Sampha não poderia ter pensado em um título melhor para o single (No One Knows Me) Like The Piano. Parte do esperado primeiro álbum de estúdio do cantor e compositor britânico, Process (2017), a canção movida pelo uso de pianos melancólicos, sempre intimistas, sintetiza com naturalidade os instantes de forte melancolia que há meia década alimentam o trabalho do músico. Canções como a dolorosa Too Much, de 2013, movida apenas pela voz e piano, tal qual a recente faixa.

Entregue ao público poucos meses após o lançamento da intensa Blood On Me, uma das melhores músicas de 2016,(No One Knows Me) Like The Piano indica o caminho versátil assumido por Sampha dentro do primeiro grande registro de inéditas. Com dois bons EPs em mãos – Sundanza (2010) e Dual (2013) –, e trabalhos assinados em parceria com artistas como Drake, Frank Ocean e Solange, a estreia do músico britânico ainda conta com distribuição pelo selo Young Turks, casa de artistas como The XX e FKA Twigs.

Process (2017) será lançado no dia 03/02 via Young Turks.

 

Sampha – (No One Knows Me) Like The Piano

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É difícil escapar dos trabalhos produzidos pela cantora e compositora britânica Laura Marling. Dona de uma sequência de grandes obras – caso dos recentes Once I Was an Eagle (2013) e Short Movie (2015) –, a musicista de Berkshire anuncia para o começo de março a chegada de um novo registro de inéditas. Intitulado Semper Femina (2017), o trabalho que conta com a excelente Soothing, lançada em 2016, acaba de ser reforçado com a também inédita Wild Fire.

Ora cantada, ora declamada, a música que utiliza de arranjos sutis e batidas sempre contidas mostra a força do trabalho de Marling, sempre intimista, romântica e sensível. Enquanto os versos buscam apoio na boa safra do Folk produzido na década de 1970, difícil não lembrar de Fiona Apple e obras como Extraordinary Machine (2005) ou The Idler Wheel… (2012) na composição atmosférica da faixa, sonoridade também explorada em Soothing.

Semper Femina (2017) será lançado no dia 10/03 via More Alarming Records.

 

Laura Marling – Wild Fire

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Com leveza e certa dose de melancolia, Julie Byrne passou as últimas semanas preparando o terreno para o inédito Not Even Happiness (2017). Mais recente trabalho de estúdio da cantora e compositora nova-iorquina, o sucessor de Rooms With Walls and Windows (2014) indica um claro amadurecimento por parte da artista, transformação explícita no detalhamento de músicas como Natural Blue, Follow My Voice e, mais recentemente, a delicada I Live Now As A Singer.

Flutuando em uma nuvem de melodias atmosféricas, Byrne não apenas reforça o diálogo com diferentes nomes do folk norte-americano, como Angel Olsen e Cat Power, como assume uma sonoridade própria, quase etérea. São arranjos acústicos que se espalham em meio a sintetizadores densos, por vezes íntimos do trabalho de Angelo Badelamenti na trilha sonora de Twin Peaks. Nos versos, a busca declarada pela libertação e um lugar para chamar de “casa”.

Not Even Happiness (2017) será lançado no dia 27/01 via Ba Da Bing.

 

Julie Byrne – I Live Now As A Singer

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Dono de um dos melhores discos lançados na década passada, Night Falls Over Kortedala (2007), o cantor e compositor sueco Jens Lekman está de volta com um novo registro de inéditas. Intitulado Life Will See You Now (2017), o álbum de apenas dez faixas é o primeiro trabalho do músico desde o ótimo I Know What Love Isn’t, de 2012. Para anunciar o disco, Lekman apresenta What’s That Perfume You Wear?, faixa que indica a direção seguida no restante da obra.

Entre melodias descomplicadas, íntimas dos principais trabalhos produzidos pelo músico, a canção de quase quatro minutos lentamente se abre para a inclusão de batidas, guitarras ensolaradas e temas eletrônicos. A mesma atmosfera tropical, quente, originalmente testada por Lekman dentro do EP An Argument with Myself, lançado em 2011. Nos últimos anos, o cantor ainda apresentou uma série de composições avulsas e até uma mixtape intitulada MMJD, em 2014.

 

Life Will See You Now

01 To Know Your Mission
02 Evening Prayer
03 Hotwire the Ferris Wheel
04 What’s That Perfume You Wear?
05 Our First Fight
06 Wedding in Finistère
07 How We Met, The Long Version
08 How Can I Tell Him
09 Postcard #17
10 Dandelion Seed

Life Will See You Now (2017) será lançado no dia 17/02 via Secretly Canadian.

 

Jens Lekman – What’s That Perfume That You Wear?

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No dia 25 de fevereiro deste ano, o clássico Either/Or (1997), um dos principais trabalhos do cantor e compositor norte-americano Elliott Smith completa duas décadas de lançamento. Para celebrar a data, o selo Kill Rock Stars, por onde foram lançados alguns dos principais registros do músico, anuncia uma edição especial e remasterizada da obra. Além das 12 versões originais do disco, a nova versão do álbum ainda conta com uma seleção de faixas inéditas.

Uma das canções que recheiam o trabalho, I Figured You Out mostra toda a sutileza do som produzido por Smith. Entre versos intimistas, arranjos econômicos, semi-acústicos, se espalham lentamente ao fundo da composição, como um complemento à voz tímida do cantor. Concebida durante o processo de produção do disco, a nova faixa ainda chega acompanhada de outras oito canções inéditas, parte expressiva delas forma por versões caseiras e gravadas ao vivo.

Either/Or: Expanded Edition (2017) será lançada no dia 10/03 via Kill Rock Stars.

 

Elliott Smith – I Figured You Out

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Lentamente, o repertório produzido pelo cantor e compositor fluminense Licio se amplia. Dono de um reservado acervo de faixas marcadas pela leveza dos versos e arranjos, caso de Eu Não Sei Nadar e G áve a, o músico anuncia para o ano de 2017 a chegada de um novo álbum de inéditas. Ainda sem título, o trabalho resume na fluidez tímida e captação ao vivo de À Árvore parte das experiências que devem ser exploradas pelo artista nos próximos meses.

Misto de homenagem e despedida, a música detalha uma sequência de versos que aproximam o ouvinte da Casa da Árvore, uma residência artística no Rio de Janeiro onde já passaram nomes de destaque como Momo, Lucas Vasconcellos e Rubel. Para a captação da faixa, um trabalho em conjunto entre a produtora e fotógrafa Fharah Mahrmud e o diretor João Arthur. Uma seleção de imagens acolhedoras que dialoga com a voz e os arranjos tímidos da canção.

 

Licio –  À Árvore

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Pouco mais de um ano após o lançamento do segundo álbum em carreira solo, Inverno (2015), o cantor e compositor Marcelo Perdido está de volta com um novo registro de inéditas. Reflexo da mudança do artista para Portugal, Bicho (2016) entrega ao público uma sequência de faixas marcadas pela transformação, despedida e saudade. Um repertório econômico, apenas dez composições que rapidamente transportam o ouvinte para dentro do universo particular de Perdido.

Além da psicodélica Muda, composição entregue ao público há poucas semanas, o trabalho ainda conta com uma sequência de faixas como a delicada (e descritiva) Passarinha, música que flutua entre o romantismo e fragmentos do cotidiano. Sobram ainda canções aos moldes de Primavera em Mim, parceria com João Erbetta, e a caseira Empate, música assinada em parceria com o lusitano Filipe Sambado, também produtor do álbum.

 

Marcelo Perdido – Bicho

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Artista: Silva
Gênero: Pop, Eletrônica, R&B
Acesse: http://www.silva.tv/

 

Em setembro de 2015, Silva deu início a um novo e inusitado projeto. Durante duas noites no SESC Vila Mariana, em São Paulo, uma homenagem à cantora e compositora carioca Marisa Monte. No repertório, músicas como Beija Eu e Não É Fácil, fragmentos do lado pop da artista, conceito explícito em obras como o Mais (1991) e Memórias, Crônicas e Declarações de Amor (2000). Delicada continuação desse trabalho, o recém-lançado Silva Canta Marisa (2016, Slap) lentamente sintetiza toda a admiração do músico capixaba em relação à obra da veterana da MPB.

Quarto álbum de estúdio de Silva, o sucessor do mediano Júpiter (2015) mostra a busca do artista em produzir um som cada vez mais comercial, pop, íntimo do grande público. Entre peças radiofônicas, como Ainda Lembro e Não Vá Embora, a particular adaptação de quase três décadas da rica trajetória de Monte. Composições que vão do clássico Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão, de 1994, até o recente O Que Você Quer Saber de Verdade (2011), último registro de inéditas da cantora.

Em um jogo de batidas e bases minimalistas, versos que detalham a poesia envolvente de Monte. Estão lá canções pegajosas e comercialmente bem-recebidas, caso de Eu Sei e Não Vá Embora, além, claro, de outras pouco conhecidas, mas não menos significativas. Um bom exemplo disso é a melancólica Pecado É Lhe Deixar De Molho, música originalmente gravada em parceria com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown para o álbum dos Tribalistas, mas que se transforma na ambientação serena e sintetizadores econômicos da remodelada composição.

De fato, a economia dos arranjos, por vezes íntimos do R&B/Soul, acaba se revelando como o grande charme da obra. Difícil não lembrar de artistas como The XX e James Blake ao passear pelas batidas de Infinito Particular. Décima faixa do disco, Verdade, Uma Ilusão encanta pelo som empoeirado que escapa das guitarras e vozes de Silva. No samba O Bonde do Dom, originalmente gravado em Universo ao Meu Redor, de 2006, sintetizadores e batidas secas que se dobram de forma a cercar os versos tímidos da canção.

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Artista: Filipe Alvim
Gênero: Indie, Lo-Fi, Alternativo
Acesse: https://filipealvim.bandcamp.com/

Foto: Tamires Orlando

Romântico, cafona, sensível. Em Beijos (2016, Pug Records), primeiro álbum de inéditas em três anos, o cantor e compositor mineiro Filipe Alvim faz de cada composição ao longo do registro um fragmento marcado pela confissão. Entre sussurros melancólicos (“Você pensa que está bom / Mas podia estar melhor”) e versos essencialmente intimistas (“Você tem / O poder / Sobre mim”), a construção de um trabalho que parece feito para grudar na cabeça do ouvinte.

Inaugurado pelos dramas e versos atormentados de Vida Sem Sentido, faixa de abertura do disco, o sucessor de Zero EP (2013) mais uma vez posiciona Alvim como personagem central de uma obra marcada pela desilusão. Enquanto os arranjos de guitarra se desmancham lentamente, revelando um som empoeirado, íntimo dos trabalhos de Mac DeMarco e outros românticos do rock atual, uma solução de versos amargos aponta a direção seguida em grande parte do trabalho.

Dividido entre músicas rápidas e versos arrastados, sempre dolorosos, Alvim joga com os sentimentos – dele e do próprio ouvinte. São versos curtos, sequências de duas ou três palavras, como se o cantor brincasse com o significado oculto em cada uma das canções. Declarações de amor, medos e delírios que se entrelaçam em meio ao movimento rápido das guitarras, tão íntimas do pop rock dos anos 1980, quanto de novatos como Connan Mockasin e Séculos Apaixonados.

Ela é poderosa / Me fascina / Ela é poderosa / Me deixa ficar”, desaba em Poderosa, música que flutua entre a submissão e a libertação do eu lírico. Em Jaula, sexta faixa do disco, retalhos poéticos e pequenas indecisões – “Não perde / Não volta / Não cola / Amassa / Abafa / Sufoca”. Na rápida Cama Redonda, uma letra que se divide entre o tédio (“Nesse bode de hoje eu fiquei”) e a melancolia (“Perdi o gosto das coisas”). Diferentes conflitos de um mesmo personagem.

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Artista: Leonard Cohen
Gênero: Folk, Singer-Songwriter, Blues,
Acesse: https://www.leonardcohen.com/

 

A voz talhada pelo tempo, arranjos e batidas sempre contidas, por vezes minimalistas, reforçando a atmosfera soturna e o tom confessional que sustenta de cada fragmento poético. Em You Want It Darker (2016, Columbia), 14º álbum de estúdio do cantor e compositor canadense Leonard Cohen, referências religiosas, a relação com a morte, medos e reflexões existencialistas se espalham ao fundo do trabalho, resultando em um novo e bem-sucedido capítulo dentro da extensa discografia do veterano.

Estou pronto para morrer. Espero que não seja desconfortável”, disse Cohen em um recente artigo escrito pelo jornalista David Remnick para a revista The New Yorker. Em You Want It Darker, o diálogo com a morte se estende do primeiro ao último instante da obra. São versos maquiados pelo uso de metáforas e referências particulares, mas que acabam funcionando como um aceno melancólico, referência explícita na dolorosa Traveling Light – “Boa noite, minha estrela cadente / Outrora tão brilhante, minha estrela cadente”.

Íntimo da morte, porém, nunca pessimista, apenas sereno, o registro de apenas nove faixas segue exatamente de onde Cohen parou nos dois últimos álbuns de estúdio, Old Ideas (2012) e Popular Problems (2014). São versos declamados, sempre densos, como devaneios e pequenas interpretações sobre a própria vida. Um ato sorumbático, por vezes fúnebre, proposta que acaba aproximando o trabalho do mesmo universo de temas incorporados por David Bowie no derradeiro Blackstar (2016).

Em Treaty, segunda faixa do disco, versos que brincam com a interpretação do ouvinte. Referências, adaptações e símbolos ocultos que tanto fazem da composição uma triste confissão romântica, como um diálogo do eu lírico com Deus – “Eu gostaria que houvesse um tratado / Entre o seu amor e o meu”. O mesmo conceito religioso acaba se repetindo em outros instantes do disco, como na homônima canção de abertura do álbum, música marcada pelo explícito uso de citações bíblicas.

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