Em quase duas décadas de atuação, Svein Berge e Torbjørn Brundtland sempre encararam o Röyksopp como um projeto de puro experimento, proposta que em nenhum momento impediu a dupla norueguesa de testar novas sonoridades e temas dançantes. Em Never Ever, mais recente lançamento dos produtores, uma perfeita representação do lado “pop” da dupla, capaz de mergulhar nas pistas de forma essencialmente leve e, ao mesmo tempo, criativa.

Produzido em parceria com a cantora Susanne Sundfør, artista que colaborou com a dupla durante o lançamento do álbum The Inevitable End (2014), último registro em estúdio do Röyksopp, a nova faixa mostra toda a capacidade da dupla em produzir uma canção movida pela leveza dos sintetizadores e vozes. São pouco mais de três minutos em que uma avalanche de sintetizadores e a voz limpa de Sundfør, no melhor estilo La Roux, parecem convidar o ouvinte para dançar.

 

Röyksopp: “Never Ever” (Feat. Susanne Sundfør)

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A paixão de Kurt Feldman pela década de 1980 se revela com naturalidade no mais recente álbum do Ice Choir: Designs In Rhythm (2016). Segundo e mais novo registro de inéditas do grupo norte-americano, o trabalho anunciado durante o lançamento de Unprepared, há poucos meses, mostra um completo amadurecimento da banda, ainda íntima do mesmo som testado em 2012 durante o lançamento do ótimo Afar.

O novo álbum – que conta com distribuição pelos selos Shelflife e Fastcut –, revela ao público um conjunto de 10 faixas inéditas. São composições claramente inspiradas pelo passado, referência marcada na interferência constante dos sintetizadores, vozes carregadas de efeitos ecoados e guitarras que esbarram de leve no Dream Pop do grupo nova-iorquino The Pains of Being Pure At Heart, projeto que apresentou Feldman no final da década passada.

 

Ice Choir – Designs In Rhythm

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Artista: Séculos Apaixonados
Gênero: Indie, Pós-Punk, Synthpop
Acesse:  https://soundcloud.com/seculos-apaixonados

 

Não é difícil montar uma lista de artistas recentes que são assumidamente inspirados pela música produzida na década de 1980. Projetos nacionais e estrangeiros que sufocam pelo uso exagerado de sintetizadores vintage, batidas ecoadas, estética neon e versos sempre pegajosos, radiofônicos. Um eterno resgate do passado, maquiado e vendido ao público como novidade. Exageros, clichês e pequenas fórmulas instrumentais que os integrantes da Séculos Apaixonados buscam perverter nas canções de O Ministério da Colocação (2016, Balaclava Records).

Segundo álbum de estúdio do coletivo formado por Gabriel Guerra (voz e guitarra), Lucas de Paiva (teclado e saxofone), Felipe Vellozo (baixo), Arthur Braganti (Teclado e Voz) e Lucas Freire (bateria), o sucessor do elogiado Roupa Linda, Figura Fantasmagórica (2014) confirma a busca do quinteto carioca por um som ainda mais complexo, anárquico e desafiador. São sintetizadores sujos, ruídos submersos e versos abafados que tanto refletem o caos dentro de qualquer centro urbano como as constantes variações do mercado financeiro.

Livre do romantismo incorporado no trabalho anterior, O Ministério da Colocação faz de cada canção um curioso exercício criativo. Instantes em que o grupo passeia pelo mesmo pós-punk de artistas como Public Image Ltd. e The Fall – vide Disfarçando Riquezas na Triagem –; brinca com referências inusitadas – caso do “encontro” entre Roxy Music e Roupa Nova nas melodias de Dedo em Riste – e ainda coleciona fragmentos instrumentais de forma propositadamente instável, delirante – proposta explícita na urgência de Ele Também Foi Pra São Paulo.

Da abertura ao fechamento disco, parece difícil prever a direção seguida pela Séculos Apaixonados. O coro de vozes na pegajosa A Origem das Espécies, a ambientação nostálgica de Uma Vida Toda Planejada, o toque melancólico e sombrio em Medo da Cidade Quando Chove. Enquanto Roupa Linda, Figura Fantasmagórica parecia confortar todas as canções em uma atmosfera apaixonada e brega, com o presente disco são as trilhas independentes de cada canção que acabam seduzindo o ouvinte.

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Artista: Crystal Castles
Gênero: Electronic, Experimental, Synthpop
Acesse:  http://www.crystalcastles.com/

 

Depois de oito anos como vocalista do Crystal Castles, conflitos com Ethan Kath fizeram com que Alice Glass deixasse o projeto em medos de 2014. Enquanto a cantora deu início a um novo trabalho em carreira solo, apresentando em setembro de 2015 a caótica Stillbirth, Kath decidiu seguir em frente com a banda. Em julho do mesmo ano, o produtor lançou a curiosa Deicide, um esboço para o material que seria entregue um ano mais tarde em Concrete, primeira canção em parceria com Edith Frances e a ponte para o quarto álbum de inéditas da (nova) dupla: Amnesty (I) (2016, Fiction / Casablanca).

Tal qual o primeiro registro do Crystal Castles, obra lançada em março de 2008, o presente álbum mostra a tentativa de Kath em organizar em estúdio. São composições que flertam com diferentes gêneros – vide a EDM na inaugural Femen –, músicas que dialogam de forma explícita com os primeiros inventos da banda – como em Concrete –, além de faixas que surgem como verdadeiras sobras do último registro de inéditas dos canadenses – semelhança explícita na derradeira Their Kindness Is Charade.

Com Frances nos vocais, Kath se concentra em brincar com os contrastes. Um bom exemplo disso está na construção de Sadist. Quinta faixa do disco, a canção dominada pelo uso de bases minimalistas, vozes brandas e ruídos sintéticos flutua entre a serenidade e a explosão. Em Fleece, segunda música do trabalho, uma reciclagem do mesmo conceito. Respiros breves que antecedem o caos, como se o casal desse voltas em torno de uma redundante fórmula instrumental.

Observado de forma atenta, a principal diferença entre Amnesty (I) e os três primeiros discos do Crystal Castles está na arquitetura simplista que sustenta o presente álbum. Pare por alguns minutos para ouvir músicas como Suffocation, Baptism, Crimewave ou Vanished e perceba como as texturas eletrônicas, vozes e constantes alterações nas batidas crescem com delicadeza ao fundo de cada canção. Ainda que músicas como Enth e Sadist encantem pelo detalhismo, em nenhum momento do disco é possível perceber o mesmo cuidado por parte de Kath.

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Responsáveis pela trilha sonora de Stranger Things, um dos trabalhos mais comentados dos últimos meses, Kyle Dixon e Michael Stein estão longe de parecer novatos. Donos de uma enorme seleção de obras catalogadas no Bandcamp, a dupla, que costuma se apresentar sob o título de S U R V I V E, reserva para os próximos meses o lançamento de um novo álbum de inéditas, RR7349 (2016), trabalho anunciado há poucas semanas com a hipnótica A.H.B..

Parte do mesmo trabalho, a recém-lançada Wardenclyffe mostra a busca da dupla norte-americana por um som essencialmente experimental e sombrio. Mesmo que os sintetizadores da faixa pareçam dialogar com diferentes obras do cinema de horror das décadas de 1970 e 1980, sobrevive nas batidas e constantes curvas rítmicas a força da presente canção. Diferentes ideias que se amarram dentro de um mesmo bloco de sons eletrônicos.

RR7349 (2016) será lançado no dia 30/09 pelo selo Relapse Records.

S U R V I V E – Wardenclyffe

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Artista: Kyle Dixon & Michael Stein
Gênero: Synthpop, Ambient, Eletrônica
Acesse: http://survive.bandcamp.com/

 

O Senhor dos Anéis, referências aos filmes de Steven Spielberg, The Smiths, o terror de John Carpenter e Wes Craven, Star Wars, RPG, Goosebumps, os livros de Stephen King, The Clash, Alien: O Oitavo Passageiro, John Hughes, Os Goonies e toda uma coleção de referências nostálgicas. Se você cresceu nas décadas de 1980 ou 1990, talvez seja difícil não ser seduzido pela trama, doses concentradas de mistério e personagens que surgem em Stranger Things, série produzida pelos irmãos Matt e Ross Duffer – “Duffer Brothers” – para a Netflix.

Entretanto, para além dos limites do seriado, teorias, metáforas e personagens cativantes, sobrevive na trilha sonora da produção uma delicada homenagem à música produzida no mesmo período em que se passa a série. Em Stranger Things, Vol. 1 e Vol. 2 (2016, Lakeshore), os integrantes do S U R V I V E, Kyle Dixon e Michael Stein, se concentram na construção de um som não apenas climático e restritivo, mas que dialoga de forma natural com os instantes de tensão da obra, movimentando parte expressiva das cenas, diálogos e acontecimentos da trama.

Da homônima faixa de abertura da série – um jogo de texturas eletrônicas com pouco mais de um minuto de duração –, passando pelo clima aventureiro de Kids, o minimalismo sombrio de Eleven e Crying, até alcançar o suspense de músicas como The Upside Down, I Know What I Saw e Photos in the Woods, difícil ouvir a trilha sonora da série e não ser imediatamente transportado para o cenário de Hawkins, Indiana, onde se passa toda a ação de Stranger Things. Ruídos sintéticos, detalhes e batidas pontuais que cercam o ouvinte a todo o instante.

Donos de uma rica seleção de obras catalogadas no Bandcamp – como discos, singles e versões digitais de registros lançados em fita cassete –, Dixon e Stein incorporam parte do material produzido nos últimos anos para dentro da trilha de Stranger Things. Seja na produção de faixas mais curtas, caso de Fresh Blood e A Kiss, como na construção de peças extensas, vide Hawkins e No Weapons, durante toda a formação do álbum, pequena pontes atmosféricas incorporam a mesma ambientação detalhista explorada em obras como LLR002 (2010) e TLLT21 (2012).

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Ainda que as primeiras composições da nova fase do Crystal Castles – diga-se “sem Alice Glass” – tenham bagunçado a cabeça do público, com o lançamento de Char, há poucas semanas, Ethan Kath e Edith Frances, a nova parceira do produtor canadense, provaram que a projeto continua em boa fase. Naturalmente íntima dos primeiros trabalhos do CC, a nova faixa veio como um complemento ao som produzido nas antecessoras Concrete e Deicide, contribuindo para a chegada da recente Fleece.

Também íntima do mesmo som produzido por Kath em 2008, a nova faixa delicadamente flutua entre instantes de calmaria e explosão. Enquanto a voz de Frances cresce e encolhe a todo o instante, revelando um conjunto de manipulações eletrônicas, está nas mãos do parceiro de banda o completo domínio das batidas e sintetizadores, ferozes, tão caóticos quanto qualquer outro registro produzido pelo Crystal Castles nos últimos anos.

Amnesty (I) (2016) será lançado no dia 19/08 via Casablanca Records.



Crystal Castles – Fleece

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Artista: Opala
Gênero: Synthpop, Electronic, Indie Pop
Acesse: https://www.facebook.com/opalaproject/

 

É difícil encarar o som produzido por Maria Luiza Jobim e Lucas de Paiva como parte da presente cena carioca. Mesmo próximos de coletivos como Mahmundi, Séculos Apaixonados e Baleia — artistas em que a dupla esteve envolvida nos últimos anos —, está no diálogo com diferentes nomes do panorama estrangeiro — principalmente projetos do cenário nova-iorquino e canadense — a base de cada uma das composições que delicadamente crescem dentro do primeiro álbum de estúdio do Opala.

Entregue ao público três anos após o lançamento do primeiro EP de inéditas da dupla, o registro que conta com distribuição pelo selo RockIt! de Dado Villa-Lobos, flutua em meio a sintetizadores nostálgicos, batidas contidas e versos agridoces, sempre intimistas. Sussurros românticos e confissões que tanto detalham cenas e acontecimentos sufocados pela melancolia de uma mesma personagem, como indicam a passagem para um universo de exaltações românticas e sorrisos tímidos.

Naturalmente íntimo do material apresentado em 2013, o presente álbum assume um novo caminho ao explorar versos cada vez mais acessíveis e bases melódicas que cobrem grande parte do trabalho. Longe do propositado recolhimento que parecia orientar músicas como Two Moons e Shibuya, Jobim e Paiva se concentram na produção de um som essencialmente pop e nostálgico. Faixas que abraçam a música dos anos 1980, porém, mantém firme a relação com uma série de projetos recentes.

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Terceira faixa do disco, The Noise talvez seja a melhor representação de toda essa pluralidade de temas e resgates instrumentais que acabam movimentando o álbum. Ao mesmo tempo em que incorpora elementos típicos da música produzida há três décadas, difícil passear pela canção e não lembrar de uma variedade de artistas atuais. Nomes como a dupla nova-iorquina Chairlift, os suecos do Niki & the Dove e até coletivos como Mr. Twin Sister e os canadenses do TOPS.

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. Caroline Polachek e Patrick Wimberly passaram os últimos meses trabalhando na divulgação do ótimo Moth (2016). Terceiro álbum de estúdio do Chairlift, o registro que flutua entre o pop e o R&B parece ter deixado a relação com a música dos anos 1980 para trás, transformação explícita no uso contido de sintetizadores – marca do antecessor Something (2012) –, além do uso de batidas cada vez mais íntimas do Hip-Hip/Funk. Deixada de fora da edição final do disco, Get Real talvez seja a canção que…Continue Reading “Chairlift: “Get Real””

. Com o verão tomando conta de todo o Hemisfério Norte, Filip Nikolic e Jeff Paradise não poderiam deixar de presentear o público do Poolside com uma canção inédita. Entregue poucos meses após o lançamento da ótima Contact High (2016), mais recente mixtape produzida pela dupla californiana, a nova faixa revela ao público o que existe de melhor no trabalho dos dois produtores, flutuando em meio a vozes etéreas e batidas deliciosamente dançantes. Típica composição do Poolside, a canção de quase cinco minutos de duração parece estabelecer uma ponte…Continue Reading “Poolside: “And The Sea””