Cozinhando Discografias: The Smashing Pumpkins

 

Formado em 1987 na cidade de Chicago, Illinois, o The Smashing Pumpkins é um projeto de rock alternativo encabeçado pelo cantor, produtor e guitarrista Billy Corgan. Na formação original da banda, um trabalho em conjunto com os músicos Jimmy Chamberlin (bateria, percussão), James Iha (guitarra, vocal) e D’arcy Wretzky (baixo). Em plena ascenção na época do movimento grunge, o grupo é responsável por algumas das obras mais icônicas do rock alternativo no começo dos anos 1990. Trabalhos como Siamese Dream (1993) e Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995) que fizeram da banda norte-americana uma das mais influentes do período. Em mais uma edição da seção Cozinhando Discografias, o grupo teve cada um dos trabalhos de estúdio organizados do pior para o melhor lançamento.

 

#09. Zeitgeist
(2007, Reprise / Martha’s)

Com o fim das atividades do The Smashing Pumpkins, Billy Corgan decidiu se envolver em diferentes projetos e provar de novas sonoridades. Ponto de partida para essa nova fase, o enérgico Mary Star of the Sea (2003), primeiro (e único) registro do supergrupo Zwan, coletivo completo por membros do Slint, Tortoise, Chavez e A Perfect Circle. Em 2005, foi a vez da estreia solo de Corgan com TheFutureEmbrace, trabalho que une elementos da música eletrônica, shoegaze e hard rock. Um respiro breve que antecede a reativação da banda em parceria com o baterista Jimmy Chamberlin. Acompanhado dos produtores Terry Date e Roy Thomas Baker, em julho de 2007, Corgan deu vida ao sétimo álbum de estúdio do The Smashing Pumpkins: Zeitgeist. Pensado de forma comercial, cravejado de hits óbvios, caso de Tarantula e That’s the Way (My Love Is), o trabalho brinca com elementos pós-apocalípticos, sustentando no uso de um som autorreferencial o principal componente para a formação das canções. Embora massacrado pela crítica, Zeitgeist seria o grande responsável por apresentar o trabalho da banda a toda uma nova parcela do público.

 

#08. Monuments to an Elegy
(2014, BMG)

Entregue ao público em dezembro de 2014, Monuments to an Elegy segue exatamente de onde a banda parou em Oceania. Apresentado como parte da série Teargarden by Kaleidyscope, o trabalho de apenas nove faixas e pouco mais de 30 minutos de duração flutua entre instantes de profunda leveza e momentos de caos. Um ziguezaguear de sentimentos e arranjos versáteis que nasce de forma intensa em Tiberius, passa pela melancolia de Being Beige, prova de referências eletrônicas em Run2Me e  Anaise!, músicas que dialogam com a boa fase em Adore (1997), e segue em meio a pequenas reciclagens de elementos originalmente testados na década de 1990. A principal diferença em relação a outros trabalhos do grupo está no distanciamento de Corgan na formação de possíveis excessos. Trata-se do trabalho mais curto da banda, lembrando em alguns aspectos a mesma aceleração e urgência que marca o inaugural Gish (1991). Uma obra talvez menor quando observamos a extensa discografia do The Smashing Pumpkins, porém, em nenhum momento descartável.

 

#07. Machina II/The Friends & Enemies of Modern Music
(2000, Constantinople)

Poucos meses após o lançamento de Machina/The Machines of God (2000), Billy Corgan pediu à Virgin Records para que uma extensão do trabalho fosse distribuída gratuitamente ao público, via internet. Com a resposta negativa da gravadora, o músico decidiu criar o próprio selo, Constantinople, e apresentar ao público o extenso Machina II/The Friends & Enemies of Modern Music (2000). Trata-se de uma seleção de faixas produzidas durante as sessões do registro entregue meses antes. Um som propositadamente ruidoso, cru, reflexo da instável relação do músico com os parceiros de banda — James Iha (guitarra, voz) D’Arcy Wretzky (baixo em algumas faixas), Melissa Auf der Maur (ex-integrante do Hole e responsável pelo baixo), além, claro, de Jimmy Chamberlin (bateria). São pouco mais de 90 minutos de duração que ocupam o LP duplo e três EPs do registro, como um estranho complemento ao quinto álbum de estúdio da banda. Marcado pela melancolia dos versos e arranjos, The Machines of God cresce como um doloroso ato de despedida, pontuando (temporariamente) o trabalho do grupo e servindo de passagem para uma nova fase de Corgan em carreira solo.

 

#06. Oceania
(2012, EMI / Caroline Distribution / Reprise / Martha’s Music)

Inspirado pelos arcanos do tarot, em 2009, Billy Corgan deu início a um de seus projetos mais audaciosos: Teargarden by Kaleidyscope. Trata-se de uma obra viva, em constante processo de produção. São composições avulsas, EPs e fragmentos que se agrupam dentro de um mesmo universo conceitual. Parte dessa coleção de obras, Oceania (2012), sétimo álbum de estúdio do The Smashing Pumpkins, talvez seja o trabalho em que a banda de Chicaga confessa suas influências com maior naturalidade. Do momento em que tem início, na pulsante Quasar, melodias empoeiradas, típicas do som produzido na década de 1970, ganham merecido destaque. Difícil não lembrar de Black Sabbath, Led Zeppelin e outros tantos projetos que serviram de referência para a obra de Corgan ao longo da carreira. Uma clara tentativa da banda em voltar aos eixos, deixando para trás grande parte do som óbvio que havia sido explorado durante a construção do antecessor Zeitgeist. Com produção assinada por Bjorn Thorsrud (The Dandy Warhols, Whitesnake), Oceania também veio acompanhado da nova formação da banda: Jeff Schroeder (guitarras), Nicole Fiorentino (baixo) e Mike Byrne (bateria).

 

#05. Machina/The Machines of God
(2000, Virgin)

Pensado como o último registro de inéditas antes do encerramento das atividades da banda, Machina/The Machines of God (2000) traz de volta a mesma energia e peso das guitarras que marcam a obra-prima Siamese Dream (1993). Livre das ambientações eletrônicas e relação com o rock gótico de Adore, o quinto álbum de de estúdio do The Smashing Pumpkins segue frenético do primeiro (The Everlasting Gaze) ao último instante (Age of Innocence), encontrando em uma base conceitual o estímulo para a construção dos versos. Celebrado pela volta do baterista Jimmy Chamberlin à banda, o trabalho de mais de 70 minutos de duração mergulha em oceanos de pura distorção, batidas rápidas e versos berrados, como um diálogo com a obra de veteranos do shoegaze, principalmente My Bloody Valentine e Ride, influências confessas para o som produzido por Corgan. Lançado em um período de forte predominância da música pop/adolescente no topo das paradas de sucesso, Machina/The Machines of God acabou passando quase despercebido pelo grande público, porém, foi acolhido de maneira relativamente positiva pela imprensa.

 

#04. Adore
(1997, Virgin

Em estúdio, as gravações do The Smashing Pumpkins nunca foram tranquilas. Conflitos entre os integrantes da banda, o pulso firme de Billy Corgan e conflitos pessoais acompanharam o trabalho do grupo desde o inaugural Gish (1991). Gravado logo após a morte da mãe de Billy Corgan e do divórcio do cantor, Adore elevou essa mesma ambientação caótica a outro nível. Inventivo quando próximo do antecessor Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995), o álbum que conta com produção dividida entre Brad Wood e Flood mostra a necessidade da banda de Chicago em se reinventar. Um bom exemplo disso está na base eletrônica que costura grande parte do trabalho. Inserções minimalistas que se revelam logo na abertura do disco, em Ava Adore, passa pelos sintetizadores e batidas crescentes de Daphne Descends e segue até a construção de músicas como Behold! The Night Mare, próximo ao encerramento do disco. Uma criativa desconstrução, mas que em nenhum momento oculta as avalanches de ruídos e guitarras que Corgan vinha explorando desde o começo da carreira.

 

#03. Gish
(1991, Caroline / Hut)

Com a boa repercussão em torno dos singles I Am One e Tristessa, este último, distribuído pelo selo norte-americano Sub Pop, Billy Corgan e os integrantes do The Smashing Pumpkins decidiram entrar em estúdio para a gravação do primeiro álbum de estúdio, Gish (1991). Produzido em um intervalo de apenas quatro meses e com um custo de 20 mil dólares, o registro que conta com a produção de Butch Vig, baterista do Garbage e responsável pelo clássico Nevermind (1991) do Nirvana, resume grande parte do som que viria a ser explorado pela banda de Chicago ao longo da década. Com título inspirado na primeira dama do cinema estadunidense, a atriz Lillian Gish (1902–1987), o álbum de 10 faixas flutua em meio a nuvens de distorção, costuras psicodélicas e blocos de ruídos que confirmam o fascínio do guitarrista pelo Hard Rock dos anos 1970 e 1980. Uma obra que oscila entre instantes de raiva (Bury Me) e pura confissão sentimental (Rhinoceros), reforçando o cuidado de Corgan na composição dos versos e texturas instrumentais que preenchem o registro.

 

Menção Honrosa: Pisces Iscariot
(1994, Virgin)

Com a boa repercussão em torno de Siamese Dream (1993), em 1994, os integrantes do The Smashing Pumpkins decidiram lançar a coletânea de b-sides e raridades Pisces Iscariot. Curioso retrospecto dos primeiros anos do grupo norte-americano, o trabalho passa por canções que acabaram complementando singles como Today (Hello Kitty Kat) e Cherub Rock (Pissant); canções originalmente lançadas como parte do EP Lull (1991), caso de Blue, além de músicas que acabaram ficando de fora do trabalho entregue um ano antes, vide Whir. Interessante perceber que mesmo produzido a partir de fragmentos gravados em momentos específicos da carreira do The Smashing Pumpkins, Pisces Iscariot mantém firme a homogeneidade dos arranjos e versos. Um cuidado que alcança seu melhor resultado na extensa Starla, música originalmente lançada em 1991 como parte do single I Am One, mas que acaba funcionando como ponto central do trabalho. Pouco mais de 11 minutos de duração em que Billy Corgan e os parceiros de banda passeiam por diferentes atos instrumentais, ruídos e vozes.

 

#02. Mellon Collie and the Infinite Sadness
(1995, Virgin)

A megalomania e perfeccionismo de Billy Corgan andam lado a lado em Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995). De essência grandiosa, ancorado em arranjos orquestrais e diálogos com o rock progressivo, o trabalho dividido em dois discos, 28 composições e mais de duas horas de duração transporta grande parte do material apresentado em Siamese Dream (1993) para um novo e complexo território. Produto do completo isolamento de Corgan — o cantor chegou a compor mais de 50 canções para o disco —, o álbum de metades específicas — Dawn To Dusk e Twilight To Starlight —, revela ao público algumas das principais composições da banda norte-americana. Enquanto o primeiro disco se abre para faixas como Tonight, Tonight, Zero e Bullet with Butterfly Wings, para o segundo trabalho, músicas como 1979, Thirty-Three e Bodies mostram a força dos sentimentos e das guitarras de Corgan. Instantes de fúria concentrada, recolhimento, lamento e raiva. Um universo de pequenas possibilidades que cresce ainda mais na produção coesa de Alan Moulder (Nine Inch Nails, Foo Fighters) e Flood (U2, PJ Harvey). Ponto de partida para uma catastrófica turnê — em um show na Irlanda, um fã da banda seria pisoteado até a morte —, Mellon Collie and the Infinite Sadness viria a se transformar no álbum duplo mais vendido da década, posicionando o grupo de Chicago em um posto de maior destaque.

 

#01. Siamese Dream
(1993, Virgin)

A sufocante comparação, pressão e tentativa da imprensa em conectar o trabalho produzido pelo The Smashing Pumpkins ao movimento Grunge; o vício em drogas do baterista Jimmy Chamberlin; pensamentos suicidas e a crescente depressão de Billy Corgan. Não seria uma surpresa se o grupo de Chicago chegasse ao fim logo após a divulgação do primeiro álbum de estúdio, Gish (1991). Inspirado pela atmosfera pessimista que parecia cercar o quarteto, em dezembro de 1992, Corgan e os parceiros de banda acabaram mudando para o interiorano município de Marietta, na Georgia, onde, junto do produtor Butch Vig, deram início às gravações de Siamese Dream (1993). Do grito angustiado que cresce na inaugural Cherub Rock (“Deixe me sair / Deixe me sair“), passando pela positividade sarcástica de Today (“Hoje é o melhor / Dia que já vivi“), ao tom pessimista da orquestral Disarm (“Tire essa criança dentro de mim“), cada instante no interior do disco explode em meio a emoções e sentimentos dolorosamente escancarados. Composições que refletem sobre o período conturbado na carreira da banda — em permanente conflito dentro de estúdio —, ou mesmo versos que dialogam com a infância e adolescência problemática do vocalista. Fragmentos que confirmam a maturidade e rica identidade musical da banda, do primeiro ao último instante regida com frieza pelo pulso firme de Corgan, responsável pela gravação de grande parte dos instrumentos.

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