar de uma antiga essência, mas em plagiar de forma cômoda o próprio trabalho. Como já havia comentado durante o lançamento de Ancient Ways, toda a estrutura do presente álbum se baseia em faixas já apresentadas pela banda. Exagero? Ouça os minutos iniciais de My Blue Supreme e depois volte para Pioneer To The Falls, faixa de abertura de Our Love to Admire (2007). Mais? Ancient Ways e Barricade. São os mesmos riffs, bases e melodias. Os mesmos temas tristes e solos plásticos. A mesma concepção. É fácil ser seduzido por El Pintor, afinal, quem não foi hipnotizado por Antics, a grande “matéria-prima” da presente obra.

Quando digo que a capacidade do “esquecimento” é a mais importante do Interpol, não me refiro apenas ao apagar de memória entre um álbum repetitivo e outro, mas em esquecer do refinamento alcançado pelo coletivo ainda no primeiro álbum de estúdio, Turn on the Bright Lights (2002). Bastam os 3:57 minutos da inicial Untitled para derrubar toda a estrutura fria/previsível do novo disco. Perceba como as guitarras crescem detalhistas e climáticas, a voz de Paul Banks é lentamente trabalhada como um instrumento e a poesia da canção se esquiva com naturalidade de um matemático verso + refrão + verso + refrão + refrão que rege toda a estrutura de El Pintor. O tempo é um componente fundamental dentro do álbum de estreia da banda, postura substituída por um material fabricado, por vezes cru, dentro do repertório do novo disco. Continue reading

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Disco: “Verões”, Duplodeck

Duplodeck
Indie Rock/Lo-Fi/Alternative
https://www.facebook.com/deckduplo
http://duplodeck.bandcamp.com/

Por: Cleber Facchi

O lançamento de Brisa no começo de junho serviu para “alertar” sobre a presente fase da mineira Duplodeck. Mais do que uma alteração de idioma – o grupo havia deixado a língua inglesa do primeiro EP para cantar em português -, o uso leve das guitarras, letras menos introspectivas, bem como a imposição “tropical” dada aos arranjos serviu de passagem segura para o primeiro álbum “de estúdio” do coletivo: Verões (2014, Pug Records). Espécie de praia conceitual, o registro lentamente acomoda o ouvinte em um cenário paradisíaco de sonhos, canções de amor e doses controladas de ruídos tão íntimos da cena atual, como do rock indie dos anos 1990.

Em um plano afastado daquele lançado há três anos em Duplodeck EP (2011), o debut cresce como uma colisão de temas autorais. Ainda que ecos da cena alternativa concebida há duas décadas recheiem todo o conteúdo da obra – como Pavement, Yo La Tengo e Pixies -, basta a inaugural Saint-Tropez para perceber que a direção assumida pela banda agora é outra, muito mais ampla e até mesmo “curiosa” em relação ao trabalho sustentado por outros artistas de essência próxima. Uma tentativa do grupo em delinear com acerto a própria identidade.

De contornos nostálgicos, Verões está longe de ser encerada apenas como uma “versão tropical” do trabalho exposto por gigantes do Indie estrangeiro, afinal, toda a essência do grupo descende da própria cena nacional. Seja na captação caseira das vozes aos realces melódicos de faixas como Strange Girl e Boemia – no melhor estilo Teenage Fanclub -, grande parte do esforço da obra está em resgatar temas típicos de nomes como Astromato, Second Come e outros veteranos do rock nacional. A própria sonoridade “litorânea” do disco parece a mesma realçada pela carioca Pelvs em clássicos como Members to Sunna (1997) e Peninsula (2000).

Propositadamente desajustada, a estreia do sexteto de Juíz de Fora – Alex Martoni, Fred Mendes, Guilherme Kegele Lignani, Maria Bitarello, Ricardo Coimbra e Rodrigo Lopes – é uma obra capaz de brincar de forma assertiva com pequenos contrastes. Se por um lado as melodias encaradas pela banda ecoam de forma harmônica, resgatando com naturalidade elementos do Indie Pop lançados no EP de estreia – vide Bom Dia, Amor -, por outro lado a sobrecarga de ruídos rompe com a formação de um material acessível em demasia, provocando a experiência do ouvinte. Continue reading

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Disco: “Gana Pelo Bang”, Lurdez da Luz

Lurdez da Luz
Hip-Hop/Rap/Pop
http://www.lurdezdaluz.com/

Por: Cleber Facchi

Lurdez da Luz está longe de ser uma iniciante. Mesmo que o primeiro trabalho solo da rapper paulistana seja apresentado somente agora, Gana Pelo Bang (2014, YB Music), são quase duas décadas de projetos em parceria, colaborações e toda uma bagagem imensa de composições – experiência raramente igualada dentro do produção brasileira. Da parceria com Rodrigo Brandão no Mamelo Sound System, passando pela série de faixas ao lado de diferentes nomes do rap nacional – ou mesmo além dele, como Lucio Maia e Garotas Suecas -, maturidade é o que não falta para a presente “debutante”,  aspecto refletido na segurança do novo lançamento de estúdio.

Norteado pela mesma composição do EP homônimo de 2010, o trabalho de 10 faixas aos poucos se distancia da atmosfera inicial lançada por Da Luz, revelando ao público um material totalmente inédito. Mais do que um olhar atento sobre a periferia de São Paulo, Gana Pelo Bang dialoga de forma explícita com diferentes cenários, pessoas e principalmente ritmos nacionais. Uma espécie de passeio pela periferia brasileira sem necessariamente fugir do território urbano/cinza há décadas sustentado pela rapper – liricamente versátil em toda a construção do álbum.

Parte dessa carga de referências flutua com naturalidade na composição instrumental do disco. Funk carioca em Mente Aê, ritmos nordestinos no interior de Ping Pong e até passagens fragmentadas pela cultura nortista – como as variações de Technobrega na romântica Beijinho. Postura inédita para quem descobriu o trabalho da rapper no EP de 2010, grande parte dessa colagem de referências antecede a fase solo de Da Luz, esbarrando em temas e pequenas imposições musicais já alcançadas em Velha-Guarda 22 (2006), ainda com o Mamelo Sound System.

A diferença talvez esteja no ritmo (sempre) intenso dado ao disco, efeito reforçado pelo time de produtores que trabalham de forma cooperativa ao longo de toda a obra. Com Leo Justi, Nave e a dupla Stereodubs como produtores do álbum, Da Luz segue em ritmo frenético até o último instante do trabalho. Tão intenso (Fervo), quanto dançante (Poder), o disco cresce como uma colisão de temas, samples e batidas propositadamente instáveis, matéria volátil aos poucos amarrada pela rima firme e ainda melódica da rapper. Continue reading

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Disco: “Banda do Mar”, Banda do Mar

Banda do Mar
Indie/Alternative/Indie Pop
https://www.facebook.com/bandadomar

Por: Cleber Facchi

É difícil não ser convencido pelo primeiro álbum da Banda do Mar. Projeto paralelo do casal Mallu Magalhães e Marcelo Camelo, o disco lançado em parceria com o português Fred Ferreira cresce como uma tapeçaria de sons cantaroláveis, raros e capazes de cruzar o Atlântico com velocidade, invadindo a mente do ouvinte sem grandes bloqueios. Mesmo incapaz de lançar um material verdadeiramente novo – trata-se de uma adaptação do arsenal testado em Ventura (2003) do Los Hermanos, gracejos pop vindos de Pitanga (2011) com uma pitada de Surf Music -, cada curva do disco luso-brasileiro encanta pelo tratamento dos arranjos e a forma honesta dada aos versos, formato que se estende e acompanha o ouvinte até o ecoar da última faixa.

Composto e gravado em Portugal – país adotado por Camelo e Magalhães desde 2013 -, o trabalho de essência radiante não oculta a seriedade dos próprios temas, postura explícita no caráter “libertador” carimbado em cada canção. Da expressão declamada em Me Sinto Ótima – quase uma “faixa irmã” de Velha e Louca -, ao inaugurar do disco com Cidade Nova - “Eu não deixo o tempo parar” -, todas as dobras do álbum soam como uma resposta sorridente aos que não acreditavam na união do casal de músicos, no afastamento de Camelo do Los Hermanos, ou na capacidade da cantora em crescer além do Folk pueril dos primeiros anos. Nada de rancor, apenas sorrisos.

São estes mesmos sorrisos que preenchem parte da poesia da obra e ainda garantem ritmo ao trabalho. Entre declarações de amor (Mais Ninguém) e faixas de puro descompromisso (Muitos Chocolates), o debut é um disco que flui com leveza e ao mesmo tempo energia, atingindo em cheio o espectador. É possível afirmar que desde o grito final na faixa De Onde Vem A Calma que Marcelo Camelo não soava tão liberto. Mesmo Magalhães dança pelo disco entre vocalizações crescentes, postura delineada com acerto no último disco solo, de 2011, mas ainda mais fascinante no pop batucado de Mia e outras criações do álbum. Vozes sorridentes (Pode Ser), assovios (Me Sinto Ótima) e celebração (Vamo embora), como definiu o jornalista Thales de Menezes: este é o disco mais agradável do ano.

Delineado com simplicidade, o álbum carrega nas guitarras a principal ferramenta de movimento para as faixas. Da abertura, com Cidade Nova, passando por Mais Ninguém, Hey Nana e Faz Tempo, cada instante do trabalho abre espaço para o uso dos solos versáteis de Camelo – tão enérgico quanto no primeiro álbum do Los Hermanos. São rajadas eufóricas de distorção, como no eixo final de Muitos Chocolates, instantes brandos que explodem sob controle, vide Seja Como For, além de um suingue raro, posicionamento que rompe com a serenidade da fase solo do músico – principalmente em Sou (2008) – para encontrar a mesma desenvoltura do hermano Rodrigo Amarante na fase pré-Cavalo (2013). Continue reading

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Disco: “Paraíso da Miragem”, Russo Passapusso

Russo Passapusso
Brazilian/Alternative/Dub
http://www.russopassapusso.net/

Por: Cleber Facchi

Não é preciso muito esforço para perceber todas as nuances e referências que compõem o plano de Russo Passapusso em Paraíso da Miragem (2014, Independente). Uma pitada de Novos Baianos na faixa Areia, diálogos com o Rock dos anos 1970 em Remédio, tropeços pelo samba em Sangue do Brasil e Flor de Plástico, além de toda uma sobrecarga de emanações densas, quase letárgicas, típicas do Dub robótico já incorporado pelo artista baiano ao lado dos parceiros do BaianaSystem.

De forma simples, um amontoado de texturas e sons talvez previsíveis quando voltamos para faixas como Calandu e Magnata – esta última com os parceiros do Bemba Trio -, mas que encontram um formato “inusitado” em meio ao conjunto de novas imposições do cantor. Do uso de falsetes em músicas aos moldes de Flor de Plástico – estrutura já “criticada” pelo público, como apontou em entrevista -, passando pela coleção de melodias cada vez mais delicadas, a estreia solo de Passapusso é uma obra a ser observada de forma atenta, sutil, coletando cada ruído doce reinterpretada pelo artista.

Ainda que exposto dentro do mesmo contexto tecido nos projetos paralelos de Passapusso, Paraíso da Miragem é um disco que cresce a partir de em uma rápida curva de possibilidades. De forma acessível, diálogos contínuos com o pop ocupam todas as dimensões do álbum, solucionando desde vocalizações radiofônicas em Paraquedas, até os arranjos nostálgicos (no melhor estilo Tim Maia) na faixa Sapato. Uma cruzamento amplo de tendências entre passado e presente que parecem orientadas de acordo com as atuais imposições do cantor – voltado à descoberta.

Como a capa colorida bem revela, Paraíso da Miragem é um ponto de encontro não apenas para diferentes gêneros e temas musicais, mas principalmente pessoas, amigos e parceiros de longa data de Passapusso. São nomes como Marcelo Jeneci e Edgar Scandurra que preenchem tanto as lacunas vocais das músicas, como os arranjos em determinadas faixas. Interferências rápidas, como Anelis Assumpção em Sem Sol, capaz de atravessar o disco com leveza, ou mesmo outros como BNegão em Autodidata, convidado para balançar a estrutura projetada por Passapusso e preservada pelos produtores Zé Nigro, Lucas Martins e Curumin. Continue reading

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