Artista: Luísa Maita
Gênero: Eletrônica, Samba, Alternativa
Acesse: http://www.luisamaita.com.br/

 

A imprevisibilidade talvez seja o principal traço do trabalho de Luísa Maita em Fio da Memória (2016, Cumbancha). Produzido em parceria com o músico Zé Nigro, o sucessor do elogiado Lero-Lero (2010), obra que apresentou a cantora e compositora paulistana ao grande público, reforça a essência experimental e naturalmente inventiva da artista. Uma quebra brusca em relação ao samba melódico e a voz limpa que orienta as canções do trabalho entregue há seis anos.

Com uma “gestação prolongada”, como resume o texto de apresentação do disco, o novo álbum precisou de quase meia década até ser finalizado. Em produção desde 2012, Fio da Memória nasce como uma extensão torta do material entregue por Maita no primeiro álbum de inéditas. Entre ruídos e bases eletrônicas, crônicas musicadas que dialogam com o samba, incorporam elementos tribais e diferentes gêneros musicais, como o jazz e o rock.

A julgar pelo preciosismo que orienta Ela, sétima canção do disco, é fácil perceber porquê o novo álbum de Maita levou tanto tempo até ser finalizado. Perceba como sintetizadores se espalham sem pressa ao fundo da canção, hipnóticos. Um jogo de batidas e vozes que se completam lentamente, resultando em uma canção que sussurra detalhes na cabeça do ouvinte. O mesmo cuidado acaba se refletindo em outros instantes do disco, seja na euforia de Porão ou no sopro tímido da derradeira Jump.

Composição escolhida para inaugurar o disco, a eletrônica Na Asa é apenas a ponta do imenso iceberg criativo que caracteriza o trabalho. A voz chiada, batidas cíclicas, entalhes econômicos. Longe da exposição imediata dos elementos, Maita e o parceiro de produção, Tejo Damasceno, uma das metades do Instituto, parecem jogar com o minimalismo dos arranjos. Minúcias, segredos e pequenas sobreposições que se espalham de forma a completar a voz firme da cantora.

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. Em meados de maio, quando Russo Passapusso apresentou as primeiras canções em carreira solo – Flor De Plástico e Paraquedas -, grande parte experiências reservadas ao então inédito Paraíso da Miragem (2014) pareciam prontamente anunciadas ao ouvinte. Ledo engano. Bastam alguns segundos no interior do trabalho para perceber quão amplo é o universo que passa a ser explorado pelo cantor – até então, mais conhecido pelo trabalho com o Baiana System. Disponível para download gratuito no próprio site de Passapusso, o registro de 12…Continue Reading “Russo Passapusso: “Paraíso da Miragem””

Anelis Assumpção
Brazilian/Alternative/Female Vocalists
http://www.anelisassumpcao.com/

Por: Cleber Facchi

A julgar pela estrutura dos temas e ritmos explorados em Amigos Imaginários (2014, Independente), pouco se modificou na proposta lançada por Anelis Assumpção em Sou suspeita, estou sujeita, não sou santa (2011). De fato, mesmo o time de instrumentistas que cercam a cantora no novo álbum – Bruno Buarque, Cris Scabello, MAU e Zé Nigro – ainda o mesmo do registro anterior. Surpresa que desse cenário tão estável floresça uma obra ao mesmo tempo cômoda e irrestrita, encharcada pela novidades.

Parcialmente livre de comparações ao trabalho do falecido pai – o também cantor e compositor Itamar Assumpção -, Anelis trava na leveza das próprias canções um mecanismo de fuga desse suposto cenário próximo. Mesmo apoiada pela lírica e arranjos de Rodrigo Campos, Russo Passapusso e Kiko Dinucci – “discípulos” de Itamar -, a cantora se entrega com naturalidade ao oposto, resumindo a atmosfera do disco em um “pop” sutil, expressão segura da própria identidade.

Como uma versão “adaptada” do mesmo plano complexo de Metá Metá, Passo Toro e outros coletivos próximos – sempre distantes do “grande público” – Anelis abraço com acerto o “descompromisso”. Não por acaso o álbum derruba todas as barreiras levantadas no disco anterior, premissa para a fluidez de boas melodias em Eu Gosto Assim e demais faixas acessíveis que recheiam o álbum. Contudo, não espere tropeçar no mesmo palco de Tulipa Ruiz, Bárbara Eugênia e outras “divas” da atual cena paulistana. O propósito de Assumpção aqui é outro.

Da relação com outras cantoras próximas, apenas o diálogo com Iara Renó e Céu prevalece. De Renó, antiga parceira na já extinta Dona Zica, é de onde parece vir a inspiração para a enérgica de Minutinho, faixa mais intensa de todo o álbum e ponte para ainda quente cenário de Iara, lançado em 2013. Por sua vez, Céu aparece não apenas nos versos mutáveis de Song To Rosa, mas no explícito domínio do reggae que preenche e serve de estímulo para todo o trabalho. Já evidente no álbum de 2011, o gênero serve agora como liga para as canções, refletindo de forma autoral os mesmos conceitos incorporados em Vagarosa (2009).  

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. “Leve” parece ser a primeira palavra que surge na cabeça quando a música de Russo Passapusso começa a tocar. Mais conhecido pelo trabalho à frente do BaianaSystem, o cantor e compositor baiano reserva para o mês de agosto a chegada do primeiro álbum em carreira solo, Paraíso da Miragem, trabalho que garante sequência ao som conquistado em outros projetos, mas flutua com maior assertividade dentro da nova estética do artista. Antes da chegada do registro, uma parada em suas mais recentes criações: Paraquedas e…Continue Reading “Russo Passapusso: “Paraquedas” e “Flor De Plástico””