Artista: Kiko Dinucci
Gênero: Rock, Alternativo, Experimental
Acesse: http://kikodinucci.com.br/

 

“Ele é mais filme do que disco, ouça numa tacada só, ouça em volume alto se for possível”, escreveu Kiko Dinucci no texto de lançamento de Cortes Curtos (2017, Independente). Produzido em um intervalo de apenas quatro dias, em setembro do último ano, o primeiro registro em carreira solo do cantor e compositor paulistano cresce como um imenso bloco de ruídos, gritos, histórias e personagens. Uma versão caótica, naturalmente punk, do mesmo universo conceitual que Dinucci vem desbravando em projetos como Metá Metá e demais registros colaborativos na última década.

Pensado sob a ótica de uma película cinematográfica, Cortes Curtos se revela como uma verdadeira coleção de imagens sonoras. Fragmentos visuais, narrativos e acústicos que observam diferentes aspectos da cidade de São Paulo, seus habitantes e toda uma sequência de acontecimentos mundanos. Personagens como a musa romantizada em A Morena do Facebook (“Ela é mais bonita que a foto do perfil / Enquanto se aproxima / Com seu andar macio”), ou mesmo o conflito preconceituoso que explode na descritiva Uma Hora da Manhã (“O que você tá falando de nordestino? / Sou nordestina sim, com muito orgulho”).

“Eu fui criando as canções nessa São Paulo horrorosa, racista, reacionária, opressora, que faz as pessoas adoecerem e se deprimirem”, explicou Dinucci em entrevista à Noisey. De fato, quanto mais o trabalho avança, mais ou ouvinte é arrastado para dentro desse ambiente tomado pela desesperança e sorrisos curtos, quase inexistentes. Um cenário dominado pela atmosfera cinza dos prédios e a permanente relação de proximidade com a morte, proposta escancarada nos versos suicidas de Vazio da Morte — “Matias queria se jogar / Do alto do prédio do Banespa”.

Tamanha angústia acaba se refletindo na composição dos arranjos e curvas rítmicas que movimentam o trabalho. Parcialmente distante do samba sujo incorporado pelo Metá Metá, Elza Soares e outros projetos que contam com o pulso firme de Dinucci, Cortes Curtos estreita de forma explícita o diálogo do músico com o rock e suas variações. Logo na abertura do disco, em No Escuro, uma avalanche de sons distorcidos, batidas e vozes violentas, estímulo para toda a sequência de faixas que se espalham no decorrer da obra, entre elas, a insana Desmonto Sua CabeçaCrack Para Ninar.

Continue Reading "Resenha: “Cortes Curtos”, Kiko Dinucci"

Artista: Hierofante Púrpura
Gênero: Rock Alternativo, Psicodélico, Experimental
Acesse: https://hierofantepurpura.bandcamp.com/

Foto: Hendi DuCarmo

“Seremos a banda do ano?”, pontua o coro de vozes ensandecidas nos instantes finais de Cachorrada. Ainda que o questionamento seja apenas um fragmento complementar à cômica narrativa assinada por Danilo Sevali, difícil passear pelas canções de Disco Demência (2016, Balaclava Records), mais recente álbum da Hierofante Púrpura, e não perceber o registro como um dos trabalhos mais significativas da cena independente nos últimos meses.

Resultado da ativa interferência de cada integrante da banda – além de Sevali (voz, teclados, guitarra), completa com Helena Duarte (baixo, voz), Gabriel Lima (guitarra, voz) e Rodrigo Silva (bateria) –, o álbum construído a partir de cinco composições extensas reflete o que há de melhor no material produzido pelo grupo de Mogi das Cruzes: a loucura. Em um intervalo de apenas 40 minutos, cada canção se transforma em um experimento torto, insano.

Um bom exemplo disso está na curiosa montagem de Acalenta Lua, segunda faixa do disco. Inaugurada pelo canto arrastado dos integrantes, a canção de melodias inebriantes se espalha sem pressa, detalhando delírios típicos do trabalho de Arnaldo Baptista no clássico Lóki? (1974). No segundo ato da canção, uma quebra brusca. Pianos melancólicos que flutuam em meio ao som ruidoso que escapa das guitarras de Lima. Distorções, batidas e vozes que dançam em meio a pequenas curvas rítmicas.

Mesmo que a relação com o trabalho de gigantes da música psicodélica seja percebida durante toda a construção da obra, faixa após faixa, o quarteto paulista se concentra na formação de uma identidade musical própria. No interior de cada composições, diferentes blocos instrumentais, sempre complexos, ricos em detalhes e texturas. Uma constante sensação de que pequenos fragmentos vindos de diversas canções foram espalhados de forma aleatória no interior do trabalho.

Continue Reading "Resenha: “Disco Demência”, Hierofante Púpura"

Artista: Lambchop
Gênero: Alt. Country, Indie, Alternativo
Acesse: http://www.lambchop.net/

 

Lançado em outubro de 2008, OH (Ohio) deu ao Lambchop a possibilidade de se reinventar em estúdio. Entre melodias eletrônicas e temas minimalistas, a voz sublime de Kurt Wagner, dono de uma poesia essencialmente intimista, romântica. Longe de parecer um exercício isolado, o registro acabou servindo de base para um novo catálogo de obras, proposta explícita no lançamento do delicado Mr. M, em 2012 e, principalmente com a chegada de Flotus (2016, City Slang / Merge Records).

Mais recente trabalho de inéditas do coletivo de Nashville, Flotus – o título é uma abreviação da frase “For Love Often Turns Us Still” –, segue exatamente de onde o grupo parou há quatro anos. São versos confessionais, medos, confissões românticas e pequenos tormentos existencialistas que se espalham em cima de uma fina tapeçaria instrumental. Uma fuga constante do som produzido pela banda em clássicos como How I Quit Smoking (1996) e Nixon (2000).

Apresentado ao público durante o lançamento da extensa The Hustle, música de encerramento do disco e um minucioso ato com quase 20 minutos de duração, o álbum de 11 composições inéditas funciona dentro de uma medida própria de tempo. Sem pressa, Wagner e os parceiros de banda detalham arranjos econômicos de guitarras, batidas eletrônicas, sintetizadores e vozes sussurradas, conduzindo o ouvinte pelos corredores de um imenso labirinto musical.

Íntimo da mesma ambientação explorada por nomes como Justin Vernon (Bon Iver, Gayngs) e Matthew Houck (Phosphorescent), Wagner faz de cada composição ao longo do disco uma curiosa visita ao passado. Músicas como Directions To The Can e In Care Of 8675309, conceitualmente próximas da sonoridade produzido por Burt Bacharach e outros veteranos do Easy Listening. Canções tão delicadas e sensíveis que parecem se desfazer durante a audição.

Continue Reading "Resenha: “Flotus”, Lambchop"

 

Um ano após o lançamento do álbum Macumba Afrocimética (2015), obra que acabou passando despercebida para muita gente, os integrantes da banda cuiabana Macaco Bong estão de volta com um novo registro de inéditas. Autointitulado, o trabalho de apenas oito faixas mostra a busca do grupo – hoje formado por Bruno Kayapy (guitarras), Daniel Hortides (baixo) e Daniel Fumegaladrão (bateria) – em provar de novas sonoridades.

Com uma capa repleta de colagens e cores saturadas, trabalho do próprio Kayapy, o registro acaba indicando a direção seguida pelos três integrantes da banda, cada vez mais próximos da década de 1990 e do som produzido por bandas como Fugazi e outros veteranos do mesmo período. Com distribuição pelo selo Sinewave – casa de artistas como Cadu Tenório, Kalouv e Huey –, o novo álbum da Macaco Bong pode ser baixado gratuitamente.

 

Macaco Bong – Macaco Bong

Continue Reading "Macaco Bong: “Macaco Bong”"

 

Estão prontos para um novo álbum do Japandroids? Quatro anos após o lançamento do ótimo Celebration Rock – 8º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2016 –, Brian King e David Prowse anunciam a chegada de um novo registro de inéditas, o terceiro na carreira da banda. Intitulado Near To The Wild Heart Of Life (2017), o disco previsto para janeiro do próximo ano conta com oito novas composições, incluindo a intensa faixa-título, primeiro exemplar do trabalho apresentado ao público.

Como tudo que o Japandroids vem produzindo desde o primeiro álbum de inéditas, Post-Nothing, de 2009, a nova composição mantém firme a crueza dos arranjos, detalhando vozes em coro, versos melódicos e o constante embate entre as guitarras de King e a bateria insana de Prowse. São quase cinco minutos de distorções, batidas e versos pegajosos, esbarrando na mesma atmosfera do hit The House That Heaven Built.

Near To The Wild Heart Of Life (2017) será lançado no dia 27/01 via Anti-.

 

Japandroids – Near To The Wild Heart Of Life

Continue Reading "Japandroids: “Near To The Wild Heart Of Life”"

 

Em uma sequência de grandes lançamentos que inclui Attack On Memory (2012), Here and Nowhere Else (2014) e No Life For Me (2015), este último, uma parceria com o Wavves, Dylan Baldi anuncia a chegada de um novo álbum de estúdio do Cloud Nonthings. Intitulado Life Without Sound, o registro previsto para janeiro de 2017 conta com produção assumida por John Goodmanson (Sleater-Kinney, Death Cab For Cutie) e um acervo de nove canções inéditas.

Composição escolhida para apresentar o novo disco, Modern Act soa como tudo que Baldi vem produzindo nos últimos seis anos. Uma verdadeira colagem de referências, ruídos e melodias essencialmente nostálgicas que apontam para o final dos anos 1990. A constante sensação de que nomes como Sunny Day Real Estate, Fugazi, The Dismemberment Plan e outros projetos ativos durante o período acabaram se encontrando dentro de estúdio.

Life Without Sound (2017) será lançado dia 27/01 via Carpark/Wichita.

 

Cloud Nothings – Modern Act

Continue Reading "Cloud Nothings: “Modern Act”"

Artista: INKY
Gênero: Rock, Indie Rock, Rock Alternativo
Acesse: http://inkymusic.bandcamp.com/

 

Quem já assistiu a um show da INKY —mesmo sem conhecer as canções da banda — sabe como é fácil ser hipnotizado pela eufórica performance do quarteto paulistano. Paredões de guitarras em um constante duelo com o baixo de Guilherme Silva, o ritmo frenético das batidas que se projetam como um alicerce para os sintetizadores insanos de Luiza Pereira. Interessante perceber em Animania (2016, Uivo Records), segundo álbum de inéditas do grupo, uma completa transposição da mesma energia das canções apresentadas vivo para dentro de estúdio.

Sucessor do elogiado Primal Swag, de 2014, o novo registro cresce como a fuga declarada de uma possível zona de conforto. Parcialmente livre do conceito “eletrônico” que parecia direcionar o trabalho entregue pela banda há dois anos, o álbum de oito faixas cresce em um perfeito diálogo entre o uso de elementos sintéticos e detalhes orgânicos, efeito da ativa interferência de elementos percussivos e instrumentos de sopro que passeiam de forma expressiva ao fundo do trabalho.

Assertivo do primeiro ao último instante, Animania é uma obra que se esquiva de possíveis excessos. Dos versos ao uso detalhado dos instrumentos, nada parece descartável no interior do álbum. Cada uma das composições presentes no interior do disco estão ali por algum motivo. Do momento em que a crescente Parallax convida o ouvinte a dançar, parece difícil escapar da solução descomplicada de vozes, batidas e temas urgentes que escapam com naturalidade das guitarras de Stephan Feitsma.

Com produção de Guilherme Kastrup – músico que trabalhou com Elza Soares no elogiado A Mulher do Fim do Mundo (2015) –, o sucessor de Primal Swag reforça o interesse da banda em provar de novas sonoridades. Em Devil’s Mark, segunda faixa do disco, um perfeito exemplar da fina transformação assumida pelo grupo. Entre sintetizadores sujos, a passagem para a chegada de um naipe de metais orquestrados por membros do Bixiga 70. Estímulo para a formação de um som versátil, quente, quase uma desconstrução do material lançado há dois anos pelo grupo.  

Continue Reading "Resenha: “Animania”, INKY"

Depois de um disco como Bitter Rivals (2013), parecia difícil acreditar que o Sleigh Bells pudesse produzir um álbum tão caótico e sujo quanto os iniciais Treats (2010) e Reign of Terror (2012). Entretanto, o equilíbrio entre o pop e o rock em músicas como Rule Number One e, principalmente, Hyper Dark acabaram mudando essa percepção. Parte do novo álbum de inéditas da dupla, Jessica Rabbit (2016), as duas canções acabam de contar com um novo apoio: It’s Just Us Now.

Possivelmente a melhor composição da banda desde o álbum lançado em 2012, a nova faixa cresce em uma sequência controlada de ruídos, fruto das guitarras de Derek E. Miller, passa pelo uso de batidas tortas e ainda se abre para a voz limpa de Alexis Krauss, tão intensa e íntima do público quanto qualquer nome de peso do pop atual. Pouco mais de três minutos em que o Sleigh Bells mostra como seria o encontro entre Taylor Swift e Metallica em estúdio.

Jessica Rabbit (2016) será lançado no dia 11/11.

Sleigh Bells – It’s Just Us Now

Continue Reading "Sleigh Bells: “It’s Just Us Now”"

Por: Cleber Facchi / Arte: André Murched

20 discos

Definitivamente o ano de 1994 foi positivo para a música. Enquanto o Brasil viu nascer um dos maiores movimentos culturais da história do país – o manguebeat -, no exterior, o rock alternativo tomava conta das principais paradas de sucesso. Também foi o ano do R&B – representado pelas meninas do TLC -, o ano em que o trip-Hop foi oficialmente apresentado ao mundo – com o Portishead – e o início da grande batalha do britpop que envolveria as bandas Oasis e Blur.

Para celebrar os 20 anos de lançamento de obras tão icônicas como Da Lama Ao Caos, do grupo recifense Chico Science & Nação Zumbi, Dookie do Green Day e o primeiro trabalho de estúdio do Raimundos, fomos atrás de uma seleção com 20 obras essenciais para entender a música lançada em 1994. Menções honrosas para: Monster do R.E.M., The Holy Bible do Manic Street Preachers, Bee Thousand do Guided By Voices, Vitalogy do Pearl Jam e outras obras que (infelizmente) acabaram de fora da seleção final.

Continue Reading "20 Discos que completam 20 anos em 2014"