Tag Archives: Resenhas

Disco: “Sobre Noites e Dias”, Lucas Santtana

Lucas Santtana
Alternative/Electronic/Indie
https://www.facebook.com/lucas.santtana.official

Por: Cleber Facchi

A mudança de direção a cada novo trabalho talvez seja a única constante dentro da obra de Lucas Santtana. Da colagem de ritmos nos dois primeiros discos – Eletro Ben Dodô (2000), Parada de Lucas (2003) -, passando pelo dub em 3 Sessions in a greenhouse (2006) e bossa nova em Sem Nostalgia (2009), há sempre renovação nos álbuns lançados pelo baiano – “confortável” apenas na melancolia sóbria de O deus que devasta, mas também cura (2012).

Em Sobre Noites e Dias (2014, Dignois), mais recente trabalho em estúdio de Santtana, curioso notar que a proposta do artista passa a ser outra. Ainda que álbum seja desenvolvido a partir de um novo tema/gênero específico – neste caso, a “música eletrônica” -, é evidente como grande parte da obra pode ser encarada como um atento resumo de toda a discografia do cantor.

Os arranjos de cordas na inaugural Human Time – típicos do álbum de 2012 -, o atmosfera pop de Funk dos bromânticos – com elementos resgatados de Parada de Lucas -, e até a travessia pelo dub em Let The Night Get High, cada canção amarra passado e presente com verdadeira naturalidade. Um imenso “remix” de cada porção instrumental lançada pelo artista nos últimos 14 anos.

Sutil, Santtana consegue reverenciar a própria obra sem necessariamente fazer disso o passagem para um disco nostálgico ou pouco inovador. Basta perceber a estrutura delineada para Alguém Assopre Ela, faixa que sintetiza toda a confissão do registro passado, incorpora vozes brandas – próprias do álbum lançado em 2009 – e ainda dissolve todos os elementos dentro de uma atmosfera eletrônica minimalista, inédita dentro dos conceitos do músico. Continue reading

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Disco: “Green Language”, Rustie

Rustie
Electronic/Wonky/Grime
https://www.facebook.com/rustie666

Por: Cleber Facchi

De todos os aspectos ressaltados no trabalho de Rustie em Glass Swords (2011), o mais interessante deles se concentra na imensa carga de referências dissolvidas pela obra. Da homenagem ao jogo The Legend of Zelda: Ocarina of Time em Hover Trap, passando pelos sintetizadores em Flash Back – típicos do Van Halen -, a estreia do artista escocês é mais do que uma coleção de gêneros sobrepostos – Dubstep, Hip-Hop, R&B, Pop, Techno e até Rock Progressivo -, mas uma obra a ser desvendada dentro e principalmente fora das pistas.

Com a apresentação de faixas como Raptor e Attak nos últimos meses, todas as evidências indicavam que Green Language (2014, Warp) seria conduzido sob o mesmo refinamento do antecessor. Batidas intensas, harmonias detalhadas de sintetizadores e até o uso coeso de vocais – assumidos pelo amigo/colaborador Danny Brown. Uma sensação de que os elementos e temas entregues no registro de estreia seriam não apenas expandidos, mas acrescidos por toda uma nova carga de experiências. Doce ilusão.

Entre músicas que refletem o completo domínio em relação à própria obra, Rustie tropeça ao investir em canções arrastadas (Tempest), redundantes (Lets Spiral) e capazes apenas de refletir a imagem de um artista “cansado”. A própria utilização de duas faixas climáticas e completamente similares – Workship e A Glimpse – logo na abertura do álbum resume a ausência de ritmo que define todo o trabalho. Sim, Green Language, como indicado durante o lançamento das primeiras músicas, é um trabalho marcado por algumas boas composições, porém, desorientado.

É compreensível que a grandeza de Glass Swords venha da completa dedicação de Rustie em testar ritmos, arranjos, samples e batidas ao longo de três anos de trabalho. Um tempo de produção quase integral, oposto da recente fase do produtor, dividido entre shows, remixes e projetos desenvolvidos ao lado de outros artistas. Entretanto, nada justifica a repetição de temas que ocupa grande parte do novo álbum. Mesmo a presença dos rappers D Double E (Up Down) e Redinho (Lost) ecoa de forma superficial e desnecessária, criando ruído em bases instrumentais possivelmente detalhadas – caso de Lost. Continue reading

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Disco: “Brill Bruisers”, The New Pornographers

The New Pornographers
Indie Rock/Alternative/Power Pop
http://www.thenewpornographers.com/

Por: Cleber Facchi

Quando você acompanha uma banda responsável por produzir grandes registros em estúdio durante tanto tempo, é mais do que natural se perguntar: “quando é que eles vão errar?”. No caso do The New Pornographers, um coletivo que acumula pelo menos três grandes clássicos do rock independente – Mass Romantic (2000), Electric Version (2003) e Twin Cinema (2005) -, mais de uma década de carreira e um time imenso de colaboradores, o peso e a expectativa de “falha” parece ser ainda maior.

Em Brill Bruisers (2014, Matador / Last Gang), sexto álbum do grupo canadense, o erro não apenas passa longe de arranhar a mente do ouvinte, como o grupo ainda reforça o quanto se mantém em boa forma. Tão enérgico e abastecido de hits quanto qualquer trabalho lançado nos primeiros anos do coletivo, o sucessor do já distante Together (2010) é uma obra desenvolvida para grudar nos ouvidos. Inaugurado pela coleção de vozes em coros e guitarras coloridas da própria faixa-título, cada faixa soa como um refúgio divertido em meio a avalanche de obras também significativas, porém sérias, lançadas por cada integrante nos últimos anos.

Longe da ambientação country-melancólica explorada por Neko Case há poucos meses – em The Worse Things… (2013) -, ou mesmo das melodias lançadas por A.C. Newman em Shut Down The Streets (2012), Brill Bruisers é um registro que funciona dentro de um ambiente particular, típico das festivas/melódicas criações do The New Pornographers. Mesmo nos instantes mais “comportados” do trabalho, representado por War on the East Coast e Spidyr, ambas de Daniel Bejar, nada parece refletir a mesma atmosfera intimista de Kaputt (2011), último trabalho do músico à frente do Destroyer, sua outra banda.

Como a capa colorida bem resume, o sexto álbum do TNP é uma obra pop e sorridente mesmo nos versos mais sérios que ela possa proclamar - como em You Tell Me Where. A julgar pelo uso das harmonias de vozes e guitarras sempre dinâmicas, “radiante” é uma palavra que bem resume a atmosfera construída para o disco. De fato, faixa, após faixa, a coleção de vozes e temas joviais espalhados pelo trabalho resumem bem essa percepção. Continue reading

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Disco: “Foundations of Burden”, Pallbearer

Pallbearer
Metal/Doom Metal/Progressive
http://pallbearerdoom.com/

Por: Cleber Facchi

Em julho, quando entrevistado para a seção Show No Mercy, o baixista Joseph D. Rowland resumiu as extensas faixas de Foundations of Burden como uma interpretação do próprio Pallbearer sobre o pop tradicional. Composições de dez minutos – três vezes a duração de uma música comercial -, ou como ele próprio resumiu em tom jocoso: “a nossa maneira de escrever canções pop”.

Por mais sarcástica que seja a resposta de Rowland, ao finalizar a audição do segundo álbum do quarteto de Little Rock, Arkansas, é justamente essa sonoridade “pop”, tão ironizada pelo instrumentista, que se permanece em eco na cabeça ouvinte. Acessível quando comparado ao som de outros representantes do Doom Metal – antigos ou atuais -, o disco é mais do que uma extensão do material lançado em Sorrow and Extinction, de 2012, mas uma versão refinada e melódica de toda a essência do grupo.

Porção menor dentro de todo esse resultado, é justamente a delicada Ashes a faixa que resume toda a postura da banda com o presente discos. Letra melancólica preenchida por harmonias sutis, arranjos limpos, bateria isolada e confissão. Diferente de outras obras do gênero, sempre atentas à desconstrução das vozes (guturais) e bases (caóticas), há na estrutura que preenche todo o registro uma postura de excelência, como se cada ato, verso ou mínima fração instrumental da obra fosse saboreada pelo grupo.

Naturalmente detalhista, o álbum incorpora a mesma estrutura densa lançada no disco de 2012. De forma a ocupar todos os espaços da obra, as guitarristas Brett Campbell e Devin Holt tecem extensas bases atmosféricas e texturas tomadas pela lisergia – conceito evidente nas melodias arrastadas de Foundations. A diferença em relação ao disco passado está na sutileza dos temas instrumentais, condição expressa nos solos melódicos de cada música (vide Watcher In The Dark), como na voz doce de Campbell, acolhedor não apenas na efemeridade de Ashes, mas em toda a porção descomunal do trabalho. Continue reading

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Disco: “V”, jj

jj
Electronic/Dream Pop/Balearic
http://www.jjuniverse.com/

A colagem de sons instalada na abertura de V (2014, Sincerely Yours), terceiro e mais recente álbum de estúdio do jj serve como aviso sobre a extensa produção que acompanha o trabalho da dupla. Em uma atuação que se distancia de padrões ou possíveis exigências comerciais, o casal Joakim Benon e Elin Kastlander continua a atuar em uma medida de tempo própria, postura que explica os quatro anos de “hiato” desde o último trabalho oficial - jj n° 3 (2010) – e a completa (ou quase isso) mudança de direção no interior do novo álbum.

Ainda que letárgico e acomodado na mesma nuvem de sons “mágicos” do debut jj n° 2 (2009), bastam os minutos iniciais de Dynasti ou Dean & Me, para perceber o novo plano de atuação da dupla. Enquanto vozes e arranjos anteriormente flutuavam em uma atmosfera minimalista, marcada pela execução efêmera dos ruídos e bases, hoje todos os elementos se organizam em uma estrutura nítida de referências, quase previsível. Há planejamento, começo, meio e fim, postura que resume com acerto a proposta atual do duo sueco, porém, abandona aspectos importantes realçados dos primeiros anos do casal.

Com base na sutileza dos temas abordados em faixas como My Love e Ecstasy, tanto o álbum lançado em 2009 como o disco de 2010 apostavam em uma sonoridade efêmera, prendendo o ouvinte pela surpresa e delicadeza dos atos. Do momento em que Things Will Never Be the Same Again inaugura o debut, ou My Life no trabalho seguinte, há sempre a sensação de que os arranjos, vozes e melodias vão se “esfarelar” na cabeça do ouvinte, preso a cada ato sereno que Benon projeta para a voz de Kastlander.

Seja pelo uso de guitarras cruas (All Ways, Always) ou batidas densas (Hold Me), V é uma obra que rompe com o espaço místico dos primeiros discos de forma a percorrer um território muito mais urbano, quase “físico”. É visível como elementos do Rock e Hip-Hop, antes diluídos por entre as canções, agora ocupam um enquadramento de maior destaque ao longo de toda a obra. Mesmo a percussão tribal e uso aprimorado arranjos de cordas dos primeiros álbuns ecoa sob novo formato, visivelmente preciso e esquivo da lisergia natural da dupla. Continue reading

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Disco: “Meshes of Voice”, Susanna & Jenny Hval

Susanna / Jenny Hval
Experimental/Baroque Pop/Alternative
http://susannamagical.com/
http://jennyhval.com/

Por: Cleber Facchi

Quem acompanha a obra de Jenny Hval desde a estreia, com To Sing You Apple Trees (2006), ou a partir de Viscera (2011), quando descoberta por grande parte da imprensa internacional, sabe que o “óbvio” nunca fez parte do trabalho da norueguesa. Mesmo que tenha explorado um som muito mais “pop” em Innocence is Kinky, de 2013, o caráter provocativo – lírico ou sonoro - se mantém o mesmo, expandido e reforçado de maneira complexa a cada novo disco.

Imersa em um cenário tão perturbador quanto o exaltado nos primeiros discos, Hval aparece agora acompanhada pela musicista Susanna Wallumrød. Representante da mesma cena experimental que borbulha em solo norueguês, a artista, também integrante do Magical Orchestra, não apenas partilha dos mesmos conceitos estéticos da conterrânea, como parece estimular o som de Hval a encontrar um novo estágio. Um constante diálogo obscuro que dita as regras e distorce as canções de Meshes of Voice (2014, SusannaSonata), o primeiro álbum em parceria da dupla.

Bloco denso de ruídos, pianos e bases instrumentais sempre aproximadas, o registro parece sobreviver da explícita formatação oculta de suas 15 canções. Diferente da parcial abertura iniciada por Hval em Mephisto In The Water ou mesmo na faixa-título do último álbum, nada ecoa de maneira acessível no decorrer do presente trabalho. Mesmo Susanna, responsável por boas melodias em Wild Dog (2012) e The Forester (2013), parece ressaltar apenas a atmosfera fúnebre que recheia todo o álbum.

Ainda que próximas, inclinadas ao desenvolvimento de um mesmo ambiente musical, tanto Hval como Wallumrød assumem direções opostas e bases musicalmente isoladas ao longo de todo o percurso da obra. Enquanto Hval mantém firme a relação com o presente, confessando o próprio apego ao trabalho de Björk – ouça Medusa -, além de nomes como Joanna Newsom e Julia Holter, a parceira estaciona no passado. De formação erudita, Wallumrød explora desde temas barrocos ao uso de pianos soturnos, esbarrando com naturalidade na obra de Leonard Cohen e Nico, algumas de suas influências confessas. Continue reading

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Disco: “Na Loucura & Na Lucidez”, Tatá Aeroplano

Tatá Aeroplano
Brazilian/Psychedelic/Indie
https://www.facebook.com/tata.aeroplano

Por: Cleber Facchi

Personagem central da própria obra, Tatá Aeroplano sempre encontrou espaço para detalhar o universo místico/boêmio que o cerca. Seja em fase solo ou dentro do ambiente lisérgico tecido com os parceiros do Cerébro Eletrônico, cada verso composto pelo artista se transforma em um curioso e autoral passeio pela noite paulistana. Fragmentos líricos sempre alimentados por histórias de amor, desencontros, brigas e tramas puramente descritivas. Cenário mais uma vez reproduzido em Na Loucura & Na Lucidez (2014, Independente), novo álbum do cantor.

Distante e ao mesmo próximo dos conceitos levantados no debut solo de 2012, Aeroplano explora com acerto a estranheza dos temas sem necessariamente se esquivar da construção de boas melodias. Da mesma forma que no último registro em estúdio da Cérebro Eletrônico, Vamos Pro Quarto (2013), o pop aparece de maneira remodelada no interior do trabalho, solucionando desde faixas acessíveis ao público médio (Entregue a Dionísio), como músicas nutridas pelo som naturalmente experimento do compositor (Na Lucidez).

De todos as mudanças em relação ao discos passado, o dinamismo em faixas que revelam histórias complexas parece ser o ponto de maior acerto do trabalho. Econômico, Tatá escapa de faixas arrastadas como Par de Tapas que Doeu em Mim, do disco passado, mantendo a atenção do ouvinte em alta durante todo o percurso. Exemplo autêntico desse resultado está na cômica Amiga do Casal de Amigos. Esculpida em arranjos versáteis que se moldam aos atos dos personagens, a faixa cresce ao mesmo tempo em sua história, sem necessariamente perder os versos e bases feitas para encantar o ouvinte. Como explicou em entrevista, Aeroplano finalmente entendeu o próprio método de composição, concentrando todos os elementos de cada faixa em um mesmo espaço criativo.

Observado em comparação, Na Loucura & Na Lucidez talvez seja o registro mais “fácil” de Aeroplano desde a coleção de hits em Pareço Moderno, de 2008. Mesmo nos instantes mais perturbadores do disco, como na inaugural Na Loucura, há sempre um expressivo condimento “pop” que serve de encantamento para as faixas – excêntricas e atrativas na mesma medida. São versos que se repetem, um refrão pegajoso ou solo de guitarra instalado como referência. Âncoras melódicas no turbilhão brega-psicodélico que logo se espalha pelo registro. Continue reading

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Disco: “The Number Ones”, The #1s

The #1s
Indie Rock/Power Pop/Garage Rock
https://www.facebook.com/thenumberonesdublin

Por: Cleber Facchi

De todos os aspectos que marcaram a primeira leva de artistas no começo dos anos 2000, o toque descompromissado dos arranjos e versos ainda permanece como o mais atrativo. Seja na crueza do rock norte-americano ou nos excessos lisérgicos da cena britânica, acertou quem investiu em um som rápido, simples e essencialmente divertido. É dentro dessa mesma atmosfera que o quarteto irlandês The #1s encontra refúgio e inspiração para o mais novo trabalho em estúdio, o enérgico The Number Ones (2014, Ones Deranged / Static Shock).

Assim como Is This It (2000) do Strokes ou Up The Bracket (2002) do Libertines, nada do que a banda de Dublin apresenta ao longo do trabalho pode ser encarado como “original”. Do esforço coletivo de Eddie Kenrick, Seán Goucher, Conor Lumsden e Cian Nugent traços musicais da década de 1970 – Buzzcocks, The Stooges – e 1980 – The Replacements – se acomodam dentro de um acervo de reciclagens autorais. Um cenário onde versos alcoólicos, confissões e berros que proclamam apenas um único sentimento: diversão.

De fato, “diversão” parece ser a palavra que imediatamente salta na cabeça do ouvinte tão logo os primeiros acordes de I Wish I Was Lonely têm início. São composições aos moldes de Favorite Game e Anything – de até dois minutos – em que o imediatismo dos elementos arrastam o ouvinte para o contexto do disco. Nada de produção atenta, horas em estúdio ou elementos ordenados de forma a provocar o espectador. Tão cru e efêmero quanto o cassete que apresentou a banda – Italia ’90 (2011) -, o material do presente disco parece feito para explodir em segundos.

Mesmo nutrido pelo espírito punk – natureza confessa nas influências e entrevistas do grupo -, The Number Ones é um trabalho que jamais parece “fugir do controle”. Como as guitarras recheadas de I Wish I Was Lonely ou mesmo os atos sutis de Sharon Shouldn’t reforçam, há sempre planejamento por trás de cada criação. Não por acaso comparações ao álbum Guitar Romantic (2003) da (falecida banda) The Exploding Hearts surgem eventualmente – efeito natural do contraste entre boas melodias (de voz) e cargas expressivas de acordes sujos. Continue reading

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Disco: “Gist Is”, Adult Jazz

Adult Jazz
Experimental/Indie/Art Rock
https://www.facebook.com/adultjazz

Por: Cleber Facchi

Por mais irônico que o título “Adult Jazz” possa parecer, não existe termo mais correto para traduzir o som proposto pelo grupo britânico em Gist Is (2014, Spare Thought). Efeito da coleção de ideias que ocupa a mente de cada integrante da banda – principalmente o vocalista e líder Harry Burgess -, cada ato do registro ecoa pensado de forma a provocar as percepções do ouvinte. Manipulações e pequenos improvisos que esbarram o território mais rico de qualquer clássico do jazz, mas em nenhum momento escapam do fino apelo “pop” da presente cena alternativa.

Mesmo carregado de comparações ao trabalho de Dirty Projectors e Grizzly Bear desde o single Springful, Gist Is é uma obra que escapa do território norte-americano e se concentra apenas no cenário inglês. Da herança do Pós-Rock conquistada pelo Talk Talk (ainda nos anos 1980), passando pela obra do Radiohead pós-Kid A, até alcançar o mesmo espaço de Foals (em Total Life Forever, 2010) e These New Puritans, cada fórmula dos novatos se acomoda em um expressivo terreno familiar.

Observado de forma atenta, cada ato do registro autoriza que a banda resgate uma série de conceitos há meses aperfeiçoados pelo These New Puritans no terceiro álbum de estúdio da banda, Field of Reeds, 2013. Mesmo o uso de colagens eletrônicas, percussão e samples de Spook ou Pigeon Skulls ecoam similaridades óbvias e já reforçadas em Hidden, trabalho de 2010 da mesma banda. Sobram ainda diálogos com o disco de estreia do Alt-J (An Awesome Wave, 2012) e até referências vindas de Two Dancers (2009) ou Smother (2011), da também vizinha Wild Beasts.

Interessante notar que dessa colcha de retalhos nasce todo o plano autoral do Adult Jazz. Mesmo apoiadas em um acervo de sons e fórmulas pré-fabricadas, cada (extensa) criação do álbum logo se distancia de um possível limite instrumental. São bases serenas que engatam em batidas tribais (Springful), vocalizações pop distorcidas pelo math-rock (Hum), e todo um conjunto de experiências – mesmo aquelas apresentadas nos primeiros singles – que logo passeiam por labirintos de curvas e sons completamente inexatos. Continue reading

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Disco: “Vozes”, Cadu Tenório

Cadu Tenório
Experimental/Ambient/Electronic
http://victimnoise.bandcamp.com/
http://sinewave.com.br/

Por: Cleber Facchi

Desde o lançamento de Pulso, faixa mais “volátil” encontrada no álbum de 2012 do Sobre A Máquina, que a vontade de Cadu Tenório em diluir novas tendências “eletrônicas” parecia reforçada pelo músico. Não por acaso em Lua (2013), obra lançada pelo Ceticências logo no ano seguinte, Tenório e o parceiro Sávio de Queiroz aproveitaram do espaço para ampliar ainda mais esse aspecto “sintético” das canções – expressivo em cada faixa do álbum. É justamente dentro dessa atmosfera que nasce o recém-lançado Vozes (2014, Sinewave), mais novo invento solo do produtor carioca e base para a trama sutil lentamente exposta nos quatro atos do registro.

Mesmo acomodado em uma trama de experimentos eletrônicos, Vozes, como o próprio logo entrega, é um trabalho marcado pela expressiva colagem e manipulação de vocais. Seja na abertura, com a extensa Fragmentos, aos ruídos finais de Lamento e Bebê, Tenório aos poucos se esquiva do uso característico de bases experimentais – típicas do Drone / Dark Ambient – para investir em um contexto muito mais “humano”, sempre “orgânico” – premissa para o cenário de contraste que conduz a obra.

A diferença em relação ao exercício já proposto em músicas como Prematuro, do álbum Cassettes (2014), está no completo destaque aos retalhos de voz. Do loop etéreo na faixa de abertura, passando pelos gritos sussurrados de Procissão ao uso de palavras como “violência” e “bebê”, os vocais lentamente assumem o controle da “trama” imposta ao disco. Mais do que uma ferramenta de movimento – como no trabalho anterior -, Tenório encontra na voz um ponto de distanciamento do “personagem” sombrio antes ressaltado em projetos como Sobre a Máquina e VICTIM!. Trata-se da obra mais sutil e, naturalmente, acessível já lançada pelo músico.

Ao mesmo tempo em que reforça um conjunto de (novos) traços autorais, Vozes é um trabalho em que as influências de Tenório ecoam de forma expressiva. Entre pequenas reciclagens de conceitos, o músico vai além do hermetismo sombrio de The Haxan Cloak e Tim Hecker, mergulhando de cabeça no território de Richard David James e todo o abrangente catálogo lançado pelo Aphex Twin. De fato, bastam os primeiros minutos de Fragmentos para notar a ponte que leva o ouvinte até Cliff e todo o material entregue há duas décadas em Selected Ambient Works Volume II (1994), inspiração evidente em cada faixa do novo disco. Continue reading

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